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A Fronteira da Hora Sentida

A Fronteira da Hora Sentida

por Branca Lopes Boson

Lisa chega ao chalé. Coloca tudo que tira do carro na varanda e procura pelas chaves que pegou na cidadezinha a apenas dez quilômetros de distância. O casal de proprietários parecia ter saído de uma feira mística. Dois idosos sorridentes vestidos como magos. Antes disso, perdida no caminho, pediu indicação mais de uma vez para achar a casa deles e percebeu que, antes de informar a direção, insinuavam que o melhor era voltar. Alguns perguntaram de volta: "os bruxos? "; e se calaram, esperando que essas palavras fossem o suficiente. Ao apanhar as chaves com os cabalísticos proprietários entendeu os conselhos.

Antes de abrir a porta, admira a beleza da vista que se abre. Um mar de verdes em todos os tons que podem existir, baixando em um suave declínio para emoldurar a serra azul, ao fundo. Ouve os periquitos, junto com a chirriar dos grilos e o barulhinho de um córrego. Respira todas essas cores e sons e se sente quase em paz.

Coloca no chão de madeira da sala suas coisas e explora a casa em que passará uns dias. A lareira rodeada por poltronas e um sofá. Uma mesa redonda com duas cadeiras. A cozinha pequena, mas equipada com o fundamental: fogão, geladeira e um toque de modernidade na airfryer vermelha. A escada ao fundo leva ao mezanino onde fica o único quarto. Ao lado dela uma outra porta, que dá acesso aos fundos da casa com gramado, canteiros de hortênsias e a queda d'água. Bem que o anúncio dizia que o lugar é sobrenatural e que traria uma experiência inesquecível. Aquela sensação que só o singelo traz; a de que o mundo é bom e verdadeiro.

Guarda as coisas nos armários, arruma a cama e toma um banho delicioso. Assiste ao pôr do sol e prepara o macarrão, que come acompanhado de vinho. Acende a lareira a gás, apenas para iluminar o clima acolhedor daquele chalé. Não está frio. Senta na cadeira de balanço na varanda e admira o céu coalhado de estrelas. A lua ainda não nasceu. Ouve uma música suave na caixa de som portátil, baixa o suficiente para não se sobrepor aos sons da noite. Sons que não conseguem calar as vozes de sua cabeça. Está cansada de lutar. Veio para aquele lugar justamente para deixá-las falar à vontade, até se cansarem. Por que não foi embora enquanto ainda era dia? Será que ela sentiu alguma coisa? Por que não morri também?

Dorme com o efeito das garrafas de vinho e do choro. Sonha com uma voz a chamando do meio das árvores e acorda com o sol batendo em cheio na cara. Não tinha fechado as cortinas, nem colocado a camisola. Não sabe como conseguiu subir as escadas. A porta está trancada, pelo menos isso. Toma café lembrando daquele chamado. A floresta ao lado da casa se parece com a do sonho. Lembra das palavras que leu no anúncio que viu daquele chalé, e que a capturaram: "Este é um lugar onde encontramos a fronteira com o passado e temos a oportunidade de retificar os erros que nos atormentam". Precisa admitir que retificar o passado acertou em cheio no seu maior desejo.

Depois de dois dias entre leituras, pores do sol e garrafas de vinho, Lisa decide desbravar a mata. Afinal, precisa de um pouco de exercício para suar aquele álcool. Coloca sua bota de trilha, a bermuda cargo, prepara a mochila como se fosse passar o dia inteiro fora e sai. Encontra um pequeno caminho escondido entre a vegetação rasteira e segue por ali. Alguém tinha cortado os galhos, abrindo brechas por entre os arbustos mais baixos. Os donos não parecem ter a saúde necessária para preparar aquela passagem. Alguém deve ajudá-los a cuidar de tudo. A trilha termina abruptamente em uma placa, na qual está escrito "Fronteira". Olha ao redor e não há nenhuma cerca ou qualquer outro tipo de marcador de limite de terreno. Parece um sinal sobrevivente a algo que já se foi.

Vêm a sua mente novamente as palavras do anúncio. "Isolado nas montanhas, esse mágico chalé o levará a um fenômeno desconhecido: uma fronteira invisível que separa não espaços, mas tempos". Julgou ser um excelente argumento de marketing, usando a metáfora perfeita para descrever um lugar retirado, onde se perde a noção do passar dos dias. O restante, nem leu, por se tratar das baboseiras esotéricas que suas amigas acreditam. A quantos caminhos de cura já foi por insistência delas? E nada adiantou.

Assim que levanta o pé direito para dar o primeiro passo além daquela placa, Lisa ouve um zumbido forte e um empurrão a joga no chão. Fica com as duas mãos nas orelhas e os olhos fechados, tentando fazer parar a tonteira. Começa a ouvir a melodia de vários tons de tique taques. Tateia o chão que não é mais vegetação, mas o frio piso de uma casa cujas paredes são feitas de horas congeladas — relógios que marcam o mesmo momento.

Tenta se lembrar se ouviu alguém surgir atrás de si, e que a tenha empurrado. Bateu a cabeça, é a única explicação para aquele delírio. Olha para os lados e vê, ao longe, uma criança brincando com bonecas espalhadas a seu redor. Levanta e anda devagar em sua direção, com a visão já embaçada por lágrimas. Os últimos passos do que pareceu um caminho sem fim se tornam corrida desesperada, que termina em um abraço no corpo pequeno e assustado. Lisa mira o rosto da sua filha, que lhe devolve o olhar vazio de quem não a reconhece.

