por Frederico Braga
Agora não, Renato!
Aos oito anos ele entrou correndo em casa pela porta dos fundos, gritando e chamando pela mãe. Eufórico, vinha da escola. Queria contar que tinha passado de ano direto e não precisaria mais retornar, duas semanas antes das férias oficialmente iniciarem.
— Mãe... Mãe... Manhê!
— Shhhhh, Renato — pediu silêncio a mãe, colocando os dedos na frente dos lábios. — O Julinho acabou de dormir. Não faz barulho para o seu irmão.
Renato agora tinha nove anos e um irmãozinho de cinco. Moravam com o pai e a mãe. Renato, estudioso e dedicado. Chegava da escola, lavava as mãos, tirava o uniforme e o pendurava com cuidado no mancebo de madeira para não amassar. Antes do jantar ficar pronto e do pai chegar, as tarefas já estavam feitas. Enquanto isso, Julinho brincava e quebrava as porcelanas da mãe. Aparentemente seria um gênio da pintura.
— Aí, olha que lindo o desenho que o Julinho fez. Vai ser um artista – disse a mãe enquanto brincava com o filho menor numa mesinha colorida no canto da sala.
— Pai, quer jogar bola comigo? – perguntou Renato ao pai, que assistia televisão.
— Agora não, Renato. Estou assistindo o jornal.
Aos dez anos, Renato se separou do irmão. Mas não por muito tempo.
— Não tem jeito. É melhor matricularmos o Julinho em uma escola particular.
— Escola particular para duas crianças? Nem que eu faça hora extra.
— Renato não precisa. É só o Julinho que está com dificuldades.
Já aos 12 anos, Renato se tornou homenzinho. Não sem antes passar em uma provação.
— O Julinho está queimando de febre. Vamos ter que levar ele no pronto-socorro agora.
— Agora? De madrugada? E deixar o Renato sozinho em casa?
— Você prefere sair com duas crianças nesse frio? E ele já é bem crescido e independente. Além disso, vai ficar dormindo.
Renato, de olhos bem abertos e no escuro, puxou para cima as cobertas até cobrirem-lhe o nariz gelado.
Aos 14 anos, Renato já pensava por conta própria e perguntou aos pais:
— Por que eu tenho de fazer as tarefas dele? Eu não quero fazer.
— Renato, o Julinho tem dificuldades em matemática e você é o melhor da turma. Custa ajudar? — perguntou o pai, com olhar severo.
— Custa. Se não ficasse só lá fora brincando de corda e fosse se sentar e estudar, aprenderia. Ele não faz porque tem preguiça. E se eu fizer, nunca vai aprender.
— Vai, sim. Ele só precisa de ajuda agora para passar de ano. Mas ele vai aprender. Só que ele precisa de mais tempo. E você não faz nada. Pode ajudar.
Renato concluiu que estudar era não fazer nada, já que era só o que ele fazia. Tirar a louça e recolher a roupa do varal também eram fazer nada.
Com 15 anos, Renato descobriu que meninos não ganham festa. Mas talvez algum presente não desejado.
— A partir do mês que vem você vai levar o Julinho na escola depois do almoço.
— Quê? — Ele se engasgou com o suco de uva.
— E vai buscar também. Alguns meninos querem bater no seu irmão. Imagina só. Seu pai e eu até estivemos lá falando com as diretoras. Ele tem asma, não pode sair brigando na rua. Se um dia isso acontecer, você separa e protege seu irmão.
Renato se levantou para protestar.
— Agora não, Renato. Está decidido — falou o pai.
Renato concluiu o ensino médio como o primeiro da turma aos 16 anos e meio. O prêmio foi uma caixa de bombons e uma faixa em que se lia "1º da Turma", além do ano. Sorridente e agradecido, foi encontrar a família depois da cerimônia.
— Ué, vô. Cadê o pai e a mãe?
— Seu pai se atrasou no serviço. Não pôde vir. E sua mãe teve que levar o Julinho de volta para casa.
