por Angelus Montanari
O que vem à sua mente quando você pensa na cor amarela?
Talvez sentimentos de felicidade e alegria, os raios de Sol ou um belo girassol; mas e se eu te contar que essa é a cor do desespero, da loucura e da doença na literatura? A criação de imagens poéticas e simbologia dentro do universo textual de sua obra precisam ser bem construídas e enriquecidas pela intertextualidade. Trago o exemplo dos significados não-óbvios que o amarelo assumiu ao longo da história literária decadentista-simbolista.
Como uma nuvem escura que se aproxima anunciando a tempestade, o sentimento de derrota e humilhação pairava sobre a Europa – especialmente na França, que perdera a guerra Franco-Prussiana em 1870 – e deixava seu rastro de destruição, porém o Sol que nascia no horizonte estava longe de ser brilhante, mas uma estrela apagada e doente; era o crepúsculo causado pelo "excesso de civilização" que contaminava a Europa e marcava a passagem do século XIX para o XX pelo Decadentismo. Esse foi o movimento marcado por escritores ditos malditos – Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Paul Verlaine e Stéphane Mallarmé, para citar exemplos – que lançaram sua herança para a prosa e poesia que viria.
Mas você me pergunta o que a cor amarela tem a ver com tudo isso, imagino. Bom, fato é que os livros decadentistas que chegavam da França até a Inglaterra eram todos de capa amarela; John Lane, dono da editora que publicava as obras de Wilde, aproveitou-se dessa associação criada no imaginário popular e intitulou sua revista trimestral de The Yellow Book.
Inclusive chamo a atenção para o mais influente deles, mesmo que não seja amplamente discutido: Às Avessas, de Joris-Karl Huysmans. Eu li esse livro ano passado e posso afirmar que se trata de uma obra venenosa, no sentido de que ilustra tudo o que há de ruim (ou bom) no Decadentismo – a náusea, o spleen, a doença, a lassidão e as neuroses que atormentam os artistas.
Se você já leu O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, talvez se lembre de um livro de capa amarela que enche a mente do protagonista de depravação, há quem diga que Dorian tenha lido Às Avessas e se sentido tão indisposto quanto eu. Pois bem, Wilde era amigo de Bram Stoker e, não por coincidência, a primeira edição de Drácula é icônica pela sua capa também amarela.
Um significado vela: a cor amarela estava inconscientemente associada a livros que retratassem a depravação moral, o verdadeiro horror da sociedade da época, e que mais tarde foi adotada em mais simbolismos como em O Papel de Parede Amarelo, conto de Charlotte Gilmann que narra o lento enlouquecimento de uma mulher presa em seu casamento, O Rei de Amarelo, livro de terror de Robert Chambers que traz personagens enlouquecendo após ler a peça do Rei de Amarelo (uma narrativa dentro da narrativa, que inspirou Lovecraft); ou até em casos mais sutis, como as flores da hipocondria de Brás Cubas que Machado de Assis traz em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Trago esse trajeto da cor amarela de maneira breve não para afirmar que ela terá essa significação em todas as suas utilizações, mas para mostrar que os símbolos conversam entre si para além do óbvio e do senso comum; e a exploração de suas relações apenas enriquece um texto literário. Cada autor irá estipular e construir o que cada objeto, cor ou som representa em sua obra por meio dos devidos instrumentos.
Formado em Letras | autor e revisor iniciante
Leitura crítica para narrativas longas e contos | Leitura sensível para representatividade LGBTQ+
Gosto e leio literatura fantástica, realismo mágico, romance psicológico, drama e poesia simbolista. Mas também gosto de explorar todo o tipo de literatura e sair da minha zona de conforto
Autores favoritos: Dostoiévski, Thomas Mann, Rimbaud, Baudelaire, Virginia Woolf.