por Rossana Araripe Lindote
Toda noite era a mesma coisa, aquele mesmo desassossego. Ela não conseguia dormir uma noite inteira, uma vez sequer, ao contrário de Seu Deraldo, o pai. Ele quase nunca acordava de madrugada, e muito menos levantava, para atender aquela coleção de filhos, que já somavam cinco. Sempre havia um ou dois acordados, berrando e acordando os outros, a começar pelo mais novo.
Assim eram as noites de Dona Rose, acudindo a um e a outro. Quando ela não se aguentava mais em pé, cansada de entrar e sair de um quarto para outro, punha alguns deles em sua própria cama. Ali, apertadinhos, e ao som do ronco de Seu Deraldo, eles iam se acomodando, a noite avançava, e ela conseguia dar mais alguns cochilos.
Às vezes o arranjo não dava muito certo, as crianças se mexiam, resvalavam para a beiradinha da cama, com risco de caírem e de se estatelarem no chão. De fato, por duas vezes, Dona Rose resgatara da queda o mais novinho - uma puxando-o pelo pé, outra agarrando-o pela fralda -, impedindo a tragédia. Depois disso, ficara tão aflita que não conseguia dormir mais.
Seu Deraldo, cansado das queixas da mulher, lhe sugeriu um dia:
- Ô, Rose, já que você está tão aflita, com medo de esse menino cair, por que você não vai dormir no berço dele?
Era uma ideia louca, pensou ela, mas mais louca ela ficaria sem dormir, daquele jeito ela iria virar um zumbi. Resolveu tentar. Foi para o quarto das crianças, se enfiou no berço do caçulinha, se encolheu, se espremeu, dobrou pernas e braços, até que coube. O bebê, feliz da vida com a companhia, parou logo de chorar e iniciou uma brincadeira nova: pular em cima da mãe. Dona Rose não se importou, ela só queria dormir. E dormiu.
Enquanto isso, no maior entusiasmo, o bebê pisava em sua barriga e sentava em sua cabeça, até que, cansado de tanto sapatear, acabou se rendendo ao sono. As outras crianças também se aquietaram vendo a mãe ali, tão próxima. Seu Deraldo dormiu muito melhor, sozinho no sossego da cama do casal. Dona Rose aprovou a ideia e toda noite pegava seu travesseiro, e sua coberta, e ia dormir no berço.
Todo mundo ficou satisfeito. Pelo menos até o dia amanhecer, porque mal o sol começava a se espreguiçar para nascer, Dona Rose tinha que começar a desdobrar as pernas, a realojar todos os ossos do corpo para sair do bercinho do seu bebê, e isso levava um bom quarto de hora. A diarista chegava cedinho, e ela precisava sair logo dali, Deus a livrasse de ser flagrada naquela situação.
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Rossana Araripe Lindote nasceu em Itabuna, na Bahia, numa família de leitores ávidos, alguns deles escritores, e sempre foi uma leitora voraz. Deixou o curso de Medicina, graduou-se em Direito, advogou por algum tempo, e trabalhou depois na SEFAZ/BA como Auditora Fiscal até se aposentar em 2016. No meio do percurso, formou-se em Psicologia Clínica, e especializou-se em Terapia Cognitivo-comportamental, atuando como psicóloga em sua cidade, desde então.
Decidida a alimentar a sua paixão pela escrita, fez o curso de Formação de Escritores da Metamorfose, e publicou contos em três coletâneas: "Dia das Mães Fantástico", "As vidas que ninguém vê" e "Crianças Pequenas".
Enquanto escreve um livro de contos, Rossana estreia agora com seu primeiro romance individual: "A vida não desiste".