por Kethlyn Machado
Na sociedade brasileira, "ser negro" vem, quase sempre, antes de qualquer outra coisa, um olhar objetivo e reducionista que não contempla o universo de uma pessoa, marca profunda do racismo que construiu o nosso país. Ao questionar Tônio Caetano, escritor, especialista em Literatura Brasileira pela PUCRS, servidor público municipal, membro fundador do Coletivo de Escritores Negros de Porto Alegre (CEN) e acadêmico da Academia de Letras do Brasil, em relação à valorização da produção de pessoas negras sob essa perspectiva, o autor trouxe uma afirmação forte e reflexiva: "Todo corpo chega antes, não só o do 'ser negro'". A questão é a diferença no tratamento, corpos brancos são celebrados e tidos como excepcionas (mesmo em uma possível mediocridade), cheios de marketing, influência e prêmios, menciona Tônio, em alusão ao meio editorial.
Mesmo a maioria da população sendo negra, "ser branco" é o universal: nas livrarias, no cinema, na música; mas não é visto como produção identitária. Tônio cita a pesquisa da professora Regina Dalcastagnè da Universidade de Brasília (UnB) sobre as personagens do romance brasileiro contemporâneo, em que de fato o "ser branco" chega antes, mas o que fazem a partir disso "não é nada bom para as existências não brancas no romance brasileiro e para o imaginário social que a literatura ajuda a consolidar", argumenta Tônio. E completa dizendo que a literatura produzida por pessoas não brancas também trata de questões universais como existência, dramas e virtudes humanas, só que não com personagens brancas no centro.
Em relação a esse "apontamento", como chama, sobre a questão identitária nas produções negras, Tônio acredita ser preciso ressignificar e reverter o foco: "A produção negra precisa ser valorizada não apenas porque é negra e, por isso, diferente da branca, mas porque é boa, múltipla, inventiva, viva", e cita a escritora e psicóloga Grada Kilomba em "Memórias da Plantação", fortalecendo sua afirmação: "O racismo é uma forma de violência que torna o negro visível apenas através do olhar do branco".
A mudança é para reafirmar e não apagar, Tônio Caetano entende a expressão "literatura de autoria negra" como uma ferramenta política de afirmação de quem a produz e não como uma classificação limitante. "É afirmar uma história que a branquitude, em forma de cânone literário, segue tentando apagar", explica Tônio, pois a literatura brasileira foi construída por uma dita "neutralidade branca". A literatura de autoria negra amplia a nossa literatura brasileira, complementa o escritor, pois tem em seu objeto o componente ético, contrário ao racismo construído e perpetuado por meio de estereótipos de personagens negras, seja por sua construção plana, punição, etc.: "pode divertir (entreter), suscitar reflexões sobre questões humanas, mas não tem a pretensão de produzir violências contra pessoas negras". Uma literatura imprescindível para a formação de leitores.
Nosso entrevistado faz parte do Coletivo de Escritores Negros (CEN), um espaço de troca, escuta e autoconfiança de, entre e para escritores negros, criado diante das dificuldades mencionadas em relação ao mercado literário, com o intuito de fortalecimento interno com ecos externos. Abaixo os objetivos do coletivo:
Tônio complementa que "A produção literária do CEN é literária, entretém, promove reflexão, busca contribuir para a formação de leitores e para a construção de novos imaginários. Quer reconhecimento e, sobretudo, diálogos". O coletivo é um ponto de referência para quem quer conhecer mais produções de pessoas negras e também para alcançar outros públicos: "ser referência para quem busca Literatura Negra, mas também alcançar leitores que talvez nunca tenham lido uma autora ou um autor negro porto-alegrense". O autor nos conta que há um processo dialógico contínuo no CEN, tanto sobre a ampliação da consciência quanto sobre a qualificação das produções e existências.
