por Beatriz de Mello Beisiegel
A sala não era grande. Mas andando daquele jeito, indo em frente mas olhando meio para baixo, com a cabeça um pouco de lado e um sorriso encruado, contrariado, pareceu infinita. Subiu no tablado, sentou-se na cadeira e começou:
-Boa noite, meu nome é Aline? e? fazem muitas 24 horas que eu não?me? aaaaah.
As palavras, já de início tímidas, foram sumindo em um sopro enquanto ela mesma ia se apagando em transparência. E então a cadeira estava ali vazia.
As demais pessoas na sala encararam a cadeira. Algumas sacudiram a cabeça, tristes.
E na semana seguinte lá estava ela de novo. E logo não estava mais, parece. Foi se apagando no lugar onde estava sentada, silenciosamente. Ninguém precisava perceber, mas as pessoas daquela sala especial estavam ali para isso.
Foram necessárias várias semanas. Foi preciso que ela evaporasse em diferentes partes da frase, em diferentes graus de sofrimento, para que as pessoas criassem coragem.
-Boa noite, meu nome é Aaaaah? tentou ela, e quando as palavras começaram a sumir alguém agarrou sua mão. Surpresa, ela encarou a mulher desconhecida, enquanto outros companheiros se levantavam, pegavam sua outra mão, se postavam às suas costas, segurando seus ombros que ela agora endireitava ao olhar em frente e erguer de verdade a voz:
-Meu nome é Aline e sou impotente frente ao meu vício de me auto-anular. Na verdade, passei a vida toda sem saber que era um vício. Mesmo agora, que me mandaram procurar ajuda aqui, eu desentendo. Vício é fumar, beber. Aquele prazer de começar o dia pitando um cigarro e vendo o sol se erguer, de passar a noite com as amigas no bar enchendo a mesa de garrafas vazias. Tem dependência, tem prejuízo, dano, mas tem prazer. Como assim, vício em me auto - anular, em me diminuir? Um vício pode ser em algo prejudicial, mas como algo prejudicial sem nada nada prazeroso atrelado pode viciar?
A tarde findava quando a reunião terminou, e era uma tarde linda, praticamente obrigatório ir andando pra casa numa tarde dessas. Aproveitou para ir pela rua da livraria, adorava aquela rua com aquele deque, bancos e um café, e na ruela ao lado a luz do pôr do sol chamava, vem! Seguiu aquela luz ruela abaixo, tanto silêncio na luz vermelha, até o rio. Fazia tantos anos que não ia lá que assustou-se com o tamanho do rio, com as ondulações vermelhas na água que já escurecia. Lá longe, no rio, algum bicho nadava. Ariranha? Jacaré? Tracajá? Tanto tempo que não via um bicho assim. Precisava descobrir que bicho era aquele. O barquinho amarrado na margem devia ter sido colocado lá pra isso mesmo, concluiu ela espichando uma perna para alcançar o barquinho, embarcando com um leve sacolejo, encontrando o remo. Agora era só desamarrar o barquinho e foi aí que se deu conta do que estava fazendo. O bicho, o barquinho na noite, o rio imenso. "Tá doida, Aline? Você não sabe remar nem tem uma lanterna!" Pensou. O bicho, convidativo, fazia ondinhas na água lá longe, enlouquecedora a vontade de se aproximar do bicho, e ela tentava desamarrar o barquinho com mãos que se faziam mais tênues e transparentes quanto mais ela se sentia uma doida prestes a sair remando na noite sem saber remar.
"Foi nesse rio que eu fui afogado".
Em desespero com as mãos já quase impalpáveis, inúteis contra o nó que amarrava o barquinho, ela nem se sobressaltou com as palavras do soldado que surgira ao seu lado, o queixo apoiado em seu ombro como um cachorro amigo, o rosto magro sujo de óleo queimado. Olhou longamente o guerreiro fantasma, conferindo com os dizeres na popa do barquinho. Juntos, desataram o nó. Lá longe, o bicho pegou a deixa e se afastou alegremente rio acima no rastro da lua cheia. Na noite, Aline remava tentando se aproximar do bicho, seguindo a fita prateada e ondulante de luz. A bombordo e estibordo do barquinho, as palavras OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER, singravam a água.
Sou bióloga, especialista em comportamento animal e conservação da biodiversidade. Escritora animalista, com dois livros de ficção na Amazon: Vento Sul e O silêncio das girafas, ambos de 2024. Também escrevi, com colegas, dois livros dedicados à conservação da fauna, Mamíferos da Serra da Macaca (um guia para tentar fazer com que os motoristas se apaixonem pelos bichos que cruzam a estrada em vez de passar por cima deles), em 2016, e Onças pintadas do estado de São Paulo: Guia de identificação, com as histórias e fotos de cada uma das poucas onças que resistem à nossa destruição, em 2023, que pode ser encontrado na página do projeto: https://oncascontinuoparanapiacaba.eco.br/. Participo do Curso Online de Formação de Escritores.