por Carlos Griesang
Catracas monocórdias, bem-vindos em neon. As pessoas chegam em grupos e vão tomando os espaços próximos ao palco. Cores, grifes, poses. Burburinho adolescente. A paixão pelo espetáculo é estampada nas camisetas, ovacionada em cada clipe do astro nos telões.
Passado algum tempo, surgem a penumbra e o gelo seco. Guitarras perfiladas, bateria engatilhada, contagem regressiva. No "três" ele entra em cena, sincronizado com a parafernália sonora e visual: pula, se joga no chão, sacode os longos cabelos, dedilha um elástico contrabaixo, bate no peito estampado com "Metallica". A banda vai no embalo, e o ginásio vem abaixo!
Dois minutos de apoteose. Súbito, aquietam-se todos; calam-se os gritos, cessam os riffse as respirações. O silêncio é tão denso que parece esmaecer o brilho dos holofotes, agora centrados unicamente no performático artista. É a sua deixa! Estático ao microfone, esbaforido, ele retribui atenção àqueles milhares de fãs e quilowatts que aguardam apenas a primeira nota, o mais firme grunhido, o sublime trinado daquela garganta abençoada pelos ícones supremos do heavy metal. Gillan, Plant, Ozzy, Dio, Dickinson – estão todos lá, pulsando em sua cabeça. Seus braços se erguem, em êxtase e prece, os lábios fremem, os olhos se abrem para?
A realidade. Impassível, ordinária realidade. Estancado o suor, vem o amargo da consciência: o que está fazendo ali? Quisera apenas um autógrafo, mas arriscara demais, entrando furtivo entre os seguranças desatentos. Errara o caminho e, uma vez no palco, impossível conter as vibrações. Agora olha em volta e percebe que, no backstage, os leões de chácara estão furiosos, prestes a demonstrar sua competência nas entranhas do invasor, sob as ordens de um ensandecido, preterido, verdadeiro rockstar.
Pouco antes de ser espancado, ele toma o microfone, agradece a plateia e anuncia um clássico do Deep Purple, a derradeira versão para "Mistreated", estilo Ronnie James Dio, nunca cantada com igual emoção. Expele o pouco ar de seus pulmões, inspira com violência e solta a alma e a voz. Mas o microfone está mudo.

Sou Carlos Augusto Griesang, graduado em Comunicação Social (jornalismo) pela PUCRS, turma de 1994. Natural de uma pequena cidade no interior do estado, moro em Porto Alegre há três décadas, cidade que chamo de lar, por adoção. Sou apreciador de futebol, apaixonado pelo Grêmio FBPA; de boa música, com ênfase em bandas de rock clássicas dos anos 1970, como Black Sabbbath e Pink Floyd; de história em geral, sobretudo da Roma antiga; de literatura distópica, com exemplos em "Silo", de Hugh Hoewy, e no clássico "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury.
No campo da escrita criativa, gosto de elaborar contos e minicontos, com inegáveis pitadas de autoficção. Tento passar para o papel meus twisters mentais, com bom humor e ironia, sempre que possível.
Orgulho-me de ter participado de uma das primeiras turmas da oficina de Luiz Antonio de Assis Brasil, com contos publicados na coletânea "Contos de Oficina 2" (Livraria Editora Acadêmica, 1989). Participei de outros oficinas, na sequência, talvez nem tão dignas de nota, mas que ajudaram a formar a ideia de como escrever um bom texto.