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Aleive

Aleive

por Ildeu Geraldo de Araújo

ALEIVE

 

Padre Miligido, como o povo simples de Santana do Farofa o chamava, foi vigário da igreja local por 50 anos. Após o Concílio, o bispo achou que estava na hora de renovar. Concedeu ao velho sacerdote o título de Monsenhor e colocou em seu lugar o jovem Padre Cosme.

Monsenhor Miligido se retirou para a fazenda de sua família na Zona da Mata. Houve grande tristeza na pequena cidade.  As velhas beatas, de terço nas mãos, choraram sentidamente na sua despedida. — Ninguém vai substituir o Monsiô Miligido! Ele é um santo.

Padre Cosme chegou ao Farofa no dia primeiro de agosto de 1968, uma semana antes da partida do seu antecessor, para a transmissão do cargo e receber as informações mais relevantes sobre a paróquia. Era um homem alto, muito claro, de cabelos meio avermelhados e olhos verdes. Contrastava com o tipo moreno e a estatura mediana dos homens do lugar. Era um homem bonito e agradou, de imediato, às jovens, deixando os homens de sobreaviso.

O primeiro impacto ocorreu na tarde do sábado seguinte à sua posse. Às três e meia os sinos tocaram, convidando os fiéis para a missa, como se fosse domingo.

Curiosos, os fiéis acorreram à igreja. Uma surpresa: tinham sumido as imagens do Sagrado Coração de Jesus, Imaculado Coração de Maria, São José, Mártir São Sebastião, Nossa Senhora das Graças e de São Joaquim. Apenas a imagem de Santana continuava no seu nicho, no altar- mor.

Outra mudança: tinha sido colocada uma grande mesa coberta por uma toalha branca em frente ao altar- mor.

Às quatro horas Padre Cosme entrou com dois coroinhas e se postou, de pé, atrás da mesa, de costas para o altar. As pessoas esperavam que ele dissesse: "In nomine Patris et Filii et Spiritu Sancti. Introibo ad altare Dei", estupefatas, o ouviram dizer: "Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco.

Os fiéis estavam inquietos. Os tímidos protestos iniciais se transformaram num vozerio ensurdecedor. Com muito custo o celebrante conteve o povo.

Foi assim que o Concílio Ecumênico Vaticano Segundo chegou a Santana do Farofa.

Após o impacto da primeira missa, Padre Cosme iniciou um programa de catequese de seus paroquianos sobre as alterações feitas pelo Concílio, mostrando que seu objetivo era um "aggiornamento", um ajustamento da Igreja aos tempos modernos, para que ela ficasse cada vez mais próxima daquilo que Jesus sonhou: o Reino de Deus.

***

O povo ficou muito insatisfeito com a retirada das imagens. Os devotos estavam acostumados a se aproximar do santo de sua devoção e fazer seus pedidos, agradecimentos, promessas ou simplesmente rezar. — E aquela missa, rezada na língua comum da gente, será que vale? E o comentador, pra que aquilo? A sua falação atrapalhava a gente a rezar o terço, como se devia fazer durante a missa.

Juca da Sá Bela, que havia estudado uns tempos no seminário de Mariana e se tornara o comentador, explicava: — É pra todos compreenderem o que está sendo rezado em vez de ficar ouvindo, feito bobo, sem entender nada.

Dona Zulmira, a diretora da escola, acostumada a acompanhar a celebração pelo missal, que trazia os textos em latim e em português, ficou entusiasmada com a missa no vernáculo. Convidou o padre Cosme para a reunião das professoras onde ele fez uma exposição sobre o Concílio Ecumênico Vaticano Segundo. Irene, uma das professoras, sugeriu que dona Zulmira tirasse uma foto, registrando o evento.

— Com sua Rolleiflex, dona Zulmira, a foto vai ficar linda!

— Que máquina bonita, D. Zulmira!

— Está às ordens, padre Cosme.

Ela tirou uma foto do padre com as mestras e prometeu que lhe daria uma cópia assim que o filme fosse revelado. Parabenizou o padre pela implantação da missa em vernáculo.

— Agora o povo entende o que está sendo dito.  Não sei se será capaz de entender a mensagem do Evangelho, mas já é alguma coisa.

— A mensagem, o padre Cosme explicam lindamente em seus sermões. — retrucou Irene, com arroubo.

***

Antônio Máximo, o prefeito, mandou Juca da Sá Bela, seu secretário, convidar Padre Cosme para almoçar na sua fazenda, cuja sede ficava a meia légua da cidade, na encosta da Serra do Gentio. Padre Cosme recusou o convite, alegando que tinha uma reunião com as catequistas, mas prometendo visitar o prefeito na segunda-feira, no seu gabinete.

O prefeito recebeu o vigário com muita gentileza, louvou suas iniciativas inovadoras e o preveniu da oposição cerrada que enfrentaria por parte da maioria dos moradores. — Santana é muito conservadora, seu vigário, aqui a UDN e agora a ARENA sempre mandaram, — São decisões do Concilio, senhor prefeito, a autoridade máxima da Igreja —. Depois de uma hora de conversa muito amistosa, Antônio Máximo insinuou a necessidade de se fazer uma reforma completa na matriz de Santana. — Precisamos de uma reforma das mentes e dos espíritos, senhor prefeito — disse o padre ao se despedir.

