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A biblioteca

A biblioteca

por Ana Cristina Sampaio Alves

A biblioteca

Nunca se soube ao certo quando aquela biblioteca foi construída. Os mais antigos diziam que ela existia antes da primeira história ser contada. Outros acreditavam que surgira quando o primeiro autor lamentou a última frase que escreveu. A verdade é que ali o tempo não se media em anos, mas em livros publicados.

As estantes erguiam-se tão alto que desapareciam na penumbra, sustentando volumes sem títulos nas lombadas. Não eram romances nem contos, mas vidas inteiras recolhidas depois da última página. Quando uma história terminava no mundo dos leitores, um exemplar surgia silenciosamente em alguma prateleira. Só então seus personagens descobriam que o fim de um livro não era exatamente o seu fim.

Havia uma sala de leitura onde ninguém lia. Mesas de carvalho ocupavam o centro do salão, com luminárias que jamais se apagavam. As cadeiras eram ocupadas por uma centena de homens, mulheres, crianças e criaturas cuja existência dependia apenas da memória dos leitores. Poucos conversavam entre si em voz baixa. A maioria permanecia imóvel há décadas. Todos esperavam. Não por leitores, pois deles já haviam recebido amor, desprezo, esquecimento ou glória. Esperavam outra espécie de visita: os autores.

Além das estantes, existia uma porta, que era aberta de tempos em tempos, por onde um personagem atravessava a fronteira entre a vida e a obra para encontrar seu autor. Não havia datas nem convites. Apenas um bibliotecário curvado pela idade, em passos lentos, percorria o salão e pronunciava um único nome.

Na mesa mais afastada dessa entrada, uma figura de quase dois metros e meio mantinha as mãos cruzadas sobre três volumes amarelados de um livro. A pele, costurada por inúmeras cicatrizes, não causava espanto àqueles frequentadores. Havia duzentos e oito anos que esperava ser chamado. Naquela manhã, pela primeira vez, o bibliotecário parou diante de sua mesa.

— A senhora Shelley chegou.

A Criatura levantou-se devagar, seguiu-o com paciência e atravessou a porta que se erguia quase até o teto da biblioteca. Era alta o bastante para que até os gigantes passassem sem baixar a cabeça. Antes de fechá-la atrás de si, o bibliotecário lhe disse que ali ninguém precisava se curvar frente ao próprio criador. Bastava entrar disposto a escutá-lo.

A Criatura se viu então diante de uma mulher de meia idade, baixa estatura e traços delicados. Os cabelos escuros já rendiam alguns fios prateados junto às têmporas, mas eram os olhos que prendiam a atenção. Pareciam pertencer a alguém que aprendera a olhar o sofrimento sem desviar o rosto.

Ela permaneceu em silêncio, sabia que estava ali para um acerto de contas. Após alguns minutos em que se limitou a examiná-la, a Criatura lançou a dúvida que mais lhe inquietara por dois séculos.

— Por que você precisava que eu fosse um monstro? — Como se temesse desperdiçar a oportunidade do encontro, emendou, não dando tempo a uma resposta — Você me deu mãos capazes de afagar uma criança, deu-me inteligência para aprender uma língua sozinho, fez-me sensível à música, à beleza e ao afeto. Então por que decidiu que meu rosto apagaria tudo isso? Eu nunca me senti um monstro. No entanto, fui abandonado à própria sorte por quem me criou, fui odiado e incompreendido. Morri da maneira mais terrível e nunca conheci o amor.

Mary Shelley não pareceu surpresa. Havia muito aprendera que quase todos os personagens faziam a mesma pergunta, ainda que com palavras diferentes. Respondeu em tom sereno:

— Eu jamais escrevi um monstro. 

Apesar das cicatrizes que lhe repuxavam o rosto, a Criatura franziu o cenho. Não havia desafio em seu olhar, apenas uma perplexidade cautelosa.

A senhora Shelley, mantendo a voz baixa, completou:

— Eu escrevi um espelho.

A frase permaneceu entre os dois como um idioma desconhecido. Seguiu-se um silêncio que parecia atravessar as paredes da sala e alcançar as estantes da biblioteca. A Criatura permaneceu imóvel, deixando surgir na mente as lembranças. Recordou o menino que recuara antes mesmo de ouvir sua voz, o velho que lhe fechara a porta, e Victor, incapaz de sustentar o olhar ao vê-lo nascer. Nunca haviam enxergado a mesma criatura. Em cada rosto reconheceu um medo diferente. Cada um encontrara nele aquilo que mais temia. Quem era o monstro ali?

A Criatura demorou a erguer os olhos.

— Então nunca serei livre?

Mary Shelley respondeu sem hesitar:

— Será no dia em que um leitor olhar para você e não enxergar um monstro, mas a si mesmo.

A Criatura sorriu pela primeira vez em dois séculos.

— Então ainda estou sendo escrito.

 

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.