por Samantha Kassner
Desde criança, eu ouvia histórias sobre a Itália. Dos dois lados da minha família – tanto materna quanto paterna – existia a descendência italiana, sempre presente nas conversas, nos hábitos, nos sobrenomes, na mesa farta, no jeito de falar.
Era como se a Itália fosse parte do nosso DNA emocional. Entretanto, a partir do momento que eu tinha condição de arcar com os custos de uma viagem internacional para a família toda, por muitos motivos e alguns revezes da vida, conhecer a Itália foi ficando para depois.
Foi só em 2020 que a viagem ganhou corpo e foi todinha planejada: passagens compradas, hotéis reservados, passeios escolhidos com cuidado, mas, como tantas histórias que conhecemos, veio a pandemia e tudo teve que ser cancelado. Fiquei frustrada, triste. Não só pela parte do dinheiro que se perdeu no processo, mas por sentir que, de novo, a Itália tinha nos escapado.
Só que, como tudo na vida, quando um caminho se fecha, outro pode se abrir. Na mesma época, um primo meu do lado paterno me contou que havia conseguido a cidadania italiana pela descendência do nosso bisavô.
Naquele momento, eu decidi: "Se não fui como turista, irei como italiana."
E assim começou uma nova jornada: eu, minhas irmãs, minhas filhas e todos os sobrinhos entramos com o pedido no mesmo ano. Veio a espera e a burocracia, que já são longas, e ainda foram atravessadas pelos atrasos decorrentes da pandemia.
Foram quatro anos de paciência, persistência e fé. Recebi minha cidadania e passaporte no segundo semestre de 2024. E, em maio de 2025, embarquei – pela primeira vez – para a Itália. Não como turista, mas como cidadã. Não foi só uma viagem de férias, não fui apenas para conhecer, mas para me reconhecer.
Depois de uns dias em terras italianas, fomos para o sul, alugamos um carro e chegamos na cidade onde meu bisavô nasceu, Corigliano Calabro. Que emoção maravilhosa chegar nesta pequena e charmosa cidade da Calabria, que combina história, arquitetura fascinante e belezas naturais! Caminhei pelas ruas onde ele viveu, entrei nas igrejas históricas com aquele ar de Idade Média e bati foto com o passaporte vermelho na mão na frente do imponente Castello Ducale.
Conversei com as pessoas no idioma delas, que comecei a aprender com minha filha em num curso de um ano que fizemos juntas. Conseguimos falar, entender, nos conectar.
Mais que uma viagem, foi um reencontro com a história.
E o mais bonito de tudo: minha companheira nessa jornada foi minha filha mais nova. Há cinco meses, ela deixou para trás uma carreira no corporativo e abriu sua própria agência de turismo – um sonho antigo, uma paixão que cultivamos juntas há anos, desde as nossas primeiras viagens quando ela ainda era criança.
Desde a adolescência, ela me ajudava a montar os roteiros. Agora, testamos o primeiro profissional dela na prática. E foi impecável! Roteiro completo, equilibrado, inteligente. Pouco desgaste, muito aproveitamento de cada dia, passando por cidades que não fazem parte dos roteiros comuns das agências, mas que ela encontrou porque foi pesquisar o que batia com o nosso perfil e com o das duas amigas que viajaram conosco. E eu ali, ao lado dela, vivendo essa nova etapa da vida dela, apoiando, observando, incentivando.
Essa não foi uma viagem de férias. Foi uma viagem de pertencimento, de passagem, de transformação.
Pertencimento à minha ancestralidade. Passagem de uma história que veio antes de mim e agora continua com minhas filhas. Transformação, porque reafirmou valores que me movem: raízes, coragem e afeto.
E quando achamos que a viagem já estava completa, veio um presente inesperado: cinco dias na Suíça.
Minha filha encontrou um trajeto de trem de Tirano, na Itália, até St. Moritz — uma viagem por paisagens que mais pareciam sonhos: montanhas nevadas, lagos cristalinos a mais de dois mil metros de altitude, cenários dignos de cinema.
E, já que estávamos ali, seguimos para Zürich. Que cidade! Moderna, limpa, linda, com qualidade de vida altíssima. Foi um bônus de ouro. Uma lembrança poderosa de que, quando realizamos um sonho, vale a pena aproveitar cada detalhe, cada desvio, cada oportunidade de ir além do esperado.
Porque, às vezes, os sonhos demoram; mas quando chegam, nos encontram muito mais prontos do que quando foram sonhados.
Samantha Kassner acredita que a forma como vivemos é resultado direto das escolhas que fazemos ? conscientes ou não.
Com uma trajetória marcada por superação, reinvenção e liderança em grandes organizações, hoje atua como palestrante, coach, consultora e mentora em desenvolvimento humano.
Seu trabalho integra prática, consciência e inteligência emocional para provocar mudanças reais.
Em sua escrita, convida cada pessoa a se comprometer com a construção da sua melhor versão e ser líder da sua vida.