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A crítica de Sílvio Romero, a crítica de José Veríssimo e a polarização sobre a obra de Machado de Assis

A crítica de Sílvio Romero, a crítica de José Veríssimo e a polarização sobre a obra de Machado de Assis

por Elenilto Saldanha Damasceno

A crítica de Sílvio Romero, a crítica de José Veríssimo e a polarização sobre a obra de Machado de Assis

O sergipano Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero foi advogado, professor, poeta e crítico literário. Nesta última atividade, mostrou-se um crítico severo da obra romântica de Machado de Assis, seu contemporâneo. A animosidade entre o irônico e pragmático Machado de Assis e o entusiasmado e questionador Sílvio Romero teria iniciado por causa dos comentários desfavoráveis apresentados por Machado, em A nova geração, à poesia libertária de Romero, autor de Cantos do fim do século, e a Tobias Barreto, de quem Romero era grande admirador e amigo. Em contrapartida, Romero criticou Machado como sujeito ausente da realidade social e por escrever como falava.

O crítico sergipano valorizou muito a Cultura popular e, por meio da obra História da Literatura Brasileira, tornou-se o primeiro crítico literário do país a incorporar o folclore e as tradições populares (mitos e cantos orais e escritos) ao patrimônio histórico cultural brasileiro. Apoiou seu posicionamento crítico e suas pesquisas no conceito natural-popular. Anteriormente, também publicara Cantos populares do Brasil e Contos populares do Brasil.

Seguiu as ideias deterministas e de origem darwinista do crítico literário e historiador francês Hippolyte Adolphe Taine, segundo as quais a História cultural deveria considerar sempre três elementos principais: o meio, a raça e o momento histórico. Para Romero, "todo brasileiro é mestiço; se não no sangue, nas ideias". O crítico uniu a História cultural brasileira à História social, política e econômica e propôs uma divisão historiográfica da Literatura em quatro períodos principais, não como um modelo absoluto, mas sim como uma alternativa entre outras possíveis:

a) Período de formação: de 1500 a 1750 (abrangeu desde as Literaturas informativas e catequéticas até o Barroco);

b) Escola mineira em duas gerações: de 1750 a 1830 (Arcadismo em Minas Gerais e, posteriormente, no Rio de Janeiro);

c) Período de transformação romântica: de 1830 a 1870 (Romantismo);

d) Gerações antirromânticas: de 1870 em diante (compreendeu o Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo).

Sua principal contribuição foi agregar as construções simbólicas de matriz popular e folclórica ao estudo e à História da Literatura brasileira. O Folclore era uma disciplina que nascera na Europa, por volta de 1870, pela necessidade de preservação do legado da tradição cultural, em face das profundas transformações que ocorriam no mundo, em processo de revolução industrial crescente e constante.

O paraense José Veríssimo Dias de Matos foi professor, jornalista e o principal crítico literário da obra de Machado de Assis. Em 1916, publicou também a sua História da Literatura Brasileira: de Bento Teixeira (1601) a Machado de Assis (1908). O poema épico Prosopopeia, de Bento Teixeira, foi o marco inicial de sua análise historiográfica literária, concluída com grande destaque à obra de Machado de Assis, da qual foi grande admirador.

Considerou a Literatura brasileira um rebento da Literatura portuguesa e, também, seu reflexo. Seu ponto de vista confrontou-se com as teorias deterministas para a explicação da origem de nossa Literatura, pois se firmou claramente na ideia da influência da Literatura portuguesa sobre a Literatura brasileira.

Em sua análise, Veríssimo apresentou uma classificação periódica simplificada. Definiu apenas dois períodos: o colonial e o nacional, cujo marco delimitador era o fato histórico da proclamação da independência, em 1822.

Quanto aos rumos da Literatura no final do século XIX e início do século XX, José Veríssimo classificou a crença e "superstição" nas ideias modernas como Modernismo. Essa classificação associou-se à aplicada na Espanha, onde Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo foram denominados Modernismo. Esclareça-se que se aplicou o termo Modernismo, assim referido, às tendências de conformação às ideias modernas daquela época e que, só mais tarde, e apenas no Brasil, o termo Modernismo passou a ser associado à ideia de pensamento de vanguarda.

Se Sílvio Romero considerou Machado de Assis limitado por não ser escritor realista, ou seja, desligado da realidade brasileira, foi justamente por esse aspecto que José Veríssimo, crítico refinadíssimo, exaltou Machado e sua obra. O futuro comprovou, definitivamente, que Veríssimo tinha razão.
 

Elenilto Saldanha Damasceno

www.eleniltodamasceno.com

Elenilto Saldanha Damasceno, gaúcho de São Leopoldo, é escritor, professor, jornalista, revisor e editor. É mestre em Estudos de Literatura e especialista em Literatura Brasileira (pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e é graduado em Letras e em Jornalismo (pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos).

Atualmente, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura na Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, colabora como colunista (crítico literário) nos sites Artistas Gaúchos e Escrita Criativa e atua como editor na revista Expressão Digital.