por Andreia Santiago
Além disso, queria muito levar meu tambor xamânico Pueblo, além de outros pertences úteis — notebook, material de trabalho, óleos vegetais, diapasões e agulhas de acupuntura.
Havia combinado com o rapaz do Uber às vinte e duas horas, pois meu ônibus sairia às vinte e três horas da rodoviária central.
Acontece que no meio do dia ele simplesmente me enviou uma mensagem desmarcando nosso compromisso, alegando problemas no veículo. Passei o resto da tarde, até por volta das oito da noite, entre ligações e pedidos de ajuda. Nada resolveu meu problema de transporte.
Aquela praia selvagem, cortada pela Rio-Santos, era erma demais. Era impossível conseguir um transporte pelo aplicativo. Ninguém aceitava ir até o fim do mundo me buscar. Morando ali, sempre fazia dessa forma.
Meu estômago ardia, o coração palpitava e as mãos suavam quando percebi que não conseguiria um carro. Cega de tanta obstinação, lancei-me à beira da estrada com a certeza de que conseguiria, ao menos, um ônibus.
Desci a ladeira equilibrando as malas e o tambor, enquanto sentia o suor escorrer pelas têmporas e a respiração descompassada.
— Eu vou pegar esse ônibus de qualquer jeito, vai ter que dar certo! Imagina se alguma coisa poderia me impedir de ver o show da minha filha no Rock in Rio!
Parei na beira da pista e imediatamente me arrependi, ao me dar conta do perigo de estar ali sozinha, vulnerável e na total escuridão. Após o terceiro carro passar com uns caras gritando, mexendo comigo, me senti pequena e impotente.
Depois de uma hora inteira de medo e incerteza, olhei para o céu estrelado e falei bem alto:
— Tantas coisas inacreditáveis e mirabolantes acontecem na minha vida? Agora é hora de vocês me tirarem daqui! Cadê o Universo? Faz uma doideira e me tira desse lugar, gente!
Eu parecia uma idiota falando sozinha. Fazendo exigências ao léu.
Cinco minutos depois, surgiu um carro preto com vidro fumê, vindo pelo acostamento, e simplesmente parou na minha frente. Gelei. O vidro abaixou e, para minha surpresa, uma mulher ao volante diz:
— Boa noite! Você está precisando de ajuda? Vejo que está numa situação de emergência. Quer que eu te deixe em algum lugar? Posso ajudar?
Senti um misto de desconfiança e gratidão ao Universo. Rapidamente aceitei, coloquei minhas coisas no banco de trás, sentei no banco do carona e, de olhos arregalados, fitei seu rosto com um sorriso.
— Nossa, muito obrigada. Você é corajosa em me oferecer carona na beira da estrada.
— Imagina, querida. Eles me informam tudo. Já sabia que era seguro te ajudar. Fui autorizada. Essa é a vantagem de trabalhar com eles.
— Ah, sim? a espiritualidade... Né?— disse, com a voz trêmula.
— Não, são eles mesmo. Estão por toda parte, em todos os lugares.
Andreia Santiago é do Rio de Janeiro. Terapeuta Integrativa com mais de 30 anos de experiência. Produtora de cursos on-line, também é cantora e musicista/DJ, integrando som, arte e cura em suas práticas. Estudante de Baixo e Escrita Criativa.