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7 livros para entender os tipos de narrador

7 livros para entender os tipos de narrador

por Mariana Bortoletti

Dependendo de onde você está na sua carreira de escritor, já deve saber o que caracteriza cada um dos tipos de narradores. Mas você sabe reconhecê-los na prática? Para deixar a diferença entre eles bem clara, eu trouxe uma lista com 7 livros, cada um representando uma tipologia de narrador - com um twist! Eu também trouxe um pequeno quiz para você fazer antes de eu dar a resposta de qual narrador se trata. Bora lá?

1. Um estudo em Vermelho, Sir Arthur Conan Doyle

Esse é um dos romances mais famosos da série de livros na qual Sherlock Holmes é o protagonista.

Narrado por Dr. Watson, fiel escudeiro do detetive, nós acompanhamos as investigações de Holmes pela Londres vitoriana.

Agora, o desafio: a partir do trecho abaixo, qual tipo de narrador é este?

Acertou quem disse Narrador-Testemunha.

Esse tipo de narrador pertence à ordem da narrativa em primeira pessoa. Ou seja, é uma história narrada por um personagem que está vivendo a história.

Porém, o personagem narrador não é o protagonista, ele está apenas acompanhando a história do protagonista e narrando o que vê.

Por isso é um narrador-testemunha, ele dá um testemunho do que está acontecendo na trama.

Isso, porém, não significa que esse personagem não vá ter uma história própria. Na série de Sherlock Holmes, Watson tem conflitos próprios, mas ele não é o personagem mais importante na narrativa.

 

2. A Hipótese do Amor, Ali Hazelwood

Neste livro de comédia romântica, acompanhamos uma estudante de doutorado, Olive Smith, começar um namoro de mentira com o ranzinza Dr. Adam Carlsen e se apaixonar por ele no processo.

Vamos ao desafio: que tipo de narrador temos aqui?

Acertou quem disse Onisciente Seletivo.

Esse é um tipo de narrador em terceira pessoa que se caracteriza por narrar tudo aquilo que um personagem sabe (ele nunca narra o que o personagem não pode ver, saber ou fazer).

Ele é onisciente por narrar em terceira pessoa, mas é seletivo porque costuma estar dentro da cabeça de um só personagem, normalmente o protagonista.

Uma característica interessante é que esse é o tipo de narrador que mais se aproxima do narrador em primeira pessoa.

Basta trocar o "ela" por "eu" para termos uma narrativa no estilo narrador-protagonista.

 

3. As Crônicas de Gelo e Fogo, George R. R. Martin

Nesse (já) clássico da fantasia contemporânea, acompanhamos a saga de diversos personagens lutando pelo controle político de seu país ao mesmo tempo em que enfrentam as forças do inverno vindas do norte.

Que tipo de narrador é este aqui?

Acertou quem disse Onisciente Seletivo Múltiplo.

Este é mais um tipo de narrador de terceira pessoa, que narra de fora o que o personagem está fazendo.

Mas em vez de focar em um personagem só, ele foca em vários.

Em A Guerra dos Tronos, acompanhamos tudo o que se passa sob a perspectiva de Jon, Tyrion, Daenerys, Sansa, Ned e outros personagens.

 

4. Crepúsculo, Stephenie Meyer

Nesse romance fantástico, acompanhamos a história de amor uma humana e um vampiro. Edward e Bella enfrentam inimigos poderosos para poder viver ao lado um do outro.

Desafio: que tipo de narrador é este?

Acertou quem disse Narrador-Protagonista.

Esse tipo pertence às narrativas em primeira pessoa, mas diferente do narrador-testemunha, ele está dentro da cabeça do protagonista.

Ou seja, nós acompanhamos as aventuras do personagem principal por suas próprias palavras e perspectiva.

Esse tipo de narrador é o mais comum nos livros contemporâneos, especialmente dentro do gênero do romance.

 

5. O Cortiço, Aluízio Azevedo

Clássico da literatura brasileira, O Cortiço conta a história de diversos personagens que vivem no cortiço. É uma história sobre um período formador para o povo brasileiro.

Mas vamos ao teste: que narrador é este aqui?

Acertou quem disse Onisciente Neutro.

Esse tipo de narrador pertence à narrativa de terceira pessoa e suas principais características é que ele sabe tudo sobre todo mundo, mas não faz comentários que revelam sua identidade.

Ele é um narrador neutro, que se limita a contar a história, sem participar dela e nem comentar sobre ela. Porém, como é onisciente, ele sabe tudo o que se passa na cabeça de todos os personagens.

 

6. O Alienista, Machado de Assis

Nesse clássico do mais emblemático autor brasileiro, o autor narra as aventuras de um médico em meio à loucura e lucidez.

E aqui, que tipo de narrador temos?

Acertou quem disse Onisciente Intruso.

Esse tipo de narrador também pertence à ordem da narrativa em terceira pessoa, mas não é um narrador neutro. Muito pelo contrário.

O narrador intruso conta a história e comenta sobre ela, fazendo questão de mostrar que essa história está sendo narrada por alguém.

Muitas vezes, esse narrador é sutil (como no exemplo, em que percebemos sua presença pelo "nosso doutor" e comentários como "explicável, mas inqualificável"), mas na maior parte das vezes, ele quebra a quarta parede e faz comentários diretamente para o leitor.

Vale dizer que Machado de Assis era mestre nesse tipo de narrador.

 

7. Você, Caroline Kepnes

Por fim, eu trouxe um exemplo que não vai ter adivinhação porque este tipo de narrador não é nada comum na literatura.

Quando ele aparece, costuma estar acompanhado de outro tipo de narrador. Sim, estamos falando do narrador em segunda pessoa.

Esse tipo é mais usado em histórias de RPG (como nos livros de RPG solo Fighting Fantasy), em bulas de remédio e em manuais de instruções.

Porém, existem alguns exemplos de literatura que usa esse tipo de narrador para criar algum efeito.

Por exemplo:

Esse livro tem um narrador-protagonista. A história é narrada pelo Joe, mas ele é um stalker que está perseguindo uma mulher, Beck.

Enquanto ele a persegue, Joe conversa com ela na narrativa, usando um narrador em segunda pessoa quando nos conta o que ela está fazendo.


 

E aí, o que você achou desses exemplos? Conseguiu entender direitinho a diferença entre os tipos de narrador?

A importância de entender quem é quem no mundo dos narradores está em conseguir escolher aquele que vai passar exatamente a vibe e a mensagem que você quer para o seu livro.

Por isso, estude bem os tipos e faça uma escolha consciente, levando em consideração o seu público-alvo, o gênero literário e a forma que você vai contar sua história.

E se você tiver dúvidas e quiser uma ajuda com seu manuscrito, me chama!

Texto publicado originalmente no blog da autora, clique aqui para acessar

Mariana Bortoletti

Sou escritora, trabalho com marketing digital e tenho especialização em Escrita Criativa. Participei de coletâneas de editoras como Avec, Draco, Cinco Gatas e Psiu. Lancei meu primeiro livro solo, o Onirismos, de forma independente em 2020. Escrevo principalmente contos de fantasia e ficção científica, embora esteja começando a me aventurar na narrativa longa de romance. Desde 2009, produzo conteúdo literário e analiso histórias na internet.