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A Vida de Gazela

A Vida de Gazela

por Fernando Domingos Chitela

Ontem tive um sonho. Não sei se foi por ter lido Necropolítica, de Achille Mbembe, e depois ter ido logo dormir. Sonhei que eu e os da minha família éramos gazelas. Que na noite do sonho não conseguimos mais dormir porque o meu irmão mais velho não conseguiu ativar o alarme e foi comido por um leão. Ficámos devastados.

Quando amanheceu, reunimo-nos todos e ficamos a lamentar a morte do nosso ente querido. Não vi ninguém baixar a cabeça para comer a relva. Em cada um de nós parecia martelar a mesma pergunta: quando será a nossa vez?

Pensei em ser macaco e, de repente, vi um grupo deles descer ao chão. Apanhavam frutos silvestres para comer e pareciam não partilhar a dor que estávamos a sentir. Mas eu estava enganado. Pouco depois, apareceu o chefe deles e gritou:

— Vocês estão assim com essas caras por quê? Por causa do que os leões vos fizeram ontem à noite?

Alguns olharam para o chefe dos macacos, mas outros ignoraram-no.

— Os leões só fazem o que fazem porque vocês lhes permitem — continuou.

Todos se viraram para ele, incluindo os que antes o ignoravam.

— Esse gajo está a imitar os humanos. Os ativistas. Os líderes motivacionais. Os influencers. Só pode — disse o coelho.

Olhei para os rostos dos meus pais e vi que estavam concentrados no que o chefe dos macacos dizia.

— Temos de nos unir. Somos a maioria.

Olhou da direita para esquerda.

— Olhem para a quantidade dos que estão aqui. Vejo milhares.

Fez uma pausa.

— Se nos unirmos, com a ajuda dos búfalos, rinocerontes, hipopótamos e outros animais corpulentos, conseguimos eliminar não só o leão, mas também todos os outros predadores.

Houve um grito de euforia. Olhei para o rosto do meu pai e já não era o mesmo. Na noite anterior, estávamos todos a certa distância, a ver o meu irmão servir de jantar para os leões. Agora, o meu pai soltava um grito de raiva.

Os pais do veado, da paca, da gazela, do coelho, do rato-monteiro e da pacaça também soltaram um grito de guerreiro. Também soltei o meu. O grito coletivo era ensurdecedor.

Depois o grito cessou. Era o momento de o macaco apresentar o plano, mas, em vez disso, alguém gritou:

— Leão!

Toda a gente fugiu. Olhei para os lados: os meus pais já não estavam. Corri também e consegui alcançar o grupo. Quando estávamos a uma distância segura, olhei para os meus pais e para os pais dos outros. Nem deu tempo para perguntas.

A única coisa que ficou bem presente em mim foi que eu devia apenas esperar pela vez em que serviria de refeição aos predadores. Seria o pequeno-almoço, o almoço ou o jantar? Qual será a melhor refeição para um predador?

Assustei-me e acordei. Agarrei a garrafa de água. Bebi. Rápido. Tentei afastar o sonho. Não por medo. Mas porque ele não me largava. Voltei a beber. Fiquei ali, imóvel, como se o corpo ainda estivesse a fugir. Foi então que percebi: Eles nascem presas. Eu não nasci assim. Mas alguém decidiu que eu seria. E, desde então, tudo à minha volta funciona como se isso fosse natural.

 

Fernando Domingos Chitela

Fernando Domingos Chitela é mestre em Tradução pelo Chartered Institute of Linguists e estudante de Gestão de Empresas pela Cambridge International College.

Formou-se em escrita criativa na Metamorfose, onde frequenta atualmente o curso de Revisão e Leitura Crítica. É autor de um romance inédito, atualmente em concurso num prémio literário da lusofonia.

Dedica-se à ficção realista que atravessa memória de infância e adolescência, explorando as rupturas que marcam o crescimento em contextos sociais de transformação.