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A mulher na barraca

A mulher na barraca

por Patrícia da Fonseca Martins

A mulher na barraca

A visão que me vem à mente quando lembro da minha mãe é ela segurando uma vassoura. Ou passando pano no chão. Na pia, lavando os pratos. Com uma expressão cansada, escutando as lamúrias do marido. Aborrecida porque os filhos não queriam fazer as lições de casa.

Um dia ela cansou. Eu mal tinha chegado da escola e a noite estava caindo. De repente, a vi. Ela já estava vestida e de cabelo penteado. Estranhei.

— Ué, vai aonde?

Ela não respondeu. Insisti:

— Vai sair? E o nosso jantar? Tá pronto?

Minha mãe se voltou para mim. Os olhos estavam caídos. Ela endireitou os ombros e disparou:

— Virem-se.

Então reparei que a barraca do meu irmão mais novo estava aos pés dela. A coisa ficava cada vez mais esquisita.

— Vai acampar?

Não obtive resposta. Ela simplesmente vestiu um casaco mais pesado, passou reto por mim, abriu a porta do apartamento e saiu. Fiquei parado um tempo no mesmo lugar, tentando assimilar aquela bizarrice. A única coisa que fui capaz de dizer foi: "Ué".

Quinze minutos depois, chegou minha irmã do meio, a Fê. Ela marchou até mim com os olhos arregalados.

— Por que a mamãe acampou lá na calçada?
— O quê?

Fê me arrastou até a janela. Não acreditei. Minha mãe tinha montado a barraca do Júnior e se preparava para entrar nela.

— O que houve, Beto?
— Sei lá. Acho que pirou.

Naquele momento, visualizamos papai chegando da academia, vindo pela mesma calçada. Assistimos a ele passar, pleno, bem ao lado da barraca. Não demorou muito e ele abriu a porta. Acenou para nós, sempre sorridente. Aliás, sua característica mais marcante sempre foi o bom humor.

— Estão cuidando da vida alheia, é?
— Pai — encarei-o, firme. — A mamãe está ali na calçada.
— Opa, fazendo o quê? Fofocando com a vizinhança? Mas pelo menos deixou a comida pronta?

Ele se postou ao nosso lado e franziu a testa.

— Onde ela está?

Fê respondeu, pálida:

— Dentro da barraca.
— Fazendo o quê?
— Sei lá — respondi. — Na boa, acho que ela encheu o saco da gente.

Ficamos os três em silêncio. Calados. Tensos.

— Pai, por que você não vai lá embaixo buscar ela?
— Você tá louco, guri? Ela vai me xingar. Vou chamar a avó de vocês. Deixa que eu resolvo.

Ele sacou o iPhone de último tipo do bolso do seu agasalho fitness.

— Oi, sogrinha querida. Como está a senhora? Ah, que bom. Sim, as crianças estão ótimas. O Júnior vai dormir na casa de um amiguinho hoje. Bem, preciso de um favor. A Denise resolveu acampar na calçada aqui na frente do condomínio. É, tá acampada ali. Não sabemos o motivo. Será que a senhora pode dar uma chegadinha aqui e pedir para ela subir? A Denise nem o jantar fez para a família.

Meu pai ficou em silêncio por alguns segundos, escutando o que vovó dizia.

— O fato é que nem sei fazer um arroz. E também acho que não seria interessante ela pernoitar acampada na frente do prédio. Vão pensar que ela está louca. É perigoso. E se a polícia aparecer? O que eu digo? Sim. Sim. Sim. Não. Não enlouqueci a Denise. De jeito nenhum. Não deixo faltar porra nenhuma nesta casa que justifique este ato tresloucado da sua filha. Aliás, ontem mesmo ela ganhou uma vassoura nova. Só falta voar.

Meu pai soltou uma gargalhada debochada. Minha avó falou mais alguma coisa e, em seguida, ele desligou o telefone.

— Merda.
— Pai — Fê deu um cutucão no abdômen sarado dele. — Acho melhor você ir lá.
— Não — respirei fundo, chocado com aquela situação. — Se ela fez isso é porque quer ficar sozinha. Na verdade, acho que nossa mãe não nos aguenta mais.
— Muito bem — Fê cruzou os braços. — Mas, se ela está de saco cheio do papai, podia se divorciar dele e assunto resolvido! Não precisava apelar para as últimas consequências.
— Você não entendeu, mana. Ela quer é se divorciar da família inteira.

Ficamos em silêncio de novo. Meu pai se afastou da janela e, resmungando, foi tomar banho. Eu e Fê permanecemos ali. Eu não acreditava que ela tivesse enlouquecido. Era estresse. Porém, o fato de acampar na frente do prédio me incomodava. Parecia querer mostrar para o mundo a merda de família que ela tinha.

Então, do nada, apareceu um morador de rua. Ele se abaixou, olhou para dentro da barraca e falou alguma coisa. Em seguida, recebeu permissão para entrar. Não demorou muito, os dois saíram. Já pareciam ser amigos de longa data. O cara ajudou mamãe a desmontar a barraca, ela juntou suas poucas coisinhas e os dois saíram dali, caminhando lado a lado. Juro que escutei minha mãe dar uma gargalhada. Ela estava se divertindo. Inclusive, fazia tempo que eu não ouvia minha mãe rir.

Dei as costas e fui preparar o jantar.

Patrícia da Fonseca Martins

Servidora pública estadual, Bacharel em Turismo. Tenho vários e-books publicados na Amazon, com foco no nicho da literatura feminina. Entre eles Um Amor de Plus Size, A Fonte, Noites Encantadas e Nós Queremos Transar com Você.

Fiz parte da primeira turma do Curso de Formação de Escritores entre 2015/2016, pela Editora Metamorfose.

Em 2026 iniciei o Curso de Formação de Revisores, também pela Metamorfose. Pretendo me especializar como Leitora Crítica.