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Água Salobra

Água Salobra

por Lucas Ribeiro Arruda

A mulher está nas escápulas. As de Gabriela voavam. A areia da praia queimava, formando seu limite entre a água e o continente. Estava a vendo sentada na canga, virada para a água, enquanto tirava a camisa branca, e eu atrás dela. Deitado mais abaixo, via em suas costas o destino dos pássaros, a força de um grande tronco de árvore e uma inscrição de nervos e musculatura, como em uma língua que nunca existiu.

Já tinha tocado minha mão nas escápulas dela uma primeira vez. Havia sido no sofá de sua casa, naquele mesmo ano. Em plena pandemia, havíamos tido nosso primeiro encontro na própria casa dela.

Te disse que sentia falta de contato na pandemia. O ensejo que usei para que eu pudesse te abraçar. Minhas mãos trairiam o que eu tinha planejado. Em vez de um abraço de flerte, enquanto sentia o tato de suas costelas nas costas e por fim de suas escápulas, pensava: mulher. 

Já na praia, estávamos bem onde o rio cai no mar. E as ondas do mar voltavam contra o rio.

O rio que desaguava no mar cortava a praia em dois, formando como que dois ombros de areia. E durante o ano, se você observasse poderia até ver as pequenas mudanças na direção do rio. Como seu capricho nos últimos momentos que tinha, antes de se dissolver no mar. Tinha épocas do ano que desagua mais para um lado, épocas que ia mais pelo outro lado. Assim como nas costas de Gabriela, as escápulas podiam desenhar todo um ritmo orgânico de suas costas e corpo. 

"Você sabe o que é água salobra?"

Ela sequer respondeu, virou a cara. Deitou-se na canga amarela com desenho de um grande sol. Ela se mostrava dormindo depois de alguns instantes. Será que estava dormindo mesmo? Ou será que seria como quando ela havia dito que ficava no sofá de sua sala por horas sem fazer nada, apenas olhando para frente? E seu irmão, que passara tantas vezes por ela e não acreditara como ela poderia ficar tanto tempo simplesmente sem fazer nada, horas a fio? 

Gabriela virou de lado na canga novamente. Olhei de novo suas escápulas. Mulher. Pisei no rio que desaguava no mar e a água deu no meu joelho.

"Vem, entra aqui comigo"

"Não, está muito raso"

Quando voltei, pude contemplar um pouco mais a praia. Fora da temporada algumas pessoas vagavam com algum objetivo de descanso. Poucas garças ensaiavam algo no ar. A água que estava na minha pele era aquela, que não era nem doce nem salgada, água salobra. Falei para ela da garça ao longe. Falei do pai com a criança, e que eles andavam lado a lado fazendo exatamente o mesmo trejeito com o corpo. Falei de uma silhueta engraçada, de uma pessoa da outra ponta da praia. 

"Para de falar essas coisas. Você e essas criancices" 

O mar respirava o silêncio naquela hora. A água não era fria nem quente. O vento crispava as ondas que iam na contramão da direção do rio. Como que querendo do mar subir para a origem da água. 

Tentei beijar sua boca abrindo bastante, com a língua. Mas no pequeno desencontro ela foi me dar um selinho. Depois abriu a boca um pouco. Demos um beijo salobro, nossas salivas não eram nem salgadas, nem doces. Era um beijo louco. Louco pela palavra. Louco pelo significado. 

Nós dois éramos cultivadores do silêncio, essa espécie de costas das palavras. E nas escápulas dos ensaios, pensávamos no que falar um para o outro. E as marolas tentavam seguir rio acima, como uma palavra que desistiu de ser falada e tenta voltar ao silêncio que a originou. 

Tirei uma foto dela na canga deitada, e ela se fez toda em seu corpo de frente. A foto saiu toda dourada. Depois entrei de fato na água, deixei o movimento do vem e vai me levar, pensei que poderia ficar horas lá. Me lembrei novamente do nosso primeiro encontro, do abraço em que descobrira suas escápulas.

Ela, mulher. Eu... poesia?

Lucas Ribeiro Arruda

Psicólogo de formação (PUCSP), escreve desde os tempos de colégio, entre poemas, ensaios e prosa fragmentária. Atuou por quase uma década como psicoterapeuta, transitando da fenomenologia à psicanálise, formação que completou no Instituto Sedes Sapientiae. Em 2024 deixou a clínica e se mudou para a Serra da Mantiqueira, onde hoje vive em São Bento do Sapucaí e trabalha em uma fazenda de azeites. Atualmente cursa formação de escritores na Metamorfose.