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A Ansiedade não me quer escritora

A Ansiedade não me quer escritora

por Luisa Leite

Passei os últimos dias em uma cidadezinha no interior de Minas onde não tem wi-fi e o sinal de telefone mal pega. Então, todas as manhãs, assim que abro os olhos, não desbloqueio o celular como primeira ação do dia.

Ao invés disso, eu penso.

Fico deitada olhando pro teto, ouvindo o canto das seriemas enquanto sinto os primeiros raios de sol entrarem pela janela.

E foi justamente em um desses pensamentos matutinos que percebi uma coisa um pouco desconfortável: eu acredito, mas não confio.

Veja bem, pra muita gente, crença e confiança parecem sinônimos em um contexto mais amplo. Mas, olhando mais de perto, pelo menos pra mim, elas são coisas bem diferentes.

Vou contextualizar:

Eu acredito que posso ser escritora, mas ainda não confio que posso construir uma carreira na escrita. Eu acredito na potência das minhas palavras, mas não confio que elas possam alcançar lugares inimagináveis. Eu acredito que posso construir meu caminho nos meus próprios termos, mas, muitas vezes, não confio que sou capaz de fazer isso.

Quando percebi essa diferença, foi como se tivesse encontrado a primeira ponta de um novelo que eu tentava desembolar havia muito tempo. E então, a pergunta agora era outra: de onde vem tanta autodesconfiança?

Acredito que a resposta pra isso é uma bela combinação de fatores, mas acho que sei pelo menos uma das razões.

É por causa dela. Que se apresentou pra mim como uma amiga e me disse tudo que eu queria ouvir:

— Vou te ajudar a planejar o futuro, evitar erros estúpidos e diminuir seu sofrimento.

Ela soube me envolver muito bem, porque pensava que ela estivesse tentando me proteger.

Só depois caiu a ficha de quem ela realmente era.

A Ansiedade.

Aquela amiga que finge querer o seu bem, mas vive encontrando um jeito de destruir a sua autoestima. Faz comentários disfarçados de preocupação, planta dúvidas na sua cabeça e, quando você percebe, já não sabe mais se aquela insegurança sempre esteve ali ou se foi ela quem colocou.

Por exemplo: todos os dias eu acordo com a certeza de que tomei a melhor decisão ao mudar de carreira. Não me arrependo disso.

Mas a Ansiedade aparece em uma manhã tranquila e me diz:

— Deixa seu currículo pronto. Vi no LinkedIn que aquela indústria de alimentos tá contratando uma nova analista. Sempre é bom ter um plano B. Você precisa pagar as contas, não precisa?

E então, se esconde nas sombras deixando aquela pulguinha atrás da minha orelha.

Ou então quando escrevo um texto vulnerável, que sinto que finalmente estou pronta pra compartilhar, a Ansiedade sussurra no meu ouvido:

— Muito legal o que você escreveu. Mas acho que ninguém quer ler isso. Não tô falando por mal... só me importo muito com você.

E não para por aí.

Sobre tantos outros projetos que fazem meus olhos brilharem, em que eu realmente acredito e enxergo potencial, a Ansiedade me breca dizendo:

— Cuidado! A IA tá substituindo muita coisa. Como você vai se destacar nesse meio? Como vai deixar de ser só mais uma em um milhão? Sei lá, não me parece muito promissor?

Eu sou consciente o suficiente para não me iludir com um mundo de fantasia. Sei que vou encontrar muitas dificuldades pela frente e que construir uma carreira criativa não é simples nem linear.

Mas até que ponto é justo deixar a ansiedade falar mais alto na tentativa, quase sempre frustrada, de proteção?

Como lidar com as incertezas de uma carreira construída nos próprios termos quando os boletos no fim do mês são certeiros?

Bem... já percebi que não tem uma resposta certa pra isso tudo. Mas, aos poucos, estou entendendo que não dá pra esperar a ansiedade se calar para continuar caminhando.

Então sigo. Um passo de cada vez. Na direção daquilo em que acredito, enquanto aprendo, aos poucos, a confiar também.

E enquanto escrevia este texto, percebi outra coisa curiosa.

Toda vez que escrevo, a voz da Ansiedade diminui. Sou eu quem assume o controle.

Talvez seja por isso que ela não me queira escritora.

Luisa Leite

Escritora, viajante e inconformada. Curiosamente, minha primeira formação foi em Engenharia de Alimentos. Durante a graduação e os anos em que trabalhei na área, o que eu mais gostava era escrever procedimentos padrão. Na época, não sabia, mas talvez já estivesse ali uma pista do caminho que eu queria seguir.

Comecei a viajar sozinha por Minas Gerais, em pequenas escapadas que foram me ensinando a gostar da estrada, da descoberta e, principalmente, da liberdade de não saber exatamente o que vem depois. Em 2025, essa vontade me levou para um mochilão de sete meses pela Europa.

Foi durante essa viagem que decidi mudar de carreira de vez e tentar construir uma vida em torno daquilo que sempre gostei de fazer: escrever.

Hoje, sou escritora e professora de português para estrangeiros. Também sou autora de Então o mundo é nosso, uma newsletter no Substack onde publico ensaios pessoais e crônicas de viagem sobre os lugares que conheço, as coisas que descubro pelo caminho e as perguntas que ficam quando a viagem termina.

Em 2025, participei da coletânea de contos Casos de Família, publicada pela Editora Metamorfose.

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