por Rosane Rubinstein Pagliuca
Às doze em ponto, ninguém mais olhava para as pessoas.
Os olhos deslizavam pelas travessas com uma atenção que raramente dedicavam uns aos outros.
Foi então que a batata, de olhos e sorriso moldados na própria massa, sorriu.
— Eles ainda acreditam que um sorriso basta.
O fígado acompanhava a fila que começava a se formar.
— Os olhos costumam decidir antes da fome.
O suco de caixinha exibiu discretamente a frente da embalagem.
— Não vejo problema. Fui feito para convencer depressa.
— E consegue? — perguntou o ovo.
— Todos os dias.
O ovo permaneceu em silêncio por um instante.
— Ainda não descobri por que complicam tanto o almoço.
O Impaciente passou primeiro. Serviu-se da batata sem diminuir o passo.
A Distraída escolheu o suco pelos desenhos coloridos e pelo "rico em vitamina C" estampado na embalagem. Antes mesmo de encaixar o canudo, já voltara ao telefone.
O Metódico diminuiu o passo diante do fígado. Parou por um instante. Depois seguiu.
A batata continuava sorrindo enquanto via a fila avançar com uma serenidade que nem ela compreendia.
— Às vezes invejo você.
O fígado voltou-se para ela.
— Inveja?
— Quando alguém o escolhe, é por você.
O fígado demorou alguns segundos para responder.
— A gente se acostuma.
A fila avançava como uma maré breve. A travessa da batata esvaziava depressa. O suco desaparecia no mesmo ritmo. O fígado permanecia quase intocado. O ovo perdia um ou outro companheiro, sem alarde.
Quando o refeitório esvaziou, a cozinheira cobriu as travessas uma a uma.
Antes de apagar as luzes, levantou novamente a tampa do fígado. Colocou dois pedaços na marmita.
Fechou a tampa.
A batata continuava sorrindo.
Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.