Juca da Sá Bela, que havia assistido ao fim da reunião entre o prefeito e o vigário, acompanhou o padre até a casa paroquial que ficava no largo da igreja, do lado oposto à prefeitura. — Ano que vem tem eleição e o prefeito quer eleger um primo dele, o Quirino. Uma obra bem visível ajuda a angariar votos, o senhor não acha? — Sem dar atenção às insinuações de Juca, padre Cosme respondeu: — A orientação do Concílio e por uma reforma das mentes e dos corações, Juca. Uma reforma do jeito de ser Igreja. É ver Jesus como um pastor e não como um rei. Imitando Jesus, o padre deve ser um pastor que guia seu rebanho para o Reino de Deus —. Juca se despediu, impressionado com o que ouvira.

***

As Filhas de Maria acolheram o jovem padre com entusiasmo. Era, para aquelas jovens, impossível ficarem indiferentes na presença daquele homem, na exuberância de seus 35 anos. Um homem proibido exercia um fascínio irresistível sobre elas. Ao sentir aquele clima de excitação, o homem Cosme enrubesceu intensamente, o que não passou despercebido à Clotilde, presidente da Pia União, que tirou o Louvando a Maria. Um coro de belas vozes a acompanhou. Recomposto, o Padre Cosme apresentou sua nova orientação às jovens, convidando-as a estudarem os Evangelhos para melhor seguirem a Jesus de Nazaré. — Nós seguimos Maria, Padre Cosme. — disse Clotilde. — Sim, minha filha, Maria foi a primeira discípula de Jesus, há de querer que suas filhas sigam seu Filho.

***

Padre Cosme estava andando pelo quintal da casa paroquial. Junto à cerca dos fundos, estava um senhor com um sorriso simpático.

— O senhor aceita umas bananas, seu vigário? Estão quase maduras.

— Obrigado, eu adoro banana. São bananas-maçãs, as minhas prediletas. Como o senhor se chama?

— Nicanor, seu criado.  Sou o chefe do terreiro de umbanda do Farofa. Eu me dava muito bem com o padre Miligido. Espero me dar bem com o senhor.

— Já começamos bem, senhor Nicanor. Seu presente é muito apreciado. Afinal, nós somos meio colegas. Cuidamos das pessoas e de suas almas.

E assim começou a amizade entre o padre e o pai de santo de Santana do Farofa.

***

O novo vigário solicitou uma reunião com o Conselho dos Vicentinos. Seu presidente, seu Júlio Pacheco fez um relatório das atividades das conferências.

— Vocês recebem alguma ajuda da Cáritas, seu Júlio?

— Não, Padre Cosme, nós não precisamos dessa ajuda. Atendemos nossos socorridos com os recursos que cada confrade pode dar.

— Que bom que os confrades sejam generosos, mas vocês poderiam aumentar a ajuda aos nossos irmãos empobrecidos se recorressem à Cáritas.

— Nós seguimos o regulamento vicentino, seu padre, e ele não fala na Cáritas.

— O regulamento é muito antigo, não existia a Cáritas naquela época. Talvez precise de uma reforma. Pensem no assunto.

Mais um foco de resistência, pensou o vigário.

***

Quincas estava esperando padre Cosme na casa paroquial.

— Vou ser mandado embora, Seu Vigário? Tenho família para sustentar!

— De onde você tirou essa ideia, Quincas!

— Tem dez dias que o senhor chegou, já conversou com todo mundo e ainda não teve tempo pra falar comigo que sou o seu sacristão. Sempre fui o braço direito do Padre, quer dizer, do Monsenhor Miligido.

— Vamos pra cozinha, Quincas, estou morrendo de fome. Você almoça comigo?

Quincas ficou surpreso, em seus vinte anos de sacristão nunca havia sido convidado pelo antigo vigário nem para um café. Aceitou o convite e aproveitou a ocasião para contar o que o povo estava dizendo do novo vigário.

— E você, o que acha?

— Se eu pudesse lhe dar um conselho, diria para ir mais devagar. O povo precisa de tempo para se acostumar.

— Sim, Quincas, vou pensar. As mudanças foram decididas pelo Concílio e devem ser implantadas. Mas quero saber de você, do seu coração, do seu sentimento.

— Sinto falta do latim, padre. A cerimônia fica tão bonita! Acho que para louvar a Deus é preciso de mais solenidade, mais respeito pelo mistério.

— Mas Deus não é um rei todo poderoso e distante, Jesus disse que Ele é um pai amoroso.

— Sempre chamei meu pai de senhor. Sempre tomei a benção e beijei sua mão.

— Entendo, Quincas. Acho que vamos ser bons amigos.  Você é casado?

— Sou noivo, seu padre. Ainda não animei a casar.

— Por que, homem? Viver sozinho é muito triste.

— Mas o senhor é solteiro!

— Por escolha, Quincas, para melhor servir o povo de Deus. Traz sua noiva pra eu conhecer. Como ela se chama?

— Conceição. Ela trabalha na fazenda do prefeito. Um dia eu trago ela aqui.

O sacristão se preparava para sair.

— Quincas, você sabe a origem da imagem de Santana?

— Não, seu vigário, quando eu nasci, ela já estava no altar-mor.

