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A gente dá um jeito

A gente dá um jeito

por Alexis Rodrigues de Almeida

A gente dá um jeito

Luís chegou em casa naquele dia um pouco mais cedo do que de costume. Malu, a filha mais velha, correu para abraçá-lo, como sempre fazia. Pedrinho veio em seguida despejando um caminhão de palavras, falando de suas aventuras do dia. O sorriso de Luís, sempre radiante e espontâneo, estava meio apagado. Luíza, olhando para o esposo, compreendeu que algo estava errado. Logo se iniciou um diálogo silencioso. "O que aconteceu?". Diante daquela pergunta telepática, Luís abaixou o olhar para uma sacola que trazia nas mãos. Coisas pessoais que ele havia levado para o trabalho ao longo dos anos. Uma garrafa de café, um porta-retrato, e outras pequenas lembranças dos filhos. Luíza afagou a barriga de sete meses e afastou-se para o quarto do casal.

— Pai, vamos brincar — falou o caçula, puxando Luís pela mão.

— Agora não, filho. Malu, vá brincar com seu irmão. Eu preciso falar com a mamãe.

Luís encontrou a esposa deitada na cama, chorando baixinho, como que escondendo sua angústia. 

— Luís, como vamos fazer? Diga que não é o que estou pensando. 

— Sinto muito, Luíza. Disseram que não é nada pessoal mas que não tinham condições de manter tantos funcionários. Foram três só no meu setor, mas ouvi dizer que foram muitos mais.

— Luís, a situação já era difícil, e agora... daqui a pouco teremos mais uma boca para alimentar.

— Nós vamos dar um jeito, meu bem — disse Luís sem muita convicção. — Você sabe que gente sempre deu um jeito.

— Eu estou com medo, Luís.

— Olhe só, Luíza, a situação não é tão ruim como parece. A empresa pagou a rescisão contratual. Não é muito, mas dá para nos sustentar por um período até eu encontrar uma nova colocação. Além disso, tem a ajuda do governo. Amanhã mesmo já vou dar entrada no pedido.

— Eu não consigo ser tão otimista quanto você, Luís.

— Querida, fique tranquila. Pense em nosso filho que está a caminho. Tudo vai se resolver. Sabe aqueles cursos todos que fiz recentemente? Eles vão ajudar a abrir as portas. A empresa se comprometeu a me recomendar com base no meu currículo.

Luíza estava de cabeça baixa, enxugando as lágrimas. 

Por alguns instantes o quarto mergulhou num silêncio que foi quebrado por um profundo suspiro de Luíza.

— Você é um bom marido, Luís. O bebê até se mexeu agora. Ele gostou do que você falou — disse Luíza enquanto levava a mão do marido até sua barriga. 

— Ele é a razão do nosso novo começo, meu amor.

— Sim. E parece que ele está mais confiante do que eu. Eu sei que você é muito inteligente e um excelente profissional. Tenho certeza também que meus pais não vão nos negar ajuda se nós falarmos com eles.

Luíza beijou os lábios do marido e o abraçou com ternura.

— Sim, vamos ficar bem. Sempre damos um jeito — disse Luiza no ouvido do esposo.

— Pai, Malu não está deixando eu... — vinha gritando Pedrinho enquanto entrava correndo no quarto. Ao ver os pais abraçados, esqueceu a queixa da irmã, correu e os abraçou também. 

Malu, que vinha logo atrás, também se juntou ao abraço coletivo, aproveitando para beijar e acariciar a barriga da mãe.

— Mãe, o Levi não vai ser encrenqueiro como o Pedrinho, não é? — falou olhando para o irmão e rindo da careta que ele fez em resposta à provocação da irmã.

Alexis Rodrigues de Almeida

Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.