por Alexis Rodrigues de Almeida
Ana agitava as mãos enquanto jogava na cara do marido um monte de impropérios. Seus cabelos loiros e compridos estavam emaranhados. A cavidade dos olhos estava escura.
— Você acha que eu sou uma idiota. Você pensou mesmo que eu não ia desconfiar de nada? Era só olhar para sua cara sem vergonha sempre que se encontrava com ela. Só um cego não percebia o que estava acontecendo.
— Ana... — Edgar tentou interromper. Era um homem alto, já um pouco calvo aos quarenta e poucos anos de idade. Sua voz normalmente forte e alegre, agora soava quase como um sussurro.
A mulher continuou a gritar enfurecida.
— Eu sofri calada porque te amava. Tive esperança de que um dia essa loucura iria passar e nós poderíamos voltar a viver felizes, como foi nos primeiros anos. Mas não. Agora você vem me dizer que vai embora...
Ana e Edgar estavam casados havia dezoito anos. Eles se conheceram na faculdade e foi amor à primeira vista. Nunca tiveram filhos, o que acabou trazendo muitas acusações veladas para a relação, levando a um afastamento lento e gradual. Ela se entregou de corpo e alma à sua função de perita criminal e ele à sua pequena empresa.
— Ana, eu e Beatriz...
— Não fale o nome daquela mulher. Não vou deixar que isso aconteça. Nunca! Nunca!
Ana apontou um revólver para o marido, com as mãos trêmulas. A boca tremia. Os olhos faiscavam loucura.
Edgar, em um gesto rápido, tentou arrancar a arma das mãos da esposa. Ela resistiu, e então ouviu-se um disparo. Uma mancha vermelha surgiu no vestido amarelo. As mãos afrouxaram e ela caiu.
O marido recuou lentamente. "Não pode ser. O que eu fiz?", pensou ele. "Ela não vai fazer isso comigo. Não posso permitir. Preciso ser feliz com minha querida Beatriz".
Encontrou álcool e fósforo na cozinha. Derramou o líquido nas cortinas da sala e ateou fogo. Saiu dali direto para a casa de Beatriz, mas não a encontrou lá. Minutos depois ouviu as sirenes da polícia se aproximando da casa. Uma grande confusão se instalou, e de repente estava algemado, sendo levado à viatura policial.
* * *
Doze anos depois...
A porta do escritório do detive Derik abriu-se abruptamente, dando passagem a um homem de cerca de cinquenta anos. Cabelos meio grisalhos. O rosto carregava o terror.
— Você é o detetive Derik?
O detetive, um homem de cerca de trinta anos, se encontrava sentado atrás de uma escrivaninha recostado confortavelmente em uma poltrona de couro. Brincava de fazer malabarismo com uma caneta que sempre trazia consigo. Dizia que era para não perder a destreza. Atrás de si uma estante carregada de livros mal arrumados. Pela poeira que se depositara sobre os livros, via-se que não eram lidos havia algum tempo.
Ao seu lado, num sofá já desgastado pelo uso, um rapaz de vinte e poucos anos estava concentrado na análise de algum documento.
— Sim. Derik Ortega a seu dispor. E esse é Ramon, meu auxiliar...
O visitante trazia na mão direita um lenço manchado de sangue, enquanto a mão esquerda tentava manter a gola do casaco fechado, como se quisesse proteger-se do frio.
— Meu nome é Edgar Álvares. Preciso de ajuda. Minha espo... alguem quer me matar — falou o homem, atropelando as palavras com uma voz rouca acompanhada de um tosse seca.
— Quem quer matá-lo, senhor Edgar?
— É totalmente impossível... minha mulher... — mais tosse — ela quer me matar.
— Por que isso é impossível?
— Ela... — novo acesso de tosse — ela está morta. Eu mesmo a matei há doze anos. Perdi tudo... meu casamento, minha casa, minha liberdade e, principalmente, minha querida Beatriz. Ela não esperou por mim. Nem sequer me visitou na prisão.
O homem tirou um celular do bolso, estendeu o aparelho para o detetive, enquanto era acometido por um novo e violento acesso de tosse. Mal entregou o aparelho, caiu de joelhos e tombou de lado.
Ramon agachou-se ao lado do homem, sentiu o pulso e olhou, incrédulo, para o detetive.
— Está morto.
O detetive viu a sequência de mensagens no celular do morto.
O nome do contato indicava "Bia".
— "Edgar, finalmente vc saiu! Feliz por vc. Mas não posso mais te ver. Agora tenho minha própria vida. Estou feliz assim. A casa que vc me deu agora é sua. Isso é tudo o que posso fazer por vc. Não me procure mais. Seja feliz!"
— "Beatriz, preciso te ver uma última vez."
Passou-se uma semana.
— "Bia, querida, por favor."
Mais alguns dias... e finalmente uma mensagem recebida do contato "Ana - esposa".
— "Olá, Edgar! Como foi sua vida na prisão? eu também estou presa aqui nessa escuridão. Sua amada esposa, Ana."
— "Que brincadeira é essa? quem tá falando? Ana tá morta."
— "Como vc tem tanta certeza disso?"
— "Eu mesmo a matei. Os bombeiros encontraram seu corpo carbonizado. Eu paguei pelo crime."
Passaram-se quase trinta dias.
— "Edgar, como tá sua saúde? vc tá bem?"
Mais algumas semanas depois...
— "Edgar, vc tá aí?"