Maria? Maria! É a mamãe! A menininha não demonstra resistência ao ser engolida pelos seus braços ávidos. Apenas diz, serena: quer brincar comigo? Lisa enxuga o rosto molhado, tenta recuperar o autocontrole e se senta ao lado dela. No peito, o alívio começa a encher a cratera onde antes havia ausência. A criança está de novo entretida com as bonecas, aparentando ter se esquecido do convite que acabou de fazer. Levanta e corre na direção de uma jovem. Passa por ela e desaparece. A moça está penteando os cabelos castanhos e lisos, como os de Maria. Lisa se aproxima e olha a imagem no espelho, que reflete um rosto alongado, de olhos quase verdes e cílios enormes. Está cantarolando uma melodia que Lisa reconhece, assim como aquele rosto. É a canção que ninava sua filha.

Quantas vezes pensou em como ela seria na adolescência? Quantas vezes chorou tê-la privado dessa experiência? Os namorados que não teve, as amigas com quem não fofocou, as dúvidas que nunca pôde tirar sobre os mistérios da vida.

Que linda você é, Maria!

A jovem fita o reflexo da mulher atrás dela e pergunta: Como você se chama?

Lisa não consegue se lembrar. Como posso esquecer meu nome?

Encara o chão, como se ali encontrasse o que perdeu. Levanta o olhar e, desesperada, percebe que a jovem sumiu. Logo sente a presença de outra pessoa. Quando se vira, esperando ser a garotinha, vê uma mulher.

Oi. Eu sou Maria. Quem é você?

Não consigo me lembrar. Eu só sei que sinto uma dor horrível quando você se vai.

Ah, não chore. Eu sempre estarei aqui.

Você gosta de viver aqui?

Muito! Sinto uma paz que não sei nem como explicar. Fique comigo. Acho que vai se sentir melhor também.

Quando entrei aqui, eu tinha um buraco imenso dentro de mim, que me engolia. Vi uma criança e o meu coração a reconheceu. Eu queria brincar com ela, como eu sei que já fiz antes, mas ela se foi. Quando a procurei, eu encontrei a adolescente, como se o tempo tivesse passado em um piscar de olhos. Eu quis dizer o meu nome, mas me esqueci. Ela ficou chateada e foi embora.

Eu não estou chateada. Não precisa me dizer seu nome. Não importa! Eu gosto de estar com você.  

Você é tão linda! Parece que eu te conheço da vida toda.

Eu também conheço você. Só que você era alegre e cantava para mim.

Sim, eu estou me lembrando.

As duas começam a cantar: "Se essa rua, se essa rua fosse minha/ Eu mandava, eu mandava ladrilhar/ Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante/ Para a Ma, para a Maria passar". Lisa recomeça a chorar e abraça a moça de cabelos e olhos iguais aos de sua filha, que morreu no acidente terrível em que ela também morreu, de certa forma.

Você me perdoa? Por favor, me perdoe! Eu devia ter escolhido não pegar aquela estrada à noite. Não devia ter deixado você tirar o cinto para dormir. Eu devia ter morrido, ao invés de você.

E vai ao chão, pesada de remorso. Maria levanta Lisa suavemente pelos ombros e limpa o seu rosto com carinho.

É claro que eu te perdoo. Mil vezes eu nascesse do seu ventre, mil vezes eu a perdoaria.

Eu quero ficar aqui com você, mas não sei que lugar é este!

Este lugar é o intervalo entre o que foi e o que poderia ter sido. Você pode ficar, mas entenda: esquecerá tudo o que passou e não pensará mais no que virá. Viverá a hora eterna aqui, junto com todas as versões não vividas de mim, que existiriam se tivesse feito escolhas diferentes. Isso fará de você um arquivo de ausências.  E esse é o preço para redesenhar as fronteiras da sua vida.

Lisa olha para as paredes e para todos os relógios que marcam a hora em que perdeu a sua filha. Trocaria este momento por todas as lembranças do que viveu, e que inundaram a sua existência de amor? Os sorrisos banguelas, a vozinha dizendo "mama", o primeiro dia da escola e as centenas de dias que a teve consigo, sentindo o doce e o amargo da maternidade. Poderia esquecer aquilo tudo que a constituiu como mãe, incluindo a terrível perda? Lisa entende que a Fronteira não é um lugar, mas um pacto entre o arrependimento e a identidade.

Em um abraço longo, imprime em si cada pedacinho da Maria adulta. Em um olhar profundo, memoriza o seu rosto. Eu tinha certeza de que o que mais queria na vida era te ver crescer, mas não posso me dissolver na pior hora da minha vida. Eu fui sua mãe e isso me transformou de modo profundo. Uma dádiva que desfrutei com toda a minha energia. Eu te amo, mas preciso voltar. Escolho viver a sua falta, porque seria insuportável não viver a sua lembrança.

Abre os olhos e sente o perfume da grama em seu nariz e a aspereza dos pedregulhos no rosto contra o chão. Levanta com a leveza que esqueceu um dia ter, porque deixou naquele caminho o peso da hora sentida.

Branca Lopes Boson

Branca Boson é especialista em Comunicação, e sempre foi amante das ideias. Trabalha com mentoria em expressão, ghostwriting e redação. Caçula de pais professores e intelectuais, mãe da Letícia, uma bela médica em começo de carreira.  Escreve para tirar o extraordinário do ordinário, provocar emoção em quem passa batido, fazer pensar e dar significado. Branca acredita que tudo tem história para contar, sejam produtos, empresas ou pessoas. E que o ser humano conta histórias para (sobre)viver, se relacionar e evoluir.