
Desde pequena gosto de arrumar tudo: desde meus livros na estante, produtos nos corredores de supermercado e a gramática. Meus pais atribuíram isso a um possível TOC e, inclusive, ao fato de eu ser mais uma virginiana perfeccionista no mundo. Não sei ao certo, mas a ordem sempre me foi uma amiga acolhedora. Sou uma apaixonada por regras, gramaticais e sociais, e adoro me aprofundar nas razões de suas existências, atentando e adequando-me às exigências e expectativas. Bem camaleoa.
Aos 13 anos, caí de amores pelo Português. Até então, não tinha uma preferência entre as disciplinas, mas a lógica da Matemática me fascinava. Entretanto, com as aulas de orações e classes de palavras, enfim pude ver que há, sim, uma racionalidade (para além das conjugações e concordâncias). Uma mais surpreendente que a própria Matemática, pois, diferente da solução única, aprendi a interpretar sentidos por meio de vírgulas, tons de voz, ênfase e, até mesmo, pela própria escolha do tempo verbal. Nessa época, a cada frase de todo livro que lia, eu pausava a leitura para classificar aquela construção e reconhecer seus elementos. A literatura ganhou um caráter divertido de quebra-cabeça que ia para além da narrativa.
Durante o Ensino Médio, eu e minha paixonite pela gramática normativa escolhemos o curso de Letras, não pensando na área de Revisão, que até então não estava no meu radar, mas sim na de Tradução - a paixão pela gramática da língua portuguesa se estendeu a outros idiomas e, hoje em dia, falo espanhol, inglês e um pouco de coreano, e espero falar mais com os anos. Os livros são um refúgio para mim e não vejo melhor forma de agradecimento que contribuir para a publicação de novas histórias.
Em 2021, deu-se início a minha graduação na Universidade de São Paulo. Já no primeiro ano, entrei como corretora de redação para o projeto voluntário Escrevendo na Quarentena, cujo objetivo era ajudar jovens de baixa renda a se prepararem para o ENEM. Recebi muito destaque por minhas correções detalhadas e o carinho para com os alunos e, em 2022, fui convidada ao cargo de Líder de Correção. Para além das correções, fui responsável por criar materiais para as aulas de formação dos corretores e pela própria regência destas. Participei de reuniões, aprendi sobre Pacote Office e também me tornei uma das fundadoras oficiais ao ajudar a transformar o projeto em uma ONG reconhecida.
Em 2023, tive meu primeiro emprego: estagiária de redação num colégio particular. Todos os dias, professores de diversas áreas traziam pacotes de vários gêneros - de mapas mentais e tweets a redações ENEM e FUVEST - para que corrigisse no tempo mais hábil possível. Usava códigos específicos para cada questão gramatical, o que tornava a correção mais efetiva. Fui demitida no final do ano devido a um corte dos gastos, mas, graças a esse cargo, logo consegui meu segundo serviço no início do ano seguinte: professora de redação em outra escola.
E foi assim que, em plenos 21 anos, atuei como professora de redação para todo o colégio. Tinha 12 turmas, do 6º ao 3º, e foi uma loucura: o planejamento das aulas, o costume com o material didático e, principalmente, as correções. Eram muitas ao mesmo tempo e com um curto prazo para entrega, e tudo em meio a minhas próprias aulas da graduação. Não aguentei essa situação por muito tempo e voltei a enviar currículos. Rapidamente, uma empresa do outro lado da cidade me chamou para um teste e, menos de uma semana depois, pude me demitir da vida de professora.
Essa nova empresa atuava com documentos para tradução juramentada e técnica, e meu estágio era no setor de Revisão - a diretoria repassava as entregas dos tradutores e nós fazíamos o cotejo. Trabalhei com papéis em espanhol, português, inglês e italiano. Apesar de gostar do estágio, local e amizades que criei ali, ainda não era meu objetivo. Pedi demissão em dezembro, pois estava pensando em largar a licenciatura e queria me dedicar plenamente ao último semestre do bacharelado.
Porém, meus planos deram uma reviravolta quando, no início de 2025, um professor de espanhol da USP, com quem trabalhei como bolsista durante três semestres, me indicou para um estágio como assistente de espanhol em um colégio tradicional da cidade. Fui aprovada e, com o contrato durando dois anos, resolvi terminar o bacharelado no primeiro semestre do ano e, nos três seguintes, me formar na licenciatura. Trabalho direto com materiais didáticos, preparando-os para as aulas, e também com correção de textos e provas. Apesar de a área da educação ter me conquistado nesses anos todos, uma parte de mim nunca abandonou o sonho do mercado editorial.
Em janeiro, tive uma oportunidade. Uma amiga da USP me convidou para ser leitora beta de um livro dela, pois queria participar da Maratona KDP da Amazon (um projeto cujo objetivo era escrever e publicar um ebook em 30 dias). Mais do que só ler e opinar, me ofereci como revisora. Conversávamos todos os dias sobre algum detalhe, construção da narrativa, desenvolvimento dos personagens e, ao final, atuei não só como revisora, mas também preparadora do original, leitora crítica e responsável pela formatação para ebook. De certa forma, minha amiga me disse, fui coautora. Pouco tempo depois de o livro ser disponibilizado, essa mesma amiga me enviou a publicação com o anúncio do curso de Formação de Revisores pela Metamorfose.
Embora adore dar aulas, seja de Português, Redação ou Espanhol, aos poucos espero conseguir outras oportunidades em meio aos livros, principalmente como revisora e/ou tradutora. Estou no curso com o objetivo de ter uma formação mais profissional que me ajude a me preparar e a abrir essas portas.
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