Buscando entreter e transformar por meio da literatura, o CEN se insere e se movimenta literariamente por Porto Alegre por meio de diversos projetos:
"Iniciamos com a série Meu Corpo Negro, que chega este ano à Feira do Livro de Porto Alegre com o quarto título: Meu Corpo Negro: Afetos. Nossa Literatura quer ocupar praças, instituições, escolas. Assim, realizamos saraus, oficinas, curadorias, intervenções urbanas e participações em feiras do livro. Na Feira do Livro de Porto Alegre deste ano, teremos ainda a apresentação inicial do grupo de teatro (CEN em Cena) e do grupo musical (CEN Musical) ? duas novas ações com as quais queremos aprofundar o trabalho com a palavra em outras linguagens em 2026".
Tônio diz que para o CEN "a cidade é o nosso texto", e como associação formalizada, trabalham com outras entidades locais em ações que deem concretude aos objetivos do coletivo. O autor descreve isso como um diálogo que redesenha o mapa simbólico de Porto Alegre, que por muito tempo foi construído e lido sem vozes negras ou com vozes negras no mudo.
Além de uma valorização por meio do reconhecimento, afirmação e foco de/em produções artísticas negras, a questão econômica também atravessa essa discussão. Em uma palestra sobre Black Money do Afro'n'talks (@afrontalks), Tônio ficou impressionado com a seguinte informação: judeus compram de judeus sete vezes mais do que negros compram de negros. Com o ensinamento africano de que "um negro nunca deve pedir algo de graça a outro negro", o autor reflete sobre a importância de pessoas negras utilizarem seu dinheiro para fortalecer economicamente afro empreendedores, seja suprindo necessidades diárias, serviços, bens, etc. E complementa que ainda há um caminho longo a ser percorrido, mas se trata de um ato ético, de compromisso comunitário, e que esses preceitos também se aplicam ao meio literário: relação com editoras, escritores, livreiros, coletivos negros e afrocentrados. "Dentro das nossas possibilidades, contribuir para o fortalecimento econômico de existências negras, a circulação do Black Money dentro da comunidade negra é um pilar para alicerçar a reparação e o futuro antirracista", finaliza.
Ainda, além de um fortalecimento interno, Tônio afirma que o antirracismo é uma comunhão, que só funciona com escuta verdadeira e compromisso com a transformação das estruturas. Há trabalho para todos, e as pessoas brancas precisam, antes de tudo, "compreender o seu lugar ? a branquitude. Compreender como esse lugar produz privilégios e segue mantendo corpos não brancos em situações indignas. E agir", pontua o autor. Tônio enxerga o racismo como um problema branco, criado e majoritariamente reproduzido por brancos, para seu próprio benefício, e, por isso, deveriam estar na dianteira do combate daquilo que criaram e não "exigindo que negros gastem mais tempo de suas vidas produzindo manuais antirracistas, cursinhos de letramento racial para brancos", etc. Assumir a responsabilidade para que haja mudança real.
Apenas em 2023 o 20 de novembro se tornou feriado nacional, e muito do mesmo ainda é dito, por necessidade, é claro, mas há outras questões e focos que pedem notoriedade:
"São tantos pontos: a exigência eterna do resistir; o não direito ao descanso, à fragilidade; as questões das pessoas LGBTQIAPN+ negras; a Lei 10.639/2003 - que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nos currículos oficiais da rede de ensino fundamental e médio em todo o país ?, que pouco avança; a urgência de parar o genocídio da juventude negra. E há a reparação, que nunca chega. Há ainda a necessidade de discutir um novo projeto de país, como sempre pontua nosso Griô Babalòlá Dumissai (Waldemar "Pernambuco" de Moura Lima), seguidor de Abdias do Nascimento. Um projeto de país que efetive o direito de ter tempo para a felicidade, para o prazer, para os sonhos. É preciso garantir o direito de realizar os sonhos, não só de resistir, sobreviver".
Kethlyn Machado é graduanda em Letras pela UFRGS, futura tradutora literária, revisora, editora e egressa do Curso de Formação de Escritores. Atua como revisora para a Editora Metamorfose e tem textos publicados nos sites Escrita Criativa e Plataforma de Escritores.