— Por quê? O que houve?
— Porque ele não gosta de ficar em lugar fechado e estava com falta de ar. Não parava quieto, entrando e saindo.
— Ah... tá bom então.
Com 19 anos, Renato encontrou uma namorada de quem realmente gostava e decidiu apresentá-la aos pais.
— Mãe, quero te apresentar a...
— Agora não, Renato. Vou ter que levar seu irmão no dentista. Brigou na escola de novo e dessa vez quebrou os dois dentes da frente. Está sangrando horrores. Na volta a gente conversa, tá?
Renato se formou na faculdade e decidiu se mudar com a namorada. Fizeram tudo isso juntos aos 22 anos.
— Renato, mas vai pra onde? Fazer o quê?
— Vou continuar estudando.
— E precisa ir embora? Por que não fica?
— Ficar por quê? Pra quê? Qual o futuro pra mim aqui? Hein?
— Renato, você nunca falou comigo assim. Que tom é esse?
Quando completou 31 anos, Renato se mudou de país.
— Não sei por que ir para tão longe. E desse jeito. Sem emprego. Sem casa.
— Renato é independente. Ele se vira. Vai se arrumar lá — concluiu o pai.
Aos 36, já de volta, Renato descobre que vai ser pai e no ano seguinte nasce Clarice, sua primogênita. Aos 38, Renato é pai novamente. Dessa vez, a menina se chama Lygia.
— Oi, como estão as meninas?
— Estão bem. Clarice está ficando mais espertinha a cada dia, já caminhando por tudo e Lygia...
— Aí, que saudades. Lembro de quando o Julinho começou a caminhar também e...
— Mãe! Para de chamar ele de Julinho. Já está com quase 35 anos. E ainda mora com vocês. Tá na hora de tomar um rumo na vida.
— Renato, você não perde essa implicância com seu irmão. Deixa ele.
— Não é implicância. É que vocês sempre superprotegeram ele. Deu no que deu.
— Mas Renato, você é independente. Você sempre se virou sozinho. O Julinho precisa de nós porque ele sempre teve a saúde mais frágil. Você sabe que ele tem asma. E não enxerga bem também.
— Mãe, quem não deve estar enxergando bem é você. Doente? Só se for da síndrome de Peter-Pan! Ora, onde já se viu? E outra: eu sou independente ou precisei ser independente?
— Como assim?
— Deixa pra lá. Outra hora a gente conversa pessoalmente. Agora tenho que desligar porque as meninas estão precisando de mim aqui. Tchau.
Sem entender e pensativa, ela concluiu que Renato não gostava de conversar com a família. "Impressionante como é individualista. Só pensa neles! Nem pude contar da animação que Julinho e o pai estão com o novo projeto de DJ. Talvez ele pudesse dar uma força. Ou até investir algum dinheiro na ideia do irmão. Seriam sócios."
Aos 44 anos, Renato recebe uma ligação dos pais:
— Oi, Renato. Já faz dois natais que vocês não aparecem. Precisamos falar com você sobre seu irmão.
— Agora não, mãe.
E desligou.
Frederico é escritor, leitor e advogado. Nem sempre nessa ordem. Começou a ler ainda muito pequeno, gibis da Turma da Mônica e Disney. O hábito da leitura sempre fez parte da sua vida e até hoje, não importa onde esteja, sempre que está à mesa, gosta de ler os rótulos daquilo que está consumindo. Acredita que todo livro é uma viagem e que toda viagem, se bem contada, vira literatura. Por isso criou o projeto chamado "Quem lê, viaja!", um espaço em que se lê para entender o mundo, não apenas cumprir meta. Nele você encontra crônicas, contos, análises literárias e conversas honestas sobre escrita. Sem academicismo. Sem ranking. Sem leitura de perfomace. Apenas a experiência de quem lê. E escreve. E, é claro, as viagens não precisam ser literais. Podem ser na maionese mesmo.