Quincas saiu intrigado com a pergunta do padre Cosme.  Ele sempre achou a imagem muito bonita, mas nunca lhe passou pela cabeça perguntar de onde ela teria vindo.

***

Toda tarde, antes de ir para casa, Quincas passava na venda do Luizinho para tomar uma pinga. Encontrava invariavelmente o Juca da Sá Bela saboreando uma cerveja.

— Quais são as novas, Quincas? O que o reverendo está aprontando agora?

— Você sabe qual a origem da imagem da padroeira?

— Sei não, Quincas, mas por que você quer saber?

— Padre Cosme me perguntou e eu não soube responder.

— Fica de olho, Quincas, o reverendo ainda vai aprontar. Ele comentou com você sobre a reforma?

— Que reforma, Juca?

— Reforma da religião, Quincas. Ele me disse que o padre deve ser um pastor.

— Não conversamos sobre isso.

Júlio Pacheco estava ouvindo a conversa. Chegando em casa, perguntou para Irene, sua filha:

— Que é reforma da religião?

— É o movimento liderado por Lutero de onde nasceu o protestantismo. — respondeu a professora — O Enoque, noivo da Lia é protestante. Uma vez eu fui com os dois na igreja deles, na capital.

— E como é essa igreja, Irene? É igual à nossa?

— Bem diferente, não tem imagem de santo, não tem altar, não tem missa, não tem padre com as vestes litúrgicas. Só tem o pastor, um homem comum, com roupa comum de homem, que lê e faz pregação sobre a Bíblia. Depois todo mundo canta a várias vozes. Muito bonito.

— Credo! Acho errado você ir a essa igreja.

— Papai, eu estava com eles, não podia fazer desfeita!

***

Dona Zulmira chegou à igreja perguntando pelo vigário. Quincas foi chamá-lo na casa paroquial.

— Boa tarde dona Zulmira. Quincas, você podia dar uma mão? Pega uma escada no depósito, vamos fotografar o acervo da paróquia para termos um registro dos bens quando eu cheguei aqui. Vamos começar com a imagem de Santana.

O sacristão retirou a imagem de seu nicho, colocou-a sobre a mesa e dona Zulmira fotografou-a de todos os ângulos, com sua Rolleiflex. Orientada pelo padre Cosme, ela fotografou as imagens que tinham sido guardadas na sacristia, os paramentos, os cálices, as âmbulas, os cibórios, a custódia, os turíbulos e demais alfaias.

— Quando as fotografias ficarão prontas, dona Zulmira?

— Daqui a quinze dias terei que ir à Capital e mando revelar e ampliar as fotos.

— A senhora poderia mandar ampliar duas cópias e escolher um álbum bem bonito para que fiquem bem guardadas.  Tem ideia do custo?

— Pode deixar, eu pago e depois acertamos.

Quincas comentou com o Juca da Sá Bela.

— Aí tem coisa, Quincas!

***

Vicente Rocha apareceu um dia na hora do almoço.

— E aí, reverendo, tem almoço pra mais um?

— Vicente! Está perdido por aqui?

Vicente e Cosme foram colegas no seminário de Diamantina.

— Quer dizer que o Sigaud te expulsou também? Andou se engraçando com uma filha de Maria, Cosme? Elas viviam atrás de você.

— Não! Fiz pior, celebrei uma missa em português na catedral.

— E não foi excomungado? Ele pegou leve com você.

— E você, Vicente, o que anda fazendo?

— Sou seu paroquiano, tenho um sítio na Vargem Grande e acabamos de formar uma cooperativa de horticultores.

— Estou precisando visitar as comunidades da minha paróquia.

— Meu jipe está aí fora, te levo. Acho que um dia sem dormir a sesta não vai te matar.

— Ótimo, mas antes quero lhe mostrar uma coisa.

Foram até à igreja. Vicente se ajoelhou e rezou por um momento.

— Faz tanto tempo que não entro numa igreja! — Seus olhos estavam molhados.

Padre Cosme colocou o braço em volta de seus ombros.

— Olha a imagem de Santana.

— Cosme! É uma obra de Aleijadinho! Que linda!

— Tirei umas fotos, vou mandar a um especialista. Pode ser uma imitação.

Quando os dois amigos saíram, Quincas desceu do coro e foi se encontrar com Juca da Sá Bela.

— Não te falei que tinha coisa! O prefeito precisa saber disso.

— Cuidado, Juca, não vai complicar minha vida!

***

Padre Cosme voltou entusiasmado de Vargem Grande. O contato com o povo humilde da roça reacendeu seu ardor apostólico.  Prometeu que celebraria naquela comunidade todos os sábados.

— Você conhece todas as comunidades da paróquia, Quincas?

— Além da Vargem Grande tem o Funil, o Açoita Cavalo e a Vila Rica.

— Tem capela nestes lugares?

— Não, seu Vigário, no Açoita Cavalo tem a escolinha velha, onde monsenhor Miligido celebrava uma vez por ano, na festa da Imaculada.

— Como é que o Monsenhor ia a esses lugares?

— A cavalo. O Monsenhor vendeu os animais um pouco antes de o senhor chegar. O senhor vai precisar comprar um jipe.

— Com que dinheiro, Quincas?

— Uai! Com o dinheiro da venda do sítio.

— E onde está este dinheiro?

O Quincas fez uma cara de espanto e não disse mais nada. Padre Cosme entendeu e nada mais perguntou. Ele havia recebido 10 mil cruzeiros novos do antigo vigário.

Depois de fechar a igreja, Quincas levantou o tampo do altar-mor e olhou o espaço dentro do altar, o oco do altar, um esconderijo perfeito onde Monsenhor Miligido guardava o dinheiro da paróquia. Somente ele e o Monsenhor conheciam aquele lugar secreto. O oco estava vazio. O antigo vigário tinha levado as reservas e o dinheiro da venda dos animais e do sítio. Quincas não revelou isso a ninguém.

***

Dona Zulmira pediu à Irene para entregar um envelope ao vigário. A professora fez a entrega e ficou parada na varanda da casa paroquial.

— Obrigado, Irene, agradeça à diretora.

Irene hesitou, sorriu e saiu. Andou alguns passos e olhou para trás. A porta tinha sido fechada.

À tardinha, Padre Cosme foi à venda do Luizinho comprar fósforos.

— Toma uma cerveja comigo, seu vigário?

— Obrigado, Juca, daqui a pouco tem benção do Santíssimo...

— Padre Cosme, que bom encontrá-lo. — Irene entrou na venda, seguida por cinco professoras, suas colegas.

— Precisamos conversar sobre o Natal e a apresentação das pastorinhas.

— Vamos conversar, então.

As pastorinhas acompanharam o padre e Luizinho ficou olhando da porta da venda.

— Que vergonha, elas só faltam comê-lo com os olhos.

— Inveja é pecado, Luizinho.

O comerciante não era um homem feio. Cabelos negros, muito lisos, sobrancelhas grossas, uma barba fechada, que quando bem escanhoada deixava uma sombra azulada em seu queixo. Entretanto, não era páreo para o padre se este estivesse disposto a disputar o coração das donzelas farofenses.

Luizinho era o melhor partido da cidade. Namorou todas as moças até se fixar em Irene. Noivos há oito anos, ele sempre dizia que quando os negócios melhorassem, eles se casariam.

Mais tarde, Irene passou na venda. Estava eufórica.

— Hoje finalmente pude conversar demoradamente com o padre Cosme. Que pessoa maravilhosa. Não sei como um homem daqueles resolve ser padre. É um desperdício.

— Desperdício é eu ser noivo de uma bruaca como você!

— Bruaca! E você? É um capadócio, parlapatão, energúmeno.

Irene saiu intempestiva deixando Luizinho de boca aberta sem entender o significado daqueles adjetivos.

***

Na matriz eram celebradas três missas aos domingos: às sete, às nove e às onze horas. Padre Cosme introduziu a missa aos sábados às dezesseis horas. Para ter condições de atender às outras comunidades, ele decidiu mudar os horários de domingo para oito e dezenove horas.

No sábado, Vicente veio buscá-lo para a prometida celebração da missa na Vargem Grande e se prontificou a levar as fotos da padroeira para serem analisadas pelo professor Cristóvão, um especialista em barroco mineiro.

O pessoal da comunidade ficou muito feliz com a missa celebrada no galpão da cooperativa. A coleta feita durante a missa rendeu 11 cruzeiros novos, mas padre Cosme ganhou duas sacolas cheias de verduras, mandioca, feijão, arroz, duas dúzias de ovos e dois frangos.

Quirino chegou à casa paroquial com uma garrafa da Pinga do Farofa, a famosa cachaça que ele fabricava.

— Há muitos dias queria lhe visitar, seu vigário, mas estamos em plena safra e eu gosto de acompanhar pessoalmente a destilação da minha cachaça. Espero que o senhor goste de uma boa pinga.

— Obrigado, Quirino. Aprecio uma boa bebida, com moderação, é claro.

— Já se acostumou com sua paróquia, padre Cosme? Está gostando?

— Ainda conheço pouco, a falta de uma condução tem me atrapalhado.

— Posso lhe emprestar um cavalo. Monsenhor Miligido rodava por todo lado na sua besta ruana.

— Não sei andar a cavalo.  Vou tentar arrumar dinheiro para comprar um jipe.

— Os cofres estão vazios, padre?  Parecia que as finanças da paróquia iam bem. Nos finais de semana posso lhe emprestar um jipe.

— Agradeço. Se precisar eu lhe aviso.

Padre Cosme estava numa situação embaraçosa. Tudo indicava que seu antecessor tinha garantido sua aposentadoria com o dinheiro da Igreja. Ele não condenava o monsenhor e nem o exporia diante dos fiéis que o estimavam tanto. Afinal ele trabalhara mais de cinquenta anos servindo o povo de Deus. Lembrou-se de Deuteronômio, capítulo 25, versículo 4: "Não amordaçarás o boi enquanto ele debulha o trigo." No entanto, ele poderia ser responsabilizado pelo desaparecimento do dinheiro da paróquia.  

Antes de se despedir, Quirino abordou o assunto principal de sua visita:

— Ano que vem tem eleição e estou pensando em me candidatar a prefeito. Gostaria de ter o seu apoio.

— A Igreja nos proíbe de participar da política partidária, Quirino, mas lhe desejo boa sorte e que, se eleito, faça um governo pensando nos pobres do município.

No dia seguinte, no bate papo na venda do Luizinho, Juca da Sá Bela perguntou:

— A igreja está sem dinheiro, Quincas? O reverendo limpou os cofres, ou foi o Monsenhor, ou foi você?

