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A menina e o olhar do Outro

A menina e o olhar do Outro

por Sofia Sauda Mendes

A menina e o olhar do Outro

Estupefata, a menina segura a coleira do cachorro com uma mão e a outra vai à boca. Eles devem ter o mesmo peso: a menina, o cachorro e a perplexidade que percorre todo seu corpo. Faz sol e as pessoas ocupam a praça. Parece ser o único pedaço de grama do mundo, ali no meio da imensidão de concreto fervente de Nova Iorque.

O filhote fareja suas fezes e abana o rabo, o que a conforta, por não estar só, e a pesa simultaneamente. O que fazer com o cocô? Em imitação fadada à falha, leva a mão que estava na boca ao bolso, como fazem os adultos, mas não há nada.

Seus olhos percorrem a multidão à procura de alguém. Alguém que possa amparar o desespero da responsabilidade que invade seu ser. Diante dos olhares que assistem sem assistir, sente as poças de água embaçarem a visão, mas sorri. O olhar do Outro é pavoroso.

Sem se distanciar do cocô, ela permanece imóvel, mas em esperançosa angústia. Guarda-caixão da produção fecal, estatelado no solo. Começa a sentir o cheiro das fezes, e a coleira que segura o cachorro parece ser a mesma que faz nó em seu pescoço, nó que segura a saliva seca em sua boca. Sorri, porque diante do embaraço não sabe fazer outra coisa.

Enfim, diante de tantos olhares sem corpos, alguém se aproxima. Uma mulher, com roupas esportivas, alguém que malha com o peso da responsabilidade, mas ri com a leveza da soma: menina mais cachorro, mais cocô, mais dúvida, mais sorriso, mais angústia. A garota agradece pelo saco plástico, pega o cocô, faz nó e sai correndo para qualquer direção: ela, o cachorro e o saco de cocô.

Sofia Sauda Mendes

Sofia Sauda Mendes é psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mestre em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, dançarina e escritora