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CONTO "AOS PÉS DO ONIPOTENTE"

CONTO "AOS PÉS DO ONIPOTENTE"

CONTO

AOS PÉS DO ONIPOTENTE

Ticiano não se misturava. Não por rejeição aberta, apenas não acontecia. Ainda assim, orbitava a turma: nas provas de português, era útil. Salvava, passava as respostas. Isso bastava para garantir respeito e alguma proteção.

Vinhas Velhas se escondia entre morros. O sol partia cedo, como quem desiste. Fundada por italianos expulsos do Vêneto, guardava na boca o talian. O português vinha depois, aprendido, forçado. Em Ticiano, não. Nele, a língua assentava com precisão, era seu único domínio.

Entre os colegas mais velhos, especialmente os repetentes, como Polenta, isso valia muito. Um metro e oitenta, largo, forte. Mais homem do que menino. Ninguém mexia com quem estivesse sob sua sombra.

Depois da escola, os garotos invadiam parreirais e corriam para o arroio. A água era traiçoeira. Mais adiante, despencava numa cachoeira que já levara alguns.

— Vem! — chamou Polenta. — Eu te seguro.

Ticiano hesitou, mas entrou. Não queria parecer fraco.

Até o peito, foi tranquilo. Depois, o pânico. A correnteza o puxou, os pés escorregaram nas pedras. Foi arrastado.

Polenta mergulhou sem pensar. Nadou contra a força da água, alcançou-o e o prendeu junto ao corpo. Voltou de costas, firme, usando as pernas como impulso.

Ticiano, sem ar, via apenas aquilo: os pés enormes cortando a água, ritmados, seguros, guiando-os de volta como leme.

Chegaram à margem. Polenta riu, aliviado. Ticiano, arfando, saiu correndo.

— Nem um obrigado? — resmungou o outro.

Em casa, demorou no banho. Observou os próprios pés, pequenos, sem graça.

Depois abriu a enciclopédia e leu sobre eles, como quem tenta entender algo que não sabe nomear.

A mãe o chamou. Coroinha não podia atrasar. Vestiu a túnica, a sobrepeliz e seguiu para a igreja. Naquela Semana Santa, o mundo parecia mais escuro. Era o Tenebrae: ritual das trevas.

A nave estava cheia. Viu o pai de Polenta. Olhou-lhe os pés. Herdara.

Ticiano levou o tenebrário. Tentou acender as velas, falhou. O padre perdeu a paciência, tomou-lhe os fósforos, acendeu-as ele mesmo. Seguiu o rito: leituras, lumes que deveriam se apagar.

Ticiano precisava soprar as velas. Distraiu-se: Polenta entrava, de Havaianas, os pés desmedidos. Tossido o aviso pelo pároco, assoprou. Penumbra.

— Está consumado! — proclamou o sacerdote.

E quase se consumou. As velas eram daquelas teimosinhas, voltaram a acender. Ticiano voltou a assoprá-las. Derrubou o candelabro. O tecido da mesa da eucaristia pegou fogo.

Gritos. Antes que o caos crescesse, Polenta avançou. Três passos bastaram. Arrancou o pano em chamas e esmagou o fogo com os pés. A dança firme, as chamas cedendo sob a pele tensa, as veias saltadas, músculos em contração.

— Já te salvei da água e do fogo. Do ar vai ser difícil — brincou.

Ticiano, outra vez, fugiu.

Naquela noite, sonhou. Multidões, fumaça, calor, pés por toda parte. Das brasas, alguém surgia. Um halo de luz. Olhou os pés: não queimavam. Reconheceu-os.

Polenta.

Acordou perturbado, o corpo em reação. Rezou, envergonhado.

No dia seguinte, o lava-pés. Homens descalços. O padre lavava com rudeza; a Ticiano coube secar os fiéis.

Demorava mais do que devia. Dedo a dedo. Espaços. Tendões. Calcanhares. Passou a massagear discretamente. Atribuía notas. Havia pés descuidados, outros surpreendentes. Alguns divinos. Havia ali algo novo, que o inquietava e atraía ao mesmo tempo.

Na sexta-feira, a imagem do Cristo morto, figura de gesso em tamanho real, pintada à mão, um lençol a cobrir a nudez. Minuciosamente esculpida com peitoral marcado, músculos delineados e pés viris. As chagas abertas pelos pregos da cruz.

A tradição cortou o deslumbramento. O padre ordenou:

— Beije os pés.

Ticiano obedeceu. Tocou, beijou. Repetiu. Demorou-se além do aceitável. Foi interrompido com brusquidão e dispensado da Via Sacra.

Do lado de fora, a procissão começava. Surgiu o incumbido de viver Jesus. Peruca ruim, manto improvisado.

Polenta.

Ele acenou. Ticiano virou o rosto e saiu.

— Fiz isso por você — disse Polenta, alcançando-o — Não vai ficar?

— Estou cansado.

— Reparou que faço de tudo para chamar sua atenção? Nunca se perguntou o motivo?

Não houve resposta. O padre, fazendo as vezes de soldado romano, interrompeu com uma açoitada com o chicote. Polenta seguiu para a cruz.

Depois disso, desapareceu. Trabalho. Mudança para o turno da noite na escola.

Ticiano tentou vê-lo. Esperou em missas, rondou o colégio à noite. Nada.

No Corpus Christi, quando pés pisavam a serragem pintada, não veio.

Decidiu também trabalhar. Foi parar na vinícola, destino comum.

Primeiro dia: setor de esmagamento.

— Vai ajudar o Artur — disseram.

O homem alto no lagar estava de costas, pisando uvas com movimentos lentos. Pés manchados de roxo, mergulhando e emergindo na massa.

— Artur! — chamaram.

Ele se virou.

Polenta.

O apelido eclipsara o nome de batismo do colega. Sorriu.

— Vem. Cabe mais um — disse, estendendo-lhe a mão.

Ticiano entrou descalço. Sentiu a polpa ceder sob os pés. Polenta o puxou, aproximou, guiou o movimento.

Vai e vem.

Sem pressa.

Aprendeu rápido.

Dizem que aquele vinho ficou diferente. Mais encorpado, vivo.

Não era a terra.

Nem a madeira.

Nem o tempo.

Era outra coisa.

Que não se dizia.

Mas fermentava.

Mauricio Danielli

Premiado com um Emmy Internacional. Após décadas dedicadas apenas aos roteiros, escreve seu primeiro romance: "Chiclete para os Olhos". Na televisão, coescreveu novelas para a Rede Globo (como Mauricio Gyboski), tendo entre seus principais trabalhos Fina EstampaO Sétimo Guardião Império, vencedora do Emmy e de diversos outros prêmios como Extra, F5 Folha Uol, Quem, Contigo e Troféu Imprensa. Seus textos e roteiros foram exportados para mais de 30 países e traduzidos para outras línguas em remakes e adaptações, caso de Marido en Alquiler (Fina Estampa) na emissora hispano-americana Telemundo. 

No cinema, corroteirizou Crô, o Filme Águas Primaveris (em processo de captação), entre outros. Em emissoras regionais, destaque para a primeira minissérie da Ulbra TV, Parada 90, que escreveu e também dirigiu. 

Fez e recomenda o Curso Online de Formação de Escritores. Possui no portfólio projetos de séries, filmes, sinopses de telenovela e novelas verticais. Contato: