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A última testemunha

A última testemunha

por Ana Cristina Sampaio Alves

A última testemunha

A sala estava localizada na antiga Rodoferroviária de Brasília, onde funcionam diversos outros órgãos da administração pública. Em uma mesa ao fundo, separada por uma divisória de vidro, trabalhava o advogado Silas Fontenelle, que dirigia uma equipe de profissionais voltados para a assistência social, jurídica e psicológica de mil e trezentos brasileiros pertencentes ao Programa de Proteção à Testemunha.  

Em frente ao aquário de vidro de Silas, que lhe dava o status de chefe, havia quatro outras mesas organizadas em formato de cruz, sem separações entre elas. Em cada uma, um computador, um telefone e um funcionário estavam cercados por pastas de papelão coloridas, demonstrando a antiguidade dos registros que continham. O trabalho daquelas quatro pessoas, naquele dia, era arquivar digitalmente os antigos documentos das pastas. Cada cor correspondia a um tipo de risco: vermelho para ameaças ativas, amarelo para risco moderado, azul para situação estabilizada.

Foi quando em meio às três cores, uma pasta preta sobressaiu aos olhos de um dos funcionários, que, ao abri-la, chamou imediatamente o chefe Silas.

--   Dr. Fontenele, por gentileza, não reconheço essa pasta. Aqui tem documentos datilografados já bem amarelados que datam de 1988, ou seja, antes do nosso serviço existir. Mas falam da proteção de uma testemunha de um esquema de corrupção de políticos envolvendo bilhões de cruzados na época. Aqui não fala o nome, mas diz que a morte dela foi simulada para protegê-la da perseguição dos implicados no escândalo. Que ela foi realocada em Paris, onde tinha apartamento próprio, e que lhe foi dada nova identidade e passaporte – Ao deparar-se com um novo documento na pasta, disparou: -- Dr. Fontenele, veja só o risco que ela correu! Tem uma foto dela no arquivo. Meu Deus, como é que deixaram uma foto da testemunha assim dando sopa! Que erro grosseiro foi esse!

-- Me dê aqui – disse Silas retirando a pasta preta das mãos do funcionário. – Pode ir, obrigado, eu tomo conta agora.

Silas não perdeu tempo, começou a folhear cada documento com atenção. Afinal, um processo de 1988 era considerado raro, já que o governo só criaria o Serviço de Proteção à Testemunha dez anos depois. Ele nem sabia que naquela época já existiam tais encobertamentos. Ao reunir todas as informações que a pasta continha ficou perplexo: ali estava contada a história de como a famosa empresária, dona de uma das maiores companhias aéreas do país, até sua falência no início dos anos 90, contou com a ajuda do governo para simular o próprio assassinato e fugir da perseguição de políticos envolvidos num grande esquema de corrupção. Ao ler os nomes dos implicados, estavam ali dois ex-Presidentes da República, dirigentes do Congresso Nacional, além de ministros e tantos outros cargos de primeiro escalão das últimas três décadas no Brasil.

Silas contou vinte e cinco nomes de políticos famosos implicados na investigação que, aparentemente, jamais foi levada adiante. Ao menos, nunca lera nada a respeito. Porém, o assassinato da suposta testemunha que ele ora tinha em mãos, apesar de ocorrido na sua infância, ainda repercutia na memória dos brasileiros como um crime bárbaro que afetou a elite carioca. Abriu o computador e pesquisou a história. Sim, a assassina da empresária havia fugido do Brasil, juntamente com o diretor da empresa, com quem era casada. Os dois nunca foram encontrados. Há 37 anos não existia internet e sumir no mundo era algo muito mais fácil de se conseguir.       