— Vira essa boca, Juca, não fala isso nem de brincadeira! Sei de nada não!

***

Vicente apareceu numa noite para uma partida de xadrez que os dois costumavam jogar no seminário. Padre Cosme fez uma caipirinha com a pinga do Quirino. Foram se lembrando dos velhos tempos.

— Tempos bons, Vicente, estávamos entusiasmados com as reformas de base, a construção de um Brasil mais igualitário. E agora estamos debaixo dessa ditadura que parece não ter fim.

— Mas está havendo reação. Os assaltos a bancos continuam. Parece que tem um grupo de frades dominicanos que estão se engajando na luta.

— Luta armada, Vicente, acho que nós da Igreja não devíamos entrar nessa. O trabalho de conscientização que você está fazendo é mais promissor.

— Parece que você está noutra. Sua luta é a reforma da Igreja.

— O aggiornamento da Santa Madre é que me mobiliza. Levar o Evangelho a todas as criaturas.

— Pelo menos o Concílio cumpriu o prometido.

— Você tem razão, o velho Ângelo Roncalli abriu as janelas e uma ventania varreu a poeira da Igreja. Estou preocupado, não consegui visitar as comunidades por falta de condução. Como levar o evangelho a elas.

— Posso te levar.

Passaram a visitar as comunidades aos sábados e domingos e o jipe sempre voltava carregado de queijos, galinhas, ovos, verduras, mel, frutas, doces e outros artigos que eram produzidos pelo povo. Na segunda-feira o vigário fazia uma feirinha na praça da igreja e ia juntando um dinheirinho.

Vicente, o chofer do padre, foi conquistando a amizade daquela gente humilde.  Alguém sugeriu um dia:

— Ô Vicente, você poderia ser o nosso prefeito.

Na volta para casa os dois amigos discutiram a ideia e ela foi ganhando força.

O alarme soou na prefeitura. Quirino procurou seu primo Antônio Máximo.

— O vigário está fazendo campanha para um candidato da oposição.

Juca da Sá Bela comentou com Quincas que o Antônio Máximo estava furioso com o apoio do vigário ao Vicente, que estava crescendo como possível candidato a prefeito.

O sacristão e o padre tomavam juntos o café da manhã todos os dias e aproveitavam a ocasião para planejar suas atividades.

— Padre Cosme, sua amizade com o Vicente pode incomodar o prefeito e o Quirino. Eles podem achar que o senhor está fazendo campanha pro seu amigo.

— Quincas, você tem ido com a gente nas comunidades, alguma vez eu falei de política? Como posso atender os paroquianos sem a condução que o Vicente me fornece?

— Falo isso pro seu bem, padre Cosme. O senhor poderia comprar um cavalo e pedir ao Zé Coelho para fazer uma charrete.  Aí continuaria seu trabalho sem se indispor com ninguém.

— Quincas, meu amigo, você me deu uma ótima ideia. Deus lhe pague.

O povo da roça continuou tendo assistência religiosa frequente. Foram aparecendo os grupos de catequese e os círculos bíblicos.  O padre visitava os doentes em suas casas e levava a comunhão.

Vicente continuou a visitar as comunidades, orientando o pessoal na criação de cooperativas e na comercialização dos produtos. Os dois amigos agiam em conjunto, mas nunca apareciam juntos, para evitar a acusação de participação política partidária da Igreja.

O MDB fez sua convenção e decidiu lançar a candidatura de Vicente Rocha a prefeito de Santana do Farofa.

***

 Numa manhã, chegou à casa paroquial o professor Cristóvão, para ver pessoalmente a imagem de Santana. Era uma segunda-feira, dia em que a igreja permanecia fechada para limpeza. O vigário pediu a Quincas que fosse ao Açoita Cavalo levar a comunhão para uma senhora doente, dispensou a zeladora encarregada da limpeza. O padre mostrou a imagem ao especialista, com o sigilo recomendado para não provocar alvoroço. Após examiná-la longa e cuidadosamente, ele afirmou, emocionado:

— Não há dúvida, é uma obra do Aleijadinho.  Andei pesquisando as imagens de Santana Mestra feitas por ele e consta que uma destas obras desapareceu num incêndio na Capela Nossa Senhora da Boa Morte, anexa ao Seminário Menor de Mariana no ano de 1890. Pode ser esta imagem que está na nossa frente. Ela vale uma fortuna, mas seu valor histórico não tem preço. No IPHAN não existe registro desta imagem, o que a torna muito atraente para os colecionadores.

Padre Cosme estava eufórico.

— Mas que tesouro, professor! Temos que registrá-la no IPHAN imediatamente.

— Posso cuidar disto, se o senhor me autorizar.

— Vou conversar com o Bispo e lhe comunico. Muito obrigado pelo seu valioso trabalho.

— Cuidado, padre, todo sigilo é pouco.

Na terça-feira à noite, Padre Cosme estava conversando com Quincas, quando Vicente apareceu para jogar xadrez. O sacristão se se despediu, abriu e fechou ruidosamente o portão que dava para a rua, mas não saiu. Ocultou-se atrás de um pé de manacá que ficava em frente à sala de visita da casa paroquial, de onde podia ouvir a conversa animada entre os dois amigos.

