por Vanessa Alves
Fiquei parada, olhando para o teto e pensando no que poderia acontecer se eu escolhesse ser uma nômade. Afinal, não estou tão distante disso: meus vestidos longos, levemente amassados, com uma certa aura indiana e as pulseiras que tilintam nos meus pulsos parecem, por vezes, ensaiar essa versão de mim. Não é à toa que, na faculdade de Direito, meu estilo era frequentemente questionado. Abertamente. Por óbvio, eu ignorava.
Penso que talvez me faltasse apenas a coragem de não responder clientes no WhatsApp. De doar meus blazers e me desfazer dos scarpins que aprenderam a sustentar versões minhas que já não me cabem. Sem contar que eu poderia, tranquilamente, vender meu carro surrado — que ainda pago parceladamente, como quase tudo que insiste em me prender a um futuro já comprometido.
Quiçá, eu poderia cancelar a negociação do apartamento que estou comprando — como quem desiste, não de um imóvel, mas da promessa silenciosa de permanência. É como se, ao assinar aquele contrato, eu também aceitasse penhorar, aos poucos, a minha própria vida. Não é uma loucura?
E então eu penso: e se eu simplesmente não assinasse? Não o contrato. Não a rotina. Mas essa versão de mim que funciona tão bem que ninguém desconfia do quanto custa manté-la. Ainda mergulhada nos meus pensamentos, quando eu menos espero, o despertador toca de novo.
Dessa vez, não desligo imediatamente. Deixo tocar. Há algo de profundamente desobediente em permitir o ruído. Em não cumprir o gesto automático. Em atrasar, ainda que por segundos, a engrenagem do dia.
Levanto, enfim. No espelho, não vejo uma nômade.Vejo alguém cuja vida foi cuidadosamente construída para não ruir.
Postura ereta. Olhar firme. A mente já organizando o dia antes mesmo do café. Alguém que negocia, estrutura, sustenta prazos e expectativas com a precisão de quem aprendeu a não falhar. Alguém que construiu, com método e inteligência, uma vida sólida demais para simplesmente ser abandonada. E é justamente isso que me inquieta.
Porque, por trás da imagem impecável, existe uma cláusula que nunca foi discutida: a de que eu deveria querer ficar.
Desvio o olhar.
Na cama, ainda repousa aquela outra versão de mim — desalinhada, silenciosa, livre naquilo que não chegou a ser. Os vestidos continuam ali. As pulseiras também. Mas agora, com pressa.
E, por um instante breve — quase imperdoável —, eu invejo aquela que ficou.