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Alzheimer

Alzheimer

por Ana Cristina Sampaio Alves

Alzheimer

Memórias. Para que servem mesmo? Ontem caminhei com papai no parque da cidade. Ele já está com o passo mais lento, mas conserva certo vigor para a idade. Militar da época da linha dura, não admite a perda do controle sobre o próprio corpo. A mente, porém, já lhe prega peças que, felizmente, ele nem percebe.

Foi o que aconteceu durante nossa caminhada. Ainda nos primeiros minutos, cruzamos com um senhor bem empertigado, que andava a passos rápidos em nossa direção. O sorriso no rosto já prenunciava o encontro.

— Roberto! — disse ele, estendendo a mão para meu pai em um cumprimento caloroso.

Seu Roberto não fez feio — eu já lia em seus olhos que não reconhecia o amigo — e retribuiu o aperto forte, que se dirigiu a mim também com igual simpatia. Nessa hora, apresentei-me e informei meu nome.

— Muito prazer, minha jovem. Fabiano, ao seu dispor.

De repente, a conversa foi ficando animada entre os dois. Recordaram episódios engraçados que haviam passado juntos, falaram dos tempos de quartel, de como a intensa preparação física da vida militar lhes permitia agora usufruir de boa condição de saúde, das flexões que pagavam como castigo, das músicas que entoavam durante as corridas matinais. Toda uma vida dedicada ao exercício era agora um grande benefício, enquanto tantos conviviam com doenças sérias.

Fazia tempo que eu não via meu pai tão animado como naquele encontro com o velho amigo. Conversaram por uma boa meia hora, relembrando nomes de amigos de farda, encontros de famílias na vila militar, partidas de peteca aos domingos, churrascos. O sol já esquentava quando o senhor Fabiano sinalizou que era hora de voltar para casa. Despediu-se de meu pai e de mim com um abraço apertado, um sorriso largo de felicidade, e nos desejou um ótimo dia.

— Roberto, foi muito bom te reencontrar aqui! Tenho vindo caminhar todas as manhãs; vamos conversar mais vezes.

— Claro! — respondeu papai com entusiasmo. — Muito bom rever os amigos. Abraço!

Enquanto Fabiano se afastava, seguimos a caminhada em silêncio. Quando percebi que ele não falaria nada sobre o encontro, perguntei:

— Então, pai, quem é esse Fabiano?

— Não faço a menor ideia.

Quarenta minutos depois, sentados junto à barraca habitual onde tomávamos água de coco, meu pai levantou a cabeça, como numa epifania momentânea, e disparou em voz tão alta que os poucos transeuntes nos miraram espantados:

— Filho da puta!

— O que foi, pai? Quem? — questionei, atônita.

— Aquele desgraçado me denunciou pro general! Passei um mês correndo no pátio às quatro da manhã.

Aquela história eu conhecia. Papai saíra escondido do quartel para encontrar mamãe, quando ainda namoravam, e o coronel o pegara no flagra.

— Foi ele? Fabiano era o coronel?

Mas meu pai já abaixara a cabeça e só prestava atenção ao coco.

 

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.