— "Não sei quem é vc, mas a polícia vai te pegar."
— "Eu estou morta, lembra? vc mesmo me matou."
Meses depois...
— "Edgar, soube que vc não tá muito bem. Essa tosse vai te matar."
— "Deixe-me em paz, por favor."
Alguns dias antes da data corrente...
— "Meu querido, logo vamos nos encontrar. Tô esperando ansiosamente por vc. Finalmente vamos viver felizes para sempre."
E essa era a última mensagem.
* * *
A história intrigante e a morte repentina do homem levou Derik a um estado de profunda reflexão. Reviu mentalmente as mensagens do celular inúmeras vezes. Repassou cada palavra dita por Edgar no dia de sua morte.
Sua reflexão só era interrompida para receber o resultado das pesquisas feitas pelo seu auxiliar, que se desdobrava na busca de reportagens em jornais, relatórios policiais e, entrevistas.
Encontrou notícia de um jornal local, de doze anos atrás, contando sobre um terrível crime cometido pelo marido, após uma briga de casal. O homem atirou na esposa e em seguida ateou fogo na casa. A mulher se chamava Ana Theodoro.
Após o crime, Edgar foi encontrado pela polícia na casa da amante, Beatriz, a partir de uma denúncia anônima.
— Derik, sei o quanto esse caso é instigante, mas quem vai nos pagar?
— A experiência vai nos pagar, Ramon.
Certo dia, Ramon trouxe uma informação intrigante:
— Veja só, Derik, o laudo da morte de Ana mostrou um detalhe intrigante: o implante dentário não foi localizado.
Nova rodada de reflexão. Mais uma olhada nas mensagens. Mais análise sobre os relatórios da polícia.
— Ramon, eu fico me perguntando: por que Beatriz nunca o visitou na prisão se eles eram tão apaixonados? Edgar deixaria sua esposa e uma vida confortável para viver com ela. Seria razoável uma visita pelo menos para entender o que aconteceu. Para ouvir a versão dele, de sua própria boca. Você não acha?
Outro dia Ramon entrou no escritório trazendo nas mãos uma folha de papel.
— Derik, esse é o laudo da morte de Edgar. Indica um processo degenerativo dos pulmões.
* * *
Havia já um mês desde a morte de Edgar. Derik continuava imerso em pensamentos em um início de tarde.
— É ISSO! — gritou ele, despertando Ramon, que estava debruçado sobre uma pilha de documentos.
— Você finalmente descobriu! — exclamou Ramon já conhecendo as reações do chefe.
— Ramon, como fomos tão cegos? O tempo todo estava na nossa cara. Vamos fazer uma visita à nossa querida Ana.
* * *
Uma hora depois o detetive e seu auxiliar chegaram à casa de Edgar. Entraram furtivamente usando uma cópia da chave feita a partir da que encontraram com o morto.
Era um sobrado não muito grande, mas bem mobiliado e estava limpo, apesar de já terem passados algumas semanas desde a morte de Edgar.
A dupla percorreu com cuidado cada canto do primeiro e do segundo pavimentos, sem nada encontrar. Derik já se mostrava um pouco desanimado quando finalmente encontrou o que estava procurando. Estava ali, quase despercebida, disfarçada no papel de parede da sala de jantar. Era uma porta que dava acesso a uma escada que levava a um porão.
Derik e Ramon desceram cuidadosamente, procurando não fazer barulho. Ao chegarem embaixo, Ramon se assustou ao ver uma mulher de meia idade que olhava para eles com um olhar frio. Estava segura de si, como se já esperasse aquele momento. Os cabelos loiros agora estavam mais curtos e bem cuidados.
— Olá, Ana! Eu sou o detetive Derik Ortega.
— Então você me encontrou, detetive. Como conseguiu?
— Ana Theodoro, você está presa pela morte de seu marido, Edgar, e da senhora Beatriz.
— Parabéns, detetive! brilhante conclusão! Pena que não sairá vivo daqui para contar sua historiazinha por aí — disse a mulher apontando uma arma para ele. — Agora que minha vingança está completa, não vai ser voc? que vai estragar o resto de minha vida.
— Ora, ora, minha cara! Olhe para trás.
No pequeno instante de distração da mulher, o detetive avançou sobre ela e tomou-lhe a arma, antes de qualquer reação.
* * *
— Parabéns, Derik! Como você descobriu?
— Foram vários indícios, meu caro, mas o principal foi que a autópsia não identificou no corpo de Ana o implante dentário realizado um ano antes. E tem aquela sequência de mensagens da esposa. Mortos não costumam enviar mensagens eletrônicas — concluiu olhando para Ana com ar de provocação.
— Quer dizer que Ana ...
— Sim, meu caro. Ana matou Beatriz e assumiu sua identidade esses anos todos. Os seus conhecimentos de perícia criminal a ajudaram a criar um crime quase perfeito. O corpo carbonizado encontrado pela polícia há doze anos na verdade era de Beatriz. E foi a própria Ana quem chamou a polícia. Por fim, consegui rastrear uma compra, feita pela falsa Beatriz, de um gás extremamente tóxico, mas inodoro. Logo depois disso, Edgar começou a apresentar aquela tosse persistente.
— Brilhante, Derik!
— A justiça agora terá muita dificuldade para julgar e condenar uma morta-viva — disse o detetive olhando mais uma vez para Ana — mas eles vão ter que encontrar um jeito.
Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.