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A TRAVESSIA

A TRAVESSIA

por Andrea Parham

O barulho estrondoso fechou a porta de ferro da entrada, significando para ele não haver mais volta àquele lugar, o presídio de Bangu II, onde já havia cumprido três anos de uma pena de quinze. Agora só queria saber do lá fora, pois não voltaria mais para a prisão. Pensava agora na corrida. Nunca uma viagem de ônibus fora tão boa. Vindo do início do trajeto, pôde sentar-se na janela perto do motorista e da porta, como se isso encurtasse o tempo de chegar. De vez em quando perguntava em que ponto estava no percurso para Copacabana, sua parada final, perto de casa.

Não haveria ninguém esperando. A casa pequena no alto da ladeira dos Tabajaras, onde morou com a mãe toda uma vida, estaria vazia. Dona Solange não aceitava a prisão do filho, era diarista e não podia perder um dia sequer do saldo para as contas da casa. Desde a morte do pai, vitimado por uma bala perdida, eram só os dois. Ele treinava nado livre e ela e tinha esperanças de o filho um dia poder dar aos dois uma vida melhor. Antônio agora não tinha planos e só queria ver o mar, estar perto da água, onde muito tinha sido feliz em seus tempos de natação.

 

Um garoto de dezessete anos, em sua época de ginásio, escolhido para participar de um projeto de inclusão de jovens da periferia no esporte. Passara por três baterias de testes com todos os alunos da rede de CIEPs do Rio e fora o terceiro colocado. Daí aos vinte e quatro anos treinou muito e o melhor lugar no mundo para ele era na água. Queria ter essa sensação, de novo, ver a princesinha do mar, depois de três anos cumprindo pena por ter matado sua namorada.

 

Chloe tinha também 24 anos quando morreu, segundo a polícia, atirada da varanda de um apartamento do décimo andar durante uma festa de virada de ano em frente à orla da praia, na avenida Atlântica. A dúvida o atormentava. Sabia que a cena do crime havia sido alterada antes da chegada dos policiais. O resultado do inquérito o acusou. Haviam tido uma briga durante a festa, onde todos estavam alterados devido a grande quantidade de álcool e drogas, estas servidas na festa como se fossem canapés.

 

 - Festa de bacana -, disse Antônio a Chloe quando entraram na casa e está riu do espanto do rapaz, admirado com as bandejas de prata com linhas sendo servidas. E todos se esbaldaram na virada do milênio, quando as profecias diziam que o mundo iria acabar. Terminou só para ele e Chloe.

 

Sentiu-se durante o processo encurralado, pois sua condição não permitia mais que um defensor público e o outro suspeito era pessoa de classe mais alta. Mas não tinha certeza, não lembrava, e isso o deixou numa alternância de humor desgraçada: uma hora sentia-se culpado de morte, querendo morrer; em outras querendo justiça.

 

Foram quase três horas do presídio até a orla de Copacabana. Quando passou pelo túnel Rebouças, uma alegria eufórica tomou conta e ele não conseguiu mais fazer nenhum plano, só pensava em lavar corpo e alma, ser abraçado pela água cristalina da princesinha do mar. Era a melhor coisa a fazer, depois disso estaria mais preparado para uma decisão qualquer. Estava afobado, querendo logo chegar e tirar o odor carcerário do corpo. Desceu na rua Barata Ribeiro, na terceira parada da rua, e atravessou correndo as duas avenidas chegando à praia, só tirando os sapatos antes de entrar no mar.

A sensação foi espetacular. Atirou-se sem se importar se havia outros banhistas, "que olhem, não podem me prender de novo por isso". O que para moradores e turistas era só um dia agradável na praia, para ele era um renascimento seguido já pelo batizado, uma volta ao lugar de origem e agora seria filho do mar.

"Filho de Iemanjá, deusa dos mares e mãe de todos os orixás". Lembrou da mãe quando ela dizia. Depois saiu, sentou-se de frente, tirou a camisa e as meias, colocando junto aos sapatos que já haviam sido largados na areia. Observou as pessoas, parando um bom tempo no pessoal jogando vôlei na praia. Então mergulhou por mais de trinta minutos para depois suspirar cansado de toda a energia que havia deixado na água. O sol morno agora queimava de leve sua pele, uma sensação gostosa de lembrança da própria existência que absorvia qualquer pensamento de desgosto ou sofrimento.

Ficou um bom tempo mirando o horizonte, para depois deitar-se espreguiçando-se na areia olhando para o céu. Uma nuvem preguiçosa se arrastava sobre um barco, e lembrou-se de Chloe acordando. Pensando na amada, os pensamentos mais obscuros tomaram conta da mente. A última visão que tivera dela fora suas unhas pintadas de vermelho. Só os pés eram visíveis, o resto do corpo coberto por um lençol, sendo colocado no rabecão. Pés pequenos e repletos de delicadeza, sempre bem arrumados, as unhas pintadas para a festa, imagem que o atormentaria nos três anos de prisão. Pés adormecidos, parados, quase pendurados, ainda mornos, mas inertes, o vermelho, o sangue, o estrondo, tudo o atormentava.