Num dado momento, padre Cosme baixou a voz e Quincas apurou os ouvidos. Ouviu alguns fragmentos da conversa: "... professor Cristóvão... Santana... autêntica obra... registrar no Ivan..." Ouviu ainda Vicente exclamar: "Você tem um tesouro..." Quincas ouvira o bastante. Saiu com cuidado para não fazer barulho ao fechar o portão e foi direto para a venda do Luizinho, onde Juca da Sá Bela tomava sua habitual cerveja.

Na quarta-feira, Quincas pediu licença ao padre Cosme para ir a Pará de Minas visitar a mãe que estava doente. O sacristão disse que viajaria cedinho.

No dia seguinte, quinta-feira, Quincas passou na venda do Luizinho, tomou um café com pão e na saída disse em voz alta:

— Até sábado, pessoal. Alguém quer alguma coisa de Pará de Minas?

— Boa viagem, Quincas.

***

Na sexta-feira, padre Cosme leu seu breviário, tomou o café da manhã e foi abrir a igreja, já que seu sacristão estava viajando. Ajoelhou-se em seu genuflexório para uma breve oração, buscou com os olhos a imagem de Santana.

— Meu Deus do céu, roubaram a santa!

Teve a presença de espírito de sair e trancar a igreja antes que os fiéis começassem a chegar para a missa, que nos dias de semana era celebrada às sete horas da manhã. Correu até a casa paroquial e telefonou para a polícia.

A polícia examinou cuidadosamente toda a igreja, por dentro e por fora. Não havia nenhum sinal de arrombamento. Com autorização do padre, vasculhou a casa paroquial. O vigário em seu depoimento relatou que somente ele e Quincas, o sacristão, tinham as chaves da igreja. Disse também que o sacristão estava viajando. Relatou que na noite anterior, depois da benção do Santíssimo Sacramento, fizera uma pequena oração à padroeira e a imagem estava lá.  Há poucos dias descobrira que a imagem da santa era uma obra do Aleijadinho. Estava esperando a festa da padroeira, dali a um mês, para dar à comunidade a auspiciosa notícia, pois antes tinha que registrar a escultura no IPHAN.

O delegado decidiu interditar a igreja e todas as suas dependências até a vinda da polícia especializada da capital. O delegado pediu ao padre que não se ausentasse da cidade.

— Sou suspeito, delegado?

— É só uma cautela, padre Cosme.

Clotilde ia, diariamente, à missa de manhã. Foi impedida de entrar na igreja por um policial.

— A igreja está interditada.

— Por quê?

— O delegado não disse.

Clotilde, intrigada, ficou por ali. Um soldado saiu da igreja e começou a conversar com seu colega. Ela ouviu uma parte da conversa dos dois e foi para casa, passando pela venda do Luizinho para comprar uma dúzia de ovos.

— Sabia que a igreja está interditada pela polícia, Luizinho?

— Me falaram que um ladrão entrou lá.

— Pois eu ouvi dizer que não tinha porta nem janela arrombada. Quem entrou tinha a chave.

— Aí tem coisa, Clotilde.

Enquanto isso, o delegado saiu com seus auxiliares, deixando dois praças de sentinela na porta da igreja.

Padre Cosme preparou sua charrete e foi para Açoita Cavalo visitar uma pessoa doente. Ficou por lá a maior parte do dia.

Os desocupados da cidade foram para o Largo da Matriz, formando pequenos grupos que especulavam sobre o assunto. Surgiram várias versões. Como não havia nenhum sinal externo de arrombamento, diziam que o ladrão teria entrado pelo telhado da sacristia, que era baixo, e roubado um cálice de ouro maciço. Outros diziam que só podia ser o Quincas. Rebatiam que o sacristão estava viajando. Ninguém tinha coragem de apresentar uma suspeita sobre o vigário.

Estava escurecendo, caiu uma tempestade sobre a cidade e os curiosos se dispersaram. Padre Cosme chegou encharcado, mas pode entrar em casa sem ser importunado.

No sábado, perto do meio-dia, enquanto se preparava para ir à Vargem Grande, ouviu o vidro da janela da sala sendo quebrado. Foi até à varanda e recebeu uma pedrada no rosto. Uma multidão enfurecida estava diante da casa paroquial.

— Ladrão! Ladrão! Devolva a santa! Ladrão...

Ergueu os braços, pedindo calma. Outra pedra lhe atingiu a testa. Entrou em casa e trancou a porta. O vozerio continuava. Uma chuva de pedras caia sobre o telhado.

Ligou para a polícia, ninguém atendeu. Ouviu o portão do jardim ser forçado. A casa não resistiria por muito tempo. Se refugiou no quintal, para ficar mais distante da turba enfurecida. Nicanor estava chamando por ele junto à cerca dos fundos.  Ajudou-o a atravessar para o outro lado e o acolheu no terreiro de umbanda. O pai de santo fez um curativo no rosto do seu hóspede e o levou para Vargem Grande.

Irene entrou, quase sem fôlego, na casa de D. Zulmira.

— Quase mataram o padre Cosme! Ele escapou por pouco.

— Os ratos quase sempre escapam. — sentenciou a grande educadora.

— Ainda bem que eu não participei dessa loucura.

— Não? Estou sabendo que a venda do seu noivo é o centro das fofocas que levaram ao ataque à casa paroquial.

