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A distância Segura

A distância Segura

por Rosane Rubinstein Pagliuca

A distância Segura

Na primeira vez em que Edgar faltou ao encontro de quarta-feira, o café pareceu maior. 

Alguém discutia a diferença entre resignação e aceitação no estoicismo, xícaras tilintavam atrás do balcão, o debate fluía normalmente, mas tudo parecia ligeiramente fora do eixo. Só percebi isso quando olhei pela terceira vez para a porta. 

 

— Ele não vem hoje? — perguntou Marcelo, mexendo no próprio cappuccino. 

Dei de ombros. 

— Acho que está viajando. Talvez ainda não tenha retornado. 

Falei como quem comenta a previsão do tempo. Eu vinha me aperfeiçoando nisso há anos. 

Passei o restante da noite me obrigando a participar das conversas. Edgar não me devia presença alguma, mas sua presença era o fundo da minha motivação. Sem ele, aquele lugar não era o mesmo. 

 

Já passava da meia-noite quando o celular acusou uma mensagem. Aquele toque personalizado fez meu coração disparar. 

"Sobreviveu ao debate filosófico sem mim? — perguntou rindo. 

Fiquei olhando para a tela mais tempo do que deveria. Sorri com toda minha alma e respondi no mesmo tom de brincadeira, como se eu achasse natural ele não ter estado presente. 

 

Na sexta-feira, chegou uma foto sem aviso. Céu alaranjado sobre uma estrada vazia. Sem texto. Só a imagem. 

Escrevi: "Meu horário predileto do dia." 

Ele mandou um emoji de sol. Nada mais. 

Fiquei olhando a conversa por um tempo que não sabia justificar. 

 

Na quarta-feira seguinte, cheguei atrasada. O grupo já ocupava duas mesas unidas perto da janela. Edgar falava alguma coisa sobre Marco Aurélio quando me viu entrando. 

Foi mínimo. 

Tão mínimo que talvez nem tivesse acontecido. 

Mas ele interrompeu a frase no meio. O rosto mudou, como se tivesse relaxado. E então sorriu. 

Meu coração disparou com a violência humilhante de sempre. 

 

— A filósofa chegou — ele disse quando me aproximei. 

— Trânsito. 

Sentei-me ao lado dele. Ninguém pareceu notar. Ou talvez eu estivesse imaginando importância onde não havia. 

 

O tema daquela noite girava em torno do controle emocional no estoicismo. Até que ponto a disciplina sobre os desejos era sabedoria ou apenas medo disfarçado de racionalidade. 

 

— Há quem confunda cautela com coragem — disse eu. — Como se recuar fosse sempre a escolha mais sábia, quando às vezes é apenas a mais confortável. 

— Ou a mais medrosa — respondeu Edgar, com um meio sorriso, girando o cappuccino entre os dedos. — Alguns riscos são só questão de treino. Mas tem gente que prefere não tentar. 

Ele olhou para mim por um segundo longo demais. Depois desviou os olhos e tomou um gole. 

A mesa retomou o debate. O assunto mudou. Sempre mudava. 

 

Mais tarde, quando o grupo começou a se despedir, Edgar mencionou quase de passagem que havia cruzado, na última trilha, com a mulher da reportagem — aquela que saiu na revista no mês anterior, a que tinha atravessado o Desfiladeiro do Caminito Del Rey sozinha, com mapa desatualizado e dezoito quilos nas costas, antes de sua reforma. 

— Ficamos conversando a tarde toda — disse ele. — As histórias dela são incríveis. 

— Seu tipo — comentei. 

E antes que ele pudesse responder, perguntei a Edgar se ele já havia lido o último Saramago. 

A conversa seguiu. Eu também. 

 

Por dentro, alguma coisa afundou devagar. 

Eu sabia exatamente qual era o tipo dele. Mulheres leves. Aventureiras. Espontâneas. Gente que toparia acordar às cinco da manhã para uma trilha sem perguntar detalhes. 

Eu fazia planilhas para organizar férias. 

Edgar costumava reconhecer isso em mim. Uma vez, quando mencionei que tinha pesquisado o tema antes de chegar no café, ele disse "você é muito consistente", eu guardei o elogio sem saber bem o que fazer com ele. 

 

Na quarta-feira seguinte, choveu forte. Cheguei ao café molhada dos joelhos para baixo e encontrei Edgar sozinho na mesa. 

 

— O resto ainda não chegou? 

— Você chegou antes deles. Milagre estatístico. 

Sentei-me na frente dele. Por alguns segundos, ficamos em silêncio ouvindo a chuva bater contra os vidros. 

Era estranho como o silêncio entre nós nunca parecia desconfortável. Talvez esse tivesse sido o começo de tudo — não a atração, não o desejo, mas aquela sensação perigosa de descanso, de paz. 

