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A poesia da vida cotidiana

A poesia da vida cotidiana

por Idarci Esteves Lasmar

A poesia da vida cotidiana

Você gosta de ler poemas? A poesia faz parte de seu gosto literário? Tem um poeta ou poetisa preferido(a)? Por que é atraído(a) por ele(a)?

Ao ler um poema, percebemos que muitas vezes as palavras são usadas com significados diferentes daqueles habituais. É como se formassem uma rede de novos sentidos.

Esta é uma das ferramentas mais importantes da poesia: a metáfora. Por meio dela, os poetas criam significados que vão além da realidade cotidiana, ampliando as possibilidades de interpretação e enriquecendo a obra literária.

Quem explica isso com clareza, é EdivalPerrini, poeta e psicanalista, autor de um artigo de 2007A poesia da vida cotidiana. Ele cita Didier Anzieu, que aponta o ato de criar como um fenômeno único que se realiza em três tempos: sonho, luto e reparação criadora. Nesse processo, as palavras tomadas no conjunto recebem novo sentido.

Para compreender melhor esses três tempos da criação poética, podemos olhar para a canção Se eu quiser falar com deus, de Gilberto Gil (1981), que exemplifica de forma musicada esse movimento de transformação da linguagem.

Sonho: é o primeiro movimento da criação. É o tempo da inspiração, do contato com o desejo, da convergência entre a metáfora intuída e a possibilidade de sua absorção.  Pode durar segundos ou horas; é o momento em que a intuição criadora do artista desconstrói o significado comum da palavra.

Se eu quiser falar com deus, tenho que ficar a sós.

Tenho que apagar a luz.

Tenho que calar a voz.

Tenho que encontrar a paz.

Tenho que folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios.

Tenho que esquecer a data.

Tenho que perder a conta.

Tenho que ter mãos vazias, ter a alma e o corpo nus.

O luto é o segundo tempo. É o momento de entrar em contato com as emoções que acompanham o ato criador; em que a mente se entristece para digerir a dor que o encontro com o novo ocasiona. É o tempo de contemplar o objeto estruturado e conhecido, que foi destruído pela criação, e se aproximar do objeto simbólico.

Se eu quiser falar com deus,

Tenho que aceitar a dor.

Tenho que comer o pão que o diabo amassou.

Tenho que virar um cão.

Tenho que lamber o chão dos palácios, dos castelos suntuosos do meu sonho.

Tenho que me ver tristonho.

Tenho que me achar medonho,

e apesar de um mal tamanho, alegrar meu coração.

O terceiro tempo é o da reparação criadora. É o momento do ato da criação propriamente dita; é o tempo de realizar a obra, trabalhá-la, dar-lhe forma estética para que o objeto criado possa passar à apreensão das pessoas.

A repetição (treze vezes) da palavra "nada" expõe a qualidade e a densidade do trabalho da criação, bem como a absoluta necessidade de uma entrega ao labor criativo, desprovido de objetivos previamente estabelecidos.

Se eu quiser falar com deus, tenho que aventurar.

Tenho que subir aos céus

sem cordas para segurar.

Tenho que dizer adeus,

dar as costas, caminhar

decidido pela estrada que ao findar vai dar em nada,

 nada, nada, nada, nada,

nada, nada, nada, nada,

nada, nada, nada, nada,

do que eu pensava encontrar.

"O poema resgata o sentido que a sensibilidade popular, muitas vezes, não considera com ênfase: o deus-criador-espontâneo que nos habita. E mostra, poeticamente, o caminho duro e impregnado de humildade que se precisa percorrer para poder (quando se consegue) falar, escutar, entrar em contato com este deus-espontâneo: ter as mãos vazias, a alma e o corpo nus".

 

Idarci Esteves Lasmar

Mineira de Alfenas nasceu em ambiente rural, aprendendo a escutar os sons de um mundo especial a sua volta e guardar na memória tudo o que via com olhar atento _terra e muito céu.

Apaixonada por ensinar e escrever, a sala de aula foi sua casa por muitos anos, mas a escrita sempre esteve presente desde a infância.

Formou-se em Direito, fez mestrado em educação e várias especializações na área ambiental. Dedicou-se a escrever livros que ajudaram professores e escolas a pensar de forma mais integrada e cidadã, como Transversalidade e Integração – educação turística-ambiental;Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental de Minas Gerais: uma proposta de participação cidadã.

Na literatura, fez sua estreia com prosa poética no livro Das Palavras (Editora Guemanisse). Depois vieram contos em coletâneas como Palavras que mudaram o mundo, Contos de Viagem (ambos pela Editora Metamorfose) e Anima (Toca Editora). Também participou de um e-book em homenagem aos professores.

Em 2025, publicou o livro solo Vaga Lume – Prosa Poética (Toca Editora) e em 2026, participou das Antologias: Estação: Poesia. Poetizar a vida (Publicada – Vamos Cultural) e Cartas – as juras que prometi (Travassos Editora, em fase de edição).

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www.idarcielasmar.com.br