por Ana Cristina Sampaio Alves
Fumara por vinte e oito anos e, conforme me disseram na recepção do andar, lutava para não perder a perna. Foi assim que decidi quem seria a primeira visita da tarde no hospital. Como voluntária, estava ali para ouvir os desabafos dos pacientes.
Assim que pedi licença para entrar, ela se virou na cama, ajeitando-se com os braços. Segurava a ponta do lençol bem perto do peito. Ao perguntar como estava, respondeu sem me encarar:
— Tô aqui faz nove dias. Não sei se é por causa da abstinência ou se foi o cigarro que me deixou com pavio curto, mas já briguei com meu marido e meu filho pelo telefone hoje.
— Mas justo hoje, que é dia de visita? Eles vieram te ver?
— Não. Ele disse que não tinha dinheiro pro ônibus, que precisava terminar um serviço pra conseguir a passagem. Então eu disse que não precisava vir.
— Ele então não veio?
— Claro que não. Bati o telefone na cara dele. — Como permaneci calada, ela continuou, desta vez olhando-me de frente, a voz um tom mais alto. — Sabe, eu gosto de desligar na cara da pessoa quando ela me faz raiva. Não levo desaforo pra casa. Deve ser o cigarro que me faz isso. — Os olhos desceram para o lençol. — No meu trabalho, já falei poucas e boas. Depois, pego a bolsa e saio. Só que isso não é bom, porque tenho que arrumar outro emprego. Eu até tento me controlar, mas, quando vejo, já falei tudo. — Voltou a me encarar, como se a coragem tivesse retornado. — Parece que uma voz bem na minha nuca vai me instigando. Uma vez briguei com meu marido e quebrei dez copos, um atrás do outro. Atirei tudo contra a parede.
Meu rosto congela diante do leve sorriso que vejo se formar na sua boca.
— E como você se sentiu depois disso?
— Me senti ótima!
— Mas você não queria receber visita hoje? Vai ficar mais uma semana sozinha aqui?
— É..., mas agora já foi.
— Não, ainda dá tempo. Liga para o seu marido e pede para ele vir.
— Ah, isso eu não faço.
Aproximo-me da cama. Penso em pegar na sua mão, mas desisto. Há ordens para não tocar nos pacientes. Observo o cobertor fino lhe esquenta da cintura para baixo.
— Você já decidiu largar o cigarro?
— Acho que não consigo. Quando sair daqui e sentir o cheiro do cigarro, já sei que vou voltar a fumar. Tenho certeza. Só que os médicos disseram que eu posso ter que amputar a perna. E, entre perder a perna e largar o cigarro, melhor parar, né? Sabe quanto dinheiro já joguei fora nesse vício? Dava pra comprar uma casa. Nessa hora me bate um arrependimento. — O olhar sobe para o teto do quarto.
— Então você já sabe que precisa parar.
— Não sei não. — Balança a cabeça, olhando para baixo.
— Sabe, meu pai é o único na família que nunca pôs os pés num hospital. Já a minha mãe vive doente. Ela é irritada que nem eu. Adora se fazer de vítima. Nossa, como detesto gente que se faz de vítima! Meu pai não, esse sabe viver. Ele gosta de pegar a bicicleta e andar pela cidade. Se tem que ir ao mercado, demora umas cinco horas. Vai parando pra conversar com os amigos, jogar dominó, fazer a compra. Quando volta, tá feliz. Nem se importa com as raivas da minha mãe. Deve ser por isso que eu estou no hospital. Essa irritação, essa teimosia.
— É só dar o primeiro passo.
— É, eu sei, mas pedir desculpas? Isso nunca!
— Tem coisas que são uma libertação.
— ... — A cabeça pende para o lado. Ajeita-se novamente na cama subindo o corpo com as mãos.
— Bom, preciso ir. Gostei da nossa conversa. Melhoras. Que você se recupere logo e volte para casa. E pensa no cigarro. Já foram nove dias sem fumar. Você vai conseguir parar.
— É... não sei não.
Ela deixa cair o cobertor e o lençol no chão enquanto se mexe na cama. No rosto, uma careta de dor. Onde deveriam estar as pernas, resta o vazio.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.