— Não tenho nada com isso! Desmanchei o noivado com aquele biltre.

— E quem andou provocando ciúmes naquele biltre?

Juca da Sá Bela esperava Quincas na rodoviária e o escondeu na fazenda do Antônio Máximo.

— Deu tudo certo, mas é melhor que você não apareça nos próximos dias. Vamos deixar as coisas esfriarem. A cidade está em polvorosa. O povo invadiu a casa paroquial e praticamente a destruiu.

— E o padre Cosme, machucaram ele?

— É um pouco tarde para você se preocupar com seu patrão!

— Matar o padre não estava nos planos. Ai, meu Deus, o que eu fui fazer!

— Deixe de bancar o inocente. Essas coisas, quando começam, a gente não sabe onde vai parar. Não vai fazer besteira e dar com a língua nos dentes. Fique tranquilo, o safado conseguiu escapar.

— Graças a Deus!

***

Juca da Sá Bela estava encantado com os resultados da trama que ajudara a planejar. Foi rememorando:

No domingo anterior, assim que soube da candidatura de Vicente, o prefeito se reuniu com Quirino, seu candidato pela ARENA, e com ele. Quirino argumentou que a melhor forma de minar a oposição era atingirem o padre Cosme, cuja amizade com Vicente era do conhecimento de todos.

Na terça-feira, ao saber por Quincas que a imagem da padroeira era uma obra do Aleijadinho, ele viu que retirar a santa e acusar o padre de a haver furtado era a melhor forma de difamá-lo perante a opinião pública.

— Quincas, o vigário vai vender a santa, ele está louco para arrumar dinheiro para comprar um jipe. Precisamos sumir com ela. Onde você a esconderia?

— No oco do altar-mor, onde monsenhor Miligido escondia o dinheiro da igreja.

— Que oco é esse, Quincas?

— O espaço que fica dentro do altar. É só levantar a tampa que ele aparece. E ninguém sabe da existência do oco, só o Monsenhor, eu e agora você.

— Quem tem as chaves da igreja?

— Somente o padre e eu.

— Se a imagem desaparecer sem que haja um arrombamento da igreja e você estiver viajando, o padre será acusado.

— Falso testemunho contra o padre me deixa apavorado, Juca.

— Pior, Quincas, é deixar ele vender a imagem da santa. É sua obrigação defender Santana!

— Você tem razão, Juca, pode contar comigo.

Então, Quincas viajou, deixando a sua cópia das chaves com Juca da Sá Bela. À noite, ele retirou a santa do seu nicho e a escondeu no oco do altar-mor.

Na sexta-feira, o delegado ligou para o prefeito, comunicando que Santana havia desaparecido.»

— A santa sumiu, seu prefeito, e o vigário disse que ela é uma obra do Aleijadinho. Na igreja não tem nenhum sinal de arrombamento.

— Deve ter sido o Quincas, o sacristão.

— Ele viajou ontem cedo para Pará de Minas e ainda não voltou.

— Você já apurou quem tem as chaves da igreja, delegado?

— Além do Quincas, só o padre. Mas não vamos nos precipitar, acusar um padre de roubo é muito grave. Chamei a polícia técnica na capital.

— Você é que sabe, parece não haver dúvida.

O prefeito me deu a ordem de espalhar a notícia do furto da imagem pelo padre Cosme.»

Falei no ouvido do Luizinho:

— Você sabia que a Santana sumiu da igreja? Portas e janelas não foram arrombadas. Quem tem as chaves é o Quincas e o padre.

— Mas o Quincas está viajando.

— Então...

Juca da Sá Bela ficou apreciando as coisas acontecerem.

O Júlio Pacheco apareceu na venda e pediu ao Luizinho um quilo de linguiça.

— Tá sabendo da última, Júlio?   A imagem da Santana foi roubada.

— Então é por isso que a polícia interditou a igreja desde ontem! Mas quem cometeu este sacrilégio, Luizinho?

— Muito estranho, Júlio! Muito estranho! Não tem janela nem porta arrombada. A polícia acha que quem entrou tinha a chave da porta.

— E quem tem a chave?

— O padre e o Quincas, que está em Pará de Minas.

— Homem de Deus! O padre? Eu sabia! É a reforma protestante. Ele cometeu o sacrilégio de tirar as imagens dos santos e agora profanou a avó de Nosso Senhor Jesus Cristo.

— Parece que a imagem foi feita por um tal de Aleijadinho. Vale uns vinte contos.

— E fez isto por dinheiro! Ele é o Lutero! O anticristo!

Júlio Pacheco saiu atônito da venda. Foi direto para o Largo da Matriz. No caminho encontrou três companheiros da conferência de São Vicente, que o acompanharam. Os grupinhos de curiosos eram maiores, pois era sábado. Júlio abordou o primeiro grupo e foi dizendo em voz alta:

— Sacrilégio, sacrilégio! O padre roubou a santa! É um excomungado! É a reforma protestante! É o anticristo! Lutero! Lutero!

Em minutos surgiu uma turba enfurecida que atacou a casa paroquial. A porta não resistiu por muito tempo e a casa foi invadida. Frustrada com a ausência de padre Cosme, a turba depredou e saqueou a casa. A situação só se normalizou com a chegada de reforços militares vindos de Divinópolis.

