por Alexis Rodrigues de Almeida
O noticiário na TV despertou Hiroshi de sua letargia quase permanente.
— ... os responsáveis pelo projeto procuram voluntários dispostos a correr os riscos incalculáveis de uma viagem no tempo, — dizia a apresentadora digital. — Vamos ouvir agora o Dr. Nakamura, cientista chefe do projeto.
— Viagem no tempo é algo sonhado pela humanidade há muitos anos. Com o projeto Centauro, finalmente realizamos esse sonho. Precisamos de pessoas corajosas, dispostas a correr riscos para contribuir com o progresso da humanidade. Nada pode ser garantido, a não ser o privilégio de fazer parte desse incomparável passo dado pela Ciência.
— Se você está interessado, procure o escritório do projeto na avenida da Liberdade... — continuou a apresentadora em sua voz meio mecânica, dando o endereço do local onde os interessados deveriam comparecer.
Mais uma vez, a mente de Hiroshi foi invadida pelas lembranças de sua última conversa com sua ex-esposa.
— Você é um inútil, Hiroshi. E sabe muito bem disso. Todos sabemos. Você levará a culpa da morte do nosso filho até o fim da sua vida.
É bem verdade que o casamento deles já não era o mesmo há um tempo. O filho era o único elo. Com sua morte, não havia motivos para continuarem juntos. Mas nada justificava palavras tão duras.
A morte do filho assombrou Hiroshi por mais de vinte anos, mas as últimas palavras da esposa devoravam seu espírito.
A ideia da viagem no tempo era sua única saída. Entre viver atormentado por aquela culpa e morrer tentando consertar as coisas, não havia dúvida. Estava decidido.
* * *
No dia seguinte, logo pela manhã, Hiroshi chegou ao edifício sede do projeto Centauro. Foi conduzido à sala de espera. Não havia mais ninguém esperando. Ou ele viera cedo demais ou ninguém mais era louco o suficiente para fazer algo tão estúpido.
Cerca de meia hora depois, o Dr. Nakamura veio conversar com ele pessoalmente. Tentou explicar, em termos leigos, a teoria do entrelaçamento unilateral da curva espaço-tempo, e como a transmutação do infinito espacial em infinito temporal possibilitava a viagem no tempo. Explicou que durante a viagem existiriam dois deles. Um do passado e outro do futuro, mas rejuvenescido. Assim não seria possível distinguir entre ambos.
— Sr. Hiroshi, uma última informação: na viagem para o passado o senhor será rejuvenescido, portanto, não deve se apresentar a ninguém. Se isso acontecer, teremos que apagar suas memórias da viagem e você não trará nenhuma lembrança do seu passado.
Hiroshi olhava em direção ao doutor, mas não prestava atenção àquela enxurrada de teorias. Em sua cabeça existiam apenas os acontecimentos de vinte e cinco anos atrás. "Akira agora teria 30 anos", pensou.
Era uma tarde de sexta-feira. Ele e o filho estavam brincando de futebol no parquinho do bairro. Ele chutou a bola e mandou Akira ir buscá-la, enquanto atendia uma ligação no celular. A bola rolou até o meio da rua e o menino foi atrás. O som estridente dos freios do carro explodiu nos ouvidos de Hiroshi. Ele largou o telefone e correu, mas já era tarde. Agarrou o filho inerte e apertou o seu corpinho quebrado contra seu peito. E chorou. Chorou amargamente. Em seguida tudo se transformou em uma grande confusão. Encontrou-se no hospital e não pôde acreditar quando o médico lhe trouxe a notícia. Seu pequeno Akira estava morto.
Ao seu lado, sua esposa o olhou com ódio e desprezo.
— Você é um inútil, Hiroshi. E sabe muito bem disso. Todos sabemos. Você levará a culpa da morte do nosso filho até o fim da sua vida.
As palavras doíam tanto quanto a dor pela perda do filho único.
— Sr. Hiroshi, sr. Hiroshi. O senhor está ouvindo? — perguntou uma moça de cabelos compridos, despertando-o de seus pensamentos.
— Sim, estou ouvindo. Perdoe minha distração. São tantas informações. Não consegui processar tudo.
— O senhor precisa assinar esses papéis — completou a assistente do Dr. Nakamura. — Depois disso levará somente alguns minutos para configurarmos todo o equipamento. O senhor será transportado para o dia e hora definidos no formulário. O senhor escolhe para quando quer viajar.
Ele escolheu exatamente o dia do acidente.
* * *
Hiroshi foi reinserido em seu passado no mesmo local onde hoje se encontrava o laboratório do projeto Centauro. O local ficava próximo à sua casa, para onde ele se dirigiu. Eram quase oito horas da manhã quando ele chegou, a tempo de ver seu "eu" do passado despedindo-se da esposa. Era hora de ir para o trabalho e levar o filho à escola.
Resistiu duramente à tentação de correr e abraçar o filho. Isso não seria possível. Ele queria guardar aquela imagem ao retornar para o futuro.