Antônio tentava lembrar de algo que lhe desse a certeza de tê-lo praticado. Ou melhor, de não, e a dúvida hora e outra seguida pela culpa parecia matá-lo aos poucos.

***

Chloe, adorada Chloe. Chloe que não veria mais.

Tinham a mesma idade, vinte e quatro anos, quando morreu. Amada Chloe tão cheia de vida, unhas pintadas de vermelho, Chloe apaixonada, que se atirava em seus braços sempre que o via, se deixando amar e se amando sempre que podiam. Chloe, Chloe, seu nome sempre ali, sua paixão e agora também danação. Chloe, um espírito livre, não via barreiras, e livre decidiu ser ele para ela. Livre, livre, e a delícia de ir afundando na água, ecos da palavra cada vez mais audíveis para sua consciência na medida que os ruídos externos e internos iam ficando a cada mergulho mais longe.

Quando brigavam ele tinha uma visão diferente desse sentimento na água. A namorada era de uma teimosia, em certas ocasiões, que beirava a impertinência. Tinha boa intenção, mas achava sempre saber o que era certo. Antônio muitas vezes havia se sentido diminuído, mas não discutia por acompanhar seu raciocínio e acabar concordando com ela. Queria que a danada lhe desse uma chance, mas ele tinha dificuldades para se explicar e ela era destemida. Nesses casos Chloe o encarava com olhar desafiante, apaixonada, e isso o fazia desmoronar.

Em horas como essas, quando iam ao clube, Antônio imaginava empurrá-la para o fundo da piscina, cabeça dentro d'água, atiçando um pouquinho, para depois deixar a cabeça de cachos dourados e escorridos aparecerem de novo meio a água, avisando que estava tudo bem, quando quase lhe faltasse o ar. Depois tudo voltava ao normal e assim se amavam novamente. Lembrou da sua fantasia agora que via a linha que separa o céu da água do mar.

Chloe unhas pintadas de um vermelho que havia se espalhado pelo corpo e chão em momento de terror. O azul dos olhos que parecia vir direto do ambiente marítimo agora não se veria mais.

                                                              ***

Antes, a Chloe que se atirava em seus braços quando se viam na piscina do clube Paquetá, à beira da lagoa Rodrigo de Freitas. Mais cativante que propriamente bonita, dizia ser a cola que ligava o morro ao asfalto. Era muito jovem até para seus vinte e quatro anos, se transformando em notícia de um crime chocante por envolver uma menina da alta sociedade.  Ele não a matou, a amava, seguia afirmando.

 A visão de quase afogamento só vinha â cabeça em momento de muita raiva, quando estavam brigando, e aconteceu apenas duas vezes. Pelo menos era o que Antônio dizia para si mesmo. Dali a cinco minutos do ato estariam se beijando, se abraçando. Às vezes pensava: "foi o Fabrício", o terceiro personagem dessa estória.

O antigo namorado de Chloe, dispensado e com orgulho ferido, tentava convencê-la que o namoro com Antônio não teria futuro, era brincadeira de menina de classe média para afrontar o pai. Nutria esperanças. Antônio o chamava de playboy estofado, segundo ele, porque o olhava com o peito cheio de ar e arrogância, com desmesurado pudor.

Mais um mergulho, lavando a consciência e o corpo, tirando toda aquela energia prisional suja, na tentativa de deixar ali o peso que carregava devido a uma possibilidade. Um mergulho, o corpo entrando docemente e se tornando líquido junto à água, conjuntivo, os sons indo furtivos indo e voltando macios, enquanto a cabeça voltava a aparecer saída de leve da mesma. O mar o fazia pensar com mais agudeza e, neste ponto, caras iam se adicionando à cena: Fabrício berrando com a moça, agarrando-a pelo braço. Será verdade ou imaginação? Seria recordação contada por ela? E ele se deixava fluir como as águas.

 "Nerd safado", pensou, como já o havia chamado.

Chloe, querida Chloe sem preconceitos, era curiosa e apaixonada como ele pelo mar. Antônio foi cativado na primeira vez que se viram. Quando se olharam, um sol se abriu com adornos de pequenas pérolas coroadas pelos lábios vermelhos para contrastar com o restante tão claro, tão digno. Primeiro se amaram com os olhos, o resto não demorou nada a seguir.  

Decidiu que continuaria a seguir a linha que separa a água do ar e que dos dois precisava para viver. Sem mais separações. Sem mais lugares definidos, onde deveria ou não estar. a resposta está no infinito e lá encontraria a essência da amada, aonde eles iriam novamente se entrelaçar.

Atirou-se, sem medo, imaginando um final feliz

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Andrea Parham

Sou graduada em Jornalismo, trabalhei dez anos na área, incluindo como revisora e subeditora. Depois de passar anos da minha vida viajando pela Europa, Ásia e África, voltei ao Brasil e trabalhei como professora de Inglês e Tradutora. Hoje tenho um negócio que dá aulas online, estudo literatura e estou trabalhando em um livro de contos que será publicado com as gravuras de meus parceiro, Philip William Parham. Daqui a dois meses, me mudo para a Espanha, onde terei residência fixa.