 

O debate seguiu em torno da ideia estoica de que sofrimento nasce da tentativa de controlar aquilo que não depende de nós. 

No meio da discussão, Edgar empurrou algo pela mesa na minha direção, sem interromper o que o outro falava. 

Um marcador de páginas. Fino, de couro escuro, com uma frase gravada em dourado: "Sem música, a vida seria um erro." Nietzsche. 

— Lembrei de você quando vi. 

Olhei para o marcador, depois para ele. Senti o calor subir antes de conseguir controlar. 

— Obrigada, amei. 

Edgar encolheu os ombros com a naturalidade de quem comenta o tempo. 

— Parecia combinar. 

Segurei o marcador entre os dedos por um momento. Ele já havia voltado à discussão. 

Fiquei quieta quase o encontro inteiro. Até que Edgar se virou levemente para mim e perguntou, baixinho, num tom de quem acende uma brasa: 

— Não vai retrucar? 

Suspirei, na mesma frequência baixa. 

— Fica mais fácil aceitar o incontrolável quando não é você que dorme pensando nisso. 

Edgar me fitou por alguns segundos. Aquele olhar nunca parecia totalmente casual. 

 

Quando o encontro terminou, saímos em grupo pelo estacionamento, guarda-chuvas abertos contra a garoa que ainda caía fina. Um a um, os outros foram se despedindo. Edgar e eu ficamos os últimos, andando devagar sem combinar. 

A água escorria pela sarjeta com um barulho mole e contínuo. Ele olhou para cima uma vez, como se estivesse calculando se a chuva ia parar ou piorar, e não disse nada. 

Eu também não. 

Em algum momento parei de esperar que ele fosse falar.  

 

Na última quarta-feira do mês, cheguei um pouco antes. Estava folheando o livro com o marcador entre as páginas quando Edgar entrou e me viu assim.  

— Está usando — ele disse. 

— Claro que sim. Foi a coisa mais atenciosa que alguém me deu esse ano. 

Edgar ficou quieto uma fração de segundo. 

— Fico feliz que tenha gostado.  

O tema daquela noite era liberdade interna. A capacidade de existir sem depender emocionalmente de nada. 

— Apego sempre vira prisão — Edgar disse. — Quanto mais uma coisa passa a definir sua estabilidade emocional, mais perigosa ela fica. 

Olhei para ele. Ele continuou falando. 

Talvez estivesse falando apenas de filosofia. Ou talvez da própria vida. Ou talvez eu estivesse desesperada demais para encontrar significado nas frases dele. Essa era a pior parte. Pensei em ligar para ele mais tarde, e tentar retomar o assunto para investigar melhor.  

 

Meus pensamentos foram interrompidos quando Edgar pousou sobre a mesa, na minha direção, uma ameixa vermelha sobre um guardanapo dobrado. 

— Passei numa banca e lembrei que era sua favorita. 

Sorri antes de conseguir evitar. 

— Obrigada. 

Guardei a ameixa na bolsa. 

 

Depois do encontro, fomos os últimos a sair. Caminhamos juntos pelo estacionamento até a esquina onde nossos caminhos se dividiam. A cidade estava úmida da chuva mais cedo, os faróis riscavam o asfalto molhado. 

Ele enfiou as mãos no bolso do casaco. Havia uma pausa estranha no ritmo normal da conversa, o tipo de pausa que ou não significa nada ou significa tudo, e que eu nunca conseguia ler direito. 

Então Edgar respirou fundo e disse: 

— Acho que vou marcar uma viagem de asa delta mês que vem. 

Fiquei olhando para ele alguns segundos. Depois comecei a rir. Não porque fosse engraçado, mas porque aquilo era tão tipicamente Edgar que quase chegava a ser cruel. 

— Você sabe que eu jamais pisaria num negócio desses. 

— Esse é seu problema, Anne. 

 

O semáforo abriu. Edgar se virou para mim. 

— Se cuide. 

Deu dois passos, parou, olhou para trás por um instante — como se tivesse esquecido de dizer alguma coisa — e atravessou a rua. 

Fiquei parada na calçada. 

Abri a bolsa e tirei a ameixa. A casca estava fria da noite, um pouco úmida, e o vermelho dela parecia mais escuro debaixo da luz do poste. Dei uma mordida. 

Era doce com um traço ácido no fundo, exatamente como eu lembrava. Fechei os olhos por um segundo. Tirei o celular do bolso e guardei de volta. 

 

Edgar já havia desaparecido no movimento da avenida. E eu já estava esperando pela próxima quarta-feira antes mesmo daquela terminar. 

Rosane Rubinstein Pagliuca

Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.