por Ana Cristina Sampaio Alves
"Tudo que você ama, eventualmente você perderá". Esse era o lema da minha avó. Eu sempre a conheci daquele jeito: após dois derrames, tinha o lado esquerdo paralisado e caminhava com ajuda de uma bengala. Tínhamos que levantá-la da cadeira, colocá-la de volta, acudi-la para usar o banheiro e trocar de roupa. No banho, esfregávamos suas costas com a bucha. Ela tinha até um coçador, essas mãozinhas com cabo, que volta e meia nos entregava e ia dizendo "mais pra cima, mais pro lado". Pudera ter essas frases prontas na ponta da língua. Também adorava dizer "Eu sou franca", e lá vinha uma pérola que mais parecia facada no peito.
Então cresci sabendo que o que é bom, acaba. Sabe essas verdades que nascem dentro de você qual planta trepadeira e vão se instalando, tomando todas as paredes, até que não sobra nem um cantinho vazio? Elas eram como refúgio para mim, um verdadeiro castelo, cujo fosso impede a invasão inimiga. Foi quando conheci aquele gringo, e, mais uma vez, comprovei a sabedoria da vovó.
Nos encontramos quando eu visitava uma amiga numa pequena cidade americana. Após anos sem um relacionamento, descrente de que encontros arranjados poderiam resultar em algo além de uma decepção em outro idioma, decidi aceitar o convite do estrangeiro interessante. E não é que, para minha surpresa, deu match? Em poucos dias, a estadia tornava-se curta demais. Queria mudar o voo, pedir demissão e me mudar para aquele cantinho no paraíso.
Ficamos assim, indo e vindo numa ponte aérea internacional, por dois longos anos. Comecei a sonhar com proposta de casamento, um anel de presente, mas ele só me trazia eletrônicos, perfumes e cremes franceses. A decepção se instalava, só não deixava transparecer. Até que minha urgência de sonhos concretizados era tamanha que decidi encerrar aquele martírio. Profecia anunciada. E lembrei da vovó.
Foi quando recebi o telefonema urgente. Escutei atenta me contar como tinha passado mal num restaurante, com tonturas e vômitos inexplicáveis por vários dias. O exame de ressonância foi conclusivo: tumor cerebral. O caso era cirúrgico. "Você quer que eu te acompanhe?". Não sei de onde saiu essa pergunta, mas eu a fiz.
Quando dei por mim, estava na frente de um homem que carregava um coletor de urina e caminhava com a ajuda de andador. Um lado do rosto aparentava leve paralisia, que se acentuou com o tempo. Para ler, tapava um dos olhos. No entanto, assim que entrei, me beijou e me levou para a cama.
Foram longos meses de recuperação. Eu o acompanhei durante todo o tratamento. Sessões de radioterapia e fisioterapia. Consultas com oncologista, oftalmologista, nutricionista e até cirurgião plástico. É incrível como uma doença grave traz profundas mudanças interiores. Em um passe de mágica, me tornei, para ele, a melhor mulher do mundo. Porém, tornar-se um fardo era algo impensável.
Três anos se passaram e de repente percebi o quão triste fui me tornando ao não ver a sua melhora. A culpa ia criando raízes enquanto eu acalentava a ideia de mais um término de capítulo. Mas por que mesmo eu me metera naquilo?
Em algum momento, tomei coragem e me despedi novamente. Dessa vez, parti sem deixar rastros. Até que há cerca de três meses recebi a mensagem de um grande amigo dele que eu conheci em alguns eventos de Ação de Graças e tardes assistindo ao Superbowl. Uma recidiva do tumor cerebral o levara durante a cirurgia. Não sei por que, mas a figura da vovó, com sua bengala e sua bucha de banho, surgiu em minha mente.
Agora, me vejo às voltas com um convite inesperado. O amigo do meu ex-namorado quer me visitar no Brasil. Temos conversado diariamente por horas. Me pego gargalhando com piadas sem graça que só os gringos sabem contar e, pasmem, a imagem de um anel de noivado tem rondado a minha mente mais uma vez. O coçador da vovó também. Tanto que resolvi dar um Google na frase que ela não cansava de repetir como um mantra: "Tudo que você ama, você eventualmente perderá".
Qual não foi minha surpresa ao descobrir que essa frase é de um autor nascido em Barcelona em 1947, que fundou e dirigiu as principais revistas de rock da Espanha nos anos 70. Autor de mais de 500 livros, ganhou 40 prêmios literários, inclusive o Prêmio Nacional de Literatura. Como vovó conheceria essa figura? Então me deparo com a icônica frase, tão minha conhecida, do escritor Jordi Sierra: "Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente."
Puxa vovó, por que você só decorou a primeira parte?
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.