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Além do espelho

Além do espelho

por Beatriz de Mello Beisiegel

Fale "tigre" e a imagem evocada é sempre o tigre - imenso, macho, olhando com intensidade verde e fixa em frente, pelagem brilhante e glamorosa em laranja e preto, poder nos movimentos, força. Medo.

Ninguém nunca vê uma tigresa, já fraca e um pouco magra aos quinze anos de idade, cansada, o pelo baço da época de amamentação, o olhar preocupado em encontrar alimento e refúgio para ela e a filhota de seis meses. Essa sim, redonda, brilhosa, com os olhos verdes ainda cheios de curiosidade e surpresa por esse mundo mágico no qual sua mãe a guia entre pântanos e florestas. As duas - Raasta e sua filhota Subah - acabaram de comer um cervo pequeno, um muntjac, e dormem numa mancha de sol no centro da diminuta floresta a norte de Nagarjunsagar, a Reserva de Tigres. Não, só Subah dorme, as patas, imensas para seu tamanho, cruzadas e a barriga distendida de satisfação. Raasta aproveita o momento sem fome para pensar e aceitar: esse muntjac foi a única presa grande que conseguiu caçar em três meses. Não sobram antílopes e veados maiores perto das vilas humanas. Só no interior da Reserva de Tigres tem presas suficientes para alimentar uma tigresinha em crescimento. Mas agora a Reserva é perigosa. Jângal Khan está lá, e está raivoso por não ser o pai de Subah. Sua filhota corre risco de vida se encontrarem Jângal. Mas se não voltarem, ela morrerá de fome.

O dia seguinte amanhece sobre as duas descendo cautelosas a trilha que entra na Reserva de Tigres: Subah deslumbrada com a mata alta e vibrante de vida, Raasta alerta a qualquer ruído e movimento. Como o desse tigre que vem em direção às duas pela trilha. -É Jângal, já - pensa ela, assustada, mas rosnando e se arrepiando para parecer maior e mais forte. Entretanto, a figura que se aproxima também se arrepiando está acompanhada por uma forma menor, pouco atrás - é uma tigresa com filhote! Subah e o tigrinho que vem em sua direção olham, juntos, por trás de suas mães e Raasta entende. Avança em grandes saltos para a tigresa que vem vindo e espalha suas patas dianteiras sobre as patas também estendidas da tigresa. Subah corre para ajudar a mãe, atacando o tigrinho que se aproxima, e esmaga o focinho numa superfície lisa. Tomba, rugindo de susto, sobre a mãe.

Raasta achata as orelhas para trás, no equivalente tigrino a um sorriso rasgado, e dá uma lambida completa no focinho da filhota que agora se levanta ao mesmo tempo que o outro tigrinho, rosnando, e tenta alcançá-lo, dando a volta na superfície lisa e surgindo do outro lado, olhos arregalados de interrogação. Raasta se levanta para seguir caminho.

- Humanos são assim, minha filha - responde à pergunta muda - têm essa obsessão. E projetam isso na gente, pode ver que ? ah! Aqui - mostra ela, indicando duas câmeras de trilha automáticas, presas às árvores que margeiam o caminho, filmando toda a interação das duas com o espelho.

Ela se esfrega prazerosamente na câmera da esquerda, enquanto Subah urina na da direita. Juntas, dão a volta no espelho e desaparecem numa curva da trilha.

 

Beatriz de Mello Beisiegel

Sou bióloga, especialista em comportamento animal e conservação da biodiversidade. Escritora animalista, com dois livros de ficção na Amazon: Vento Sul e O silêncio das girafas, ambos de 2024. Também escrevi, com colegas, dois livros dedicados à conservação da fauna, Mamíferos da Serra da Macaca (um guia para tentar fazer com que os motoristas se apaixonem pelos bichos que cruzam a estrada em vez de passar por cima deles), em 2016, e Onças pintadas do estado de São Paulo: Guia de identificação, com as histórias e fotos de cada uma das poucas onças que resistem à nossa destruição, em 2023, que pode ser encontrado na página do projeto: https://oncascontinuoparanapiacaba.eco.br/. Participo do Curso Online de Formação de Escritores.