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A passageira

A passageira

por Marina Macambyra

Depois de quase um ano trabalhando como motorista de aplicativo, era a primeira vez que Diego sentia realmente medo de alguém. Vários passageiros já o tinham deixado apreensivo, mas nada se comparava à sensação estranha que aquela mulher provocava. Não era o cabelo azul, nem o vestido longo e preto, nem a falta de sobrancelhas, porque há muito tempo aprendera a não se incomodar com a aparência das pessoas. Era algo menos objetivo, uma inquietação que começou assim que ela embarcou.

Seu jeito de lidar com a situação foi puxar conversa. Se a mulher respondesse bem, talvez o mal-estar fosse embora. O gancho foi o comentário, num programa de rádio, sobre a briga pela herança milionária de um artista morto recentemente. Diego expressou sua indignação.

— Nossa, que coisa mais feia essa família brigando por causa de dinheiro! Eles já têm tanta grana que a gente nem consegue imaginar, não é mesmo?

Animado pelo discreto "é verdade" murmurado pela passageira, Diego prosseguiu, já meio esquecido do medo inicial.

—  Porque eu, moça, com um décimo dessa grana, acho até que muito menos que isso — ele não conseguia se lembrar de uma fração menor do que um décimo — ia poder sustentar minha mãe e meu irmãozinho pelo resto da vida, sem precisar trabalhar. E digo mais: minha mãe não tem nada pra deixar de herança, mas mesmo que tivesse uma fortuna, eu trocaria tudo por ela. No caso de Deus levar minha mãe e perguntar se eu quero o dinheiro ou ela de volta, eu pediria pra ele devolver minha mãe. A mãe da gente é a coisa mais importante, não é não?

A passageira soltou uma risada suave, acenando com a cabeça, em concordância. Logo mais, chegou ao seu destino, desejando felicidades para Diego e sua família.

Diego não imaginava que, dentro de poucos meses, iria rever aquela passageira em meio à névoa de suas lágrimas, enquanto esperava pela notícia da morte de sua mãe, desenganada pelos médicos. Ele a veria pela janela, no jardim do hospital com seu cabelo azul, no momento em que o médico chegou, surpreso e exultante, para anunciar o inesperado. Contra todos os prognósticos, a mãe havia saído do coma, estava respirando bem e iria sobreviver.

Diego tampouco poderia saber, porque isso jamais aconteceu, que se sua mãe tivesse morrido naquele dia, ele teria comprado um bilhete de loteria ao sair do cemitério, por pena dos olhos triste da vendedora. E que esse bilhete estaria premiado e lhe renderia uma pequena fortuna.

Ele também não teria como saber que, depois de uma vida longa e quase feliz, a mãe morreria já velhinha, durante o sono, na casa dele. E que sua filha de 5 anos iria por muito tempo jurar ter visto a vovó sair do quarto onde as duas dormiam, no meio da noite, segurando a mão de uma moça de cabelo azul.


Conto baseado em fato verídico. Eu estava num carro de aplicativo, a caminho do hospital no qual meu marido se recuperava de uma cirurgia. O motorista, muito jovem, fez esse comentário, que achei bonitinho, ao ouvir uma notícia no rádio sobre brigas por herança. O resto é invenção.

Marina Macambyra

Marina Macambyra, escritora iniciante, nasceu em 1961. Mora em São Paulo (SP), desde 1979. É bibliotecária formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1981. Teve um conto publicado na revista Originais Reprovados, laboratório dos alunos de Editoração da ECA/USP,  e dois em coletâneas da Metamorfose, A vida aqui não é facil (2021) e Navalha, veneno, mistério: contos policiais, de suspense e investigação (2023).

Publica, ocasionalmente, na plataforma Medium e também escreve textos acadêmicos e técnicos ligados à sua área de trabalho na Biblioteconomia. Suas histórias têm sempre elementos dos gêneros fantástico e horror, em perspectiva feminista. Aluna do curso Formação de Escritores, iniciado em 2025.

Conheça também meu blog Imagem Falada