***

Quincas ficou escondido numa casinha bem no alto da Serra do Gentio.  Era um refúgio que o prefeito gostava de usar quando queria ter sossego para planejar suas jogadas políticas.

Conceição viu Juca da Sá Bela passar de carro e ir direto para o alto da serra. Na volta, ele parou na casa grande da fazenda para tomar o delicioso café com biscoito frito, especialidade da Conceição. Estava caladão daquela vez, ao contrário de seu gosto de especular sobre o que estava acontecendo.

Da janela da cozinha dava para ver a casinha lá no alto da serra e Conceição viu fumaça saindo pela chaminé. Foi lá conferir.

— O que você está fazendo aqui, Quincas?

Ele começou a chorar. Conceição se sentou ao seu lado e o abraçou. Ele lhe contou tudo.

— Eu sou o Judas. Traí um homem que me tratou com amizade.

— Desfaça esta intriga, Quincas, devolva a imagem para o lugar dela. O padre vai te perdoar.

— Aí eu tenho que acusar o Juca e ele me mata.

— Fala tudo no meio do povo, ele não vai poder fazer nada contra você. Não vai cometer um crime para encobrir uma tramoia.

— Aí eu estou traindo o Juca.

— Então fala que eu escondi a santa para evitar que o padre a vendesse.

— Aí eu continuo traindo o padre Cosme. Não tem jeito. Arruma uma corda, Judas tem que se enforcar.

Quincas desatou a chorar. Conceição o abraçou forte.

— Vamos lá resolver isto, Quincas. Eu vou com você.

***

No domingo, bem cedo, os sinos da igreja de Santana repicaram por meia hora. Os fiéis chegaram aos borbotões. Santana voltara ao seu lugar de honra. Quincas e Conceição estavam de pé em frente ao altar. O murmúrio foi diminuindo. Quando se fez silêncio, Quincas revelou com voz trêmula:

 — Sou o responsável por esconder a imagem de Santana. Quando soube que era uma obra do Aleijadinho, fiquei com medo de que ela fosse roubada. O padre Cosme não tem responsabilidade nenhuma. Eu peço perdão pelo mal que lhe causei.

Houve uma grande confusão. Todos falavam ao mesmo tempo.

Padre Cosme chegou acompanhado por Vicente, colocou-se ao lado de Quincas e Conceição e levantou os braços, pedindo silêncio.

— Queridos irmãos, a graça de Deus restabeleceu a paz entre nós. Que o Seu perdão nos livre de nossas culpas. Eu também sou responsável por não divulgar, de imediato, o valor artístico da imagem de Santana. Fui inocente, achando que um segredo dessa importância pudesse ser guardado. Fui autoritário, mudando as cerimônias sem uma explicação prévia do seu significado e dos benefícios que as mudanças trariam para todos nós. O Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria continuarão a fazer companhia a Santana que jamais sairá de seu lugar de honra, que ocupa há tantos anos. Santana Mestra, que ensinou Maria a caminhar, a falar e a rezar, nos ensinará a sermos leais, a evitar e combater o rumor e à calunia. Vamos nos ajoelhar e em silêncio pedir perdão ao Pai misericordioso.

***

Para surpresa geral, Vicente foi eleito prefeito. Antônio Máximo tornou-se deputado estadual, e levou Juca da Sá Bela para ser seu assessor. Quirino continuou a fabricar sua pinga, esperando a próxima eleição.

Conceição e Quincas se casaram e foram morar em Pará de Minas. Irene e Luizinho fizeram as pazes e ele prometeu que se casaria com ela assim que os negócios melhorassem.

Padre Cosme foi vigário de Santana por mais três anos. Conquistou a estima de seus paroquianos e foi, pacientemente, lançando as sementes do Reino de Deus, conforme as orientações do Concílio. No fim do triênio foi para Roma fazer mestrado na Pontifícia Universidade Gregoriana.

O professor Cristóvão ficou muito constrangido com o parecer de uma comissão do IPHAN sobre a inautenticidade da atribuição de autoria a Aleijadinho da imagem de Santana do Farofa.

A imagem de Santana Mestra da Capela Nossa Senhora da Boa Morte do seminário menor de Mariana continua desaparecida.

Santana, aliviada com a perda de notoriedade, continuou a abençoar o povo do Farofa, que se tornou um pouco mais sábio e generoso.

Ildeu Geraldo de Araújo

12/10/2021

Revisão: Patrícia da Fonseca
E-mail: redatorapatricia@gmail.com

Ildeu Geraldo de Araújo

Ildeu Geraldo de Araújo nasceu, em 1938, viveu em Belo Horizonte a maior parte de sua vida. Casado com Maria Nylza, desde 1963, tem cinco filhos e seis netos. Formou-se em engenharia mecânica e elétrica pela UFMG e exerceu seu ofício por vinte e cinco anos na Usiminas, Universidade do Trabalho, Tecnokor. Depois foi consultor e dirigente empresarial por vinte e seis anos. Publicou, pela ARTEAR editora, o livro de contos "Da fortuna de amar" – 2020 e a novela "Terra firme entre as ondas" – 2022, que trata da relação familiar de uma empresária, um sindicalista e a jovem filha do casal no ambiente da ditadura militar e da redemocratização ocorridas no Brasil no século XX.