Silas deu por encerrado o expediente e foi para casa carregando a pasta preta, não sem antes assinar o formulário de retirada de documentos sigilosos. Queria pesquisar tudo aquilo em seu computador pessoal. A primeira coisa que fez foi buscar a história que se seguiu ao assassinato da empresária. O que aconteceu com a empresa, onde estavam os dois filhos que ela havia deixado, qual o endereço de seu apartamento em Paris? Poucas informações relevantes apareceram na pesquisa: localizou os nomes dos herdeiros, que já tinham netos e viviam no Brasil. Deram inúmeras entrevistas sobre a morte da mãe, algumas até recentes, nas quais falavam de como o assassinato da mãe por uma pessoa tão próxima desestabilizou a família e os negócios, levando à falência da empresa em poucos anos. Reergueram-se com a venda e o aluguel de imóveis, entre casas e fazendas. Eram ainda muito ricos.

Sobre para onde a empresária teria ido, com a ajuda do governo brasileiro, nenhuma informação. Mas a pasta dizia que ela havia se refugiado no próprio apartamento em Paris. Então, como a família não saberia de seu paradeiro, já que eram também donos do imóvel? As dúvidas começaram a brotar na cabeça de Silas, que decidiu marcar uma visita ao filho mais novo da empresária. Após algumas pesquisas no sistema a que tinha acesso como funcionário do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, encontrou endereço e número de telefone no Rio de Janeiro. Não perdeu tempo para fazer a chamada. Do outro lado da linha, a nora da empresária atendeu. Tinha uma voz jovial, apesar dos 65 anos, calculou Silas, que se apresentou como chefe do serviço de proteção à testemunha em Brasília. Seguiu-se um momento de silêncio do outro lado da linha.

-- Qual seria o assunto, Dr. Silas?

-- É sobre a morte da mãe dele.

-- Dr. Silas, meu marido não está bem de saúde e essa é uma história encerrada na nossa família. Não falamos mais sobre isso. Passar bem. – Ela desligou o telefone sem dar a chance de mais explicações.

Silas decidiu, então, procurar o contato da filha da empresária, o que também não foi difícil de encontrar. Antes que ela talvez pudesse ser avisada do telefonema pelo irmão, Silas conseguiu ser atendido. A mesma apresentação teve, no entanto, recepção bem diferente.

-- Dr. Silas, por que esse serviço estaria interessado na morte da minha mãe há 37 anos?

-- É que encontramos uma pasta com documentos informando que o assassinato dela foi forjado para que ela saísse do país com nova identidade. Ela foi testemunha de um escândalo bilionário envolvendo políticos proeminentes. Esse episódio nunca foi sequer investigado e essa informação só veio à tona esta manhã, quando a pasta foi encontrada. A senhora tinha conhecimento disso?    

--  ...

-- A senhora está na linha? – perguntou o advogado após um longo minuto de silêncio. 

-- Sim, estou aqui. Olha, Dr. Silas, acho melhor o senhor ignorar essa pasta, queimar esses documentos, talvez até tirar umas férias. O senhor falou sobre ela com minha cunhada?  

 -- Não, senhora. Mas ela sabe quem eu sou e qual era o assunto. Por quê? Estou correndo perigo?

Ainda com o telefone na mão, Silas caiu atingido no peito e na cabeça por uma saraivada de balas que cruzaram a janela de vidro de sua casa. Pareciam estampidos de fogos de artificio em plena tarde. Pela janela estilhaçada, três garrafas de vidro contendo coquetéis molotov foram atiradas na sala, causando o incêndio que devastou a casa em duas horas, mesmo com o árduo trabalho dos bombeiros. Quando conseguiram entrar, encontraram o corpo de Silas carbonizado.

A conclusão do inquérito de incêndio assinado pelo Corpo de Bombeiros do Distrito Federal dizia: Não foram encontradas evidências de dolo, sabotagem ou curto-circuito elétrico no local periciado. O evento pode ser classificado como incêndio acidental por negligência técnica em equipamento de uso contínuo.

Uma semana após a morte trágica do chefe, o funcionário que encontrou a pasta preta colocava na fragmentadora de papeis o formulário de retirada de documentos sigilosos.

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.