Por um momento lembrou de alguns bons momentos com a esposa. Com os olhos marejados, pensou que talvez fosse possível fazer algo também para salvar seu casamento.
Sim, talvez pudesse mostrar à esposa que ela era o centro da família. Para o bem da criança eles deveriam retomar as tentativas de recuperar o amor e o respeito dos primeiros anos.
Ainda sem saber ao certo o que faria, aproximou-se da casa. Chegando à porta de entrada, ouviu a mulher falando ao telefone.
— Ele não me preocupa. É um pobre coitado. Mas precisamos levar o menino com a gente. Seria muito melhor se fôssemos só nós dois, eu sei. — Terminou a frase com uma leve risada, que reverberou no coração de Hiroshi.
Ele estremeceu. Por um momento, toda a questão do contrato perdeu o sentido. Ele precisava dar um jeito na situação.
Tocou a campainha e a esposa veio atender.
— Hiroshi! — gritou a mulher olhando em volta à procura do filho.
— Não se preocupe, Akira está a caminho da escola em segurança. O que importa é aquilo que ouvi agora há pouco.
— Como assim? Do que você tá falando?
— Ana, nem tente continuar escondendo. Agora eu entendo porque nossa terapia não funcionou. Você estava planejando me deixar. Não é isso?
— Hiroshi, querido! Eu ia lhe contar tudo.
A mulher recuava, enquanto ele avançava em sua direção. O homem lembrou da arma guardada no armário do corredor. Sim, ele era um pacifista. A arma era usada apenas nas suas práticas de tiro, mas naquele momento isso não importava. Todo o peso que carregou por tantos anos não tinha a ver com a morte do filho, mas era ela que não o suportava mais. Era isso. Todo seu corpo tremia. Os olhos eram de puro ódio. Não. Isso não estava certo. Ele não poderia apontar uma arma para ninguém, muito menos para sua esposa e mãe do seu filho.
Mas o ódio o cegara completamente.
Hiroshi pegou a arma e pôs uma única bala. Manteve a arma travada. Definitivamente não pretendia atirar, mas não queria que ela soubesse. O braço mal conseguia se manter ereto. O suor corria por sua têmpora.
— Hiroshi, veja o que você vai fazer. Quer transformar Akira no filho de um assassino?
A mulher continuou recuando até o quarto.
— Cale a boca, Ana. — Olhando para um bloco de anotações na mesa de cabeceira, continuou: — Escreva um bilhete. Vou lhe dizer cada palavra. Apenas escreva e não abra sua boca.
"Meu caro Hiroshi! Por favor me perdoe, mas não posso mais continuar com você. Conheci alguém e desejo viver com ele pelo resto de minha vida. Por favor, cuide de nosso filho."
Hiroshi verificou o bilhete.
— Agora, desapareça. DESAPAREÇA! — gritou com toda a força que conseguiu reunir. Por um momento achou que iria explodir.
Deixou o bilhete na mesa de cabeceira.
Faltavam poucas horas para seu retorno. Tempo suficiente para rever o filho de longe. Precisava de certificar que Ana iria embora antes de pai e filho retornarem. Sim, o bilhete seria encontrado e eles não iriam ao parque naquela tarde.
Seu sofrimento não seria em vão.
* * *
Ouviu uma voz conhecida.
— Senhor Hiroshi... O senhor fez parte de um experimento científico muito importante. Todas as explicações estão aqui neste documento. Por favor, cheque seus dados pessoais. Aqui está: seu nome, endereço de residência, suas rotinas diárias. Ah! só mais uma coisa: tem alguém esperando pelo senhor lá fora.
Ao chegar ao hall do edifício, havia um casal jovem esperando por ele. O rapaz era idêntico ao Hiroshi de vinte e cinco anos atrás.
— Pai — disse Akira — o que aconteceu? me ligaram pedindo para vir buscar o senhor aqui.
— Não sei exatamente, meu filho. Acho que aquele experimento mexeu com minha cabeça e meu coração — disse Hiroshi abraçando o filho com tanta força, como se fizesse muitos anos que não o via. Não conseguia entender de onde vinha aquele desejo, mas só não tinha vontade de soltar o filho. Como se quisesse protegê-lo de algo que não sabia bem o que era.
A esposa de Akira sorriu emocionada ao ver o abraço entre pai e filho.
— Vamos deixá-lo em sua casa, mas antes vamos passar numa maravilhosa torteria que a Hana descobriu. Ela acha que o senhor vai adorar. Tomaremos um café quentinho.
O dia estava ensolarado, mas a brisa fria deixava o clima agradável. As flores de cerejeira perfumavam o ar. Estava tudo tão brilhante.
Hiroshi recostou-se no banco traseiro do conversível, olhou para o céu azul e de repente sentiu vontade de sorrir, de cantar, de gritar. Akira e Hana nunca o tinham visto tão feliz.
Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.