por Beatriz Camano
Se você está lendo esta carta, saiba duas coisas antes de continuar. A primeira, que escrevi quando já sabia que me mudaria. A segunda, que não quero, sob nenhum ponto de vista nem desculpa, que me procure. Imagino que esteja pensando que pode ser capaz de me encontrar. Seria uma tarefa fácil para alguém acomodado a estes tempos tecnológicos. Peço, simples assim, que não se interesse por minha pessoa. Eu sei que você é jovem porque está ocupando este quarto, em um terceiro andar sem elevador.
Outra coisa e depois prometo ir ao motivo desta carta. Na sacada há uma pequena caixa de madeira com abelhas nativas sem ferrão. São mandaçaias. Não irão lhe fazer dano algum nem tentarão entrar no quarto. Só tem que alimentá-las, uma vez por semana, com água e açúcar demerara, em uma solução a partes iguais. Veja que é bem simples abrir a tampa e colocar dez mililitros num pequeno pote que verá no interior. Produzem pouco mel, que não é tão doce como o clássico; é mais líquido e com um leve gosto cítrico. Já tive uma aranha marrom, de tamanho assustador. Quando a descobri, embaixo de um vaso, levei um susto daqueles. Mas vi que tinha entre as patas um casulo de finos fios brancos. Mesmo apreensiva com minha presença, não fugiu, como se esse tesouro fosse mais importante que ela mesma. Preferi deixá-la em paz, mas a visitava cada semana, até que apareceram os filhotes. Centenas deles. Não voltei mais. Considerei que seria uma invasão de privacidade. Também tive ninhos de beija-flor —tão pequenos— e um de sabiá. Passava esses tempos com a janela fechada, só para não incomodar os pequenos lares.
Sim, o motivo...
A casa merece uma nova vida para ela não morrer junto comigo.
Moramos aqui, minha mãe e eu, por muitos anos. Ficamos nós duas depois do falecimento trágico de meu pai e irmãos num acidente de carro que nunca foi bem esclarecido. Ninguém conseguiu explicar como sobrevivemos. Minha mãe chamou um cunhado para morar junto, pois ter um homem em casa espanta os outros, dizia. Depois de alguns meses e vendo que não dava certo, finalmente, ficamos sozinhas. Mais ou menos sozinhas...
O que quero lhe contar é que a casa tem outros habitantes que irão aparecer à medida que você se entrosse com ela, e que sinta que faz parte dela como ser vivo. Esta é uma casa de mulheres. Não tenha medo. São pacíficas e alegres. Não se importam em estar nesse limbo entre a vida e a morte. Tem que ganhar sua confiança para vê-las. Tampouco precisa fazer nada especial. Mantenha a mente aberta. Se não aparecerem, alguém não está pronto ainda. Podem ser elas ou você. Saiba que tem a Rosa, a Estela e a Esmeralda. Suponho que elas chamarão outras quando conhecerem você.
Não vou contar nada mais. Só pedir que cuide delas para que elas cuidem de você.
A.
Professora da UFRGS, dedica parte de seu tempo à precisão das palavras. Os contos são sua forma preferida de expressão escrita.