por Vilma Toloto
As Cinzas do Bento
Numa manhã cinzenta e abafada, a família Silva se reuniu em torno da cova recém-aberta, sob a ameixeira.
Crianças e adultos permaneciam em silêncio. Dona Mirtes segurava a pequena urna entre os braços, como se ainda pudesse sentir o calor do Bento ali dentro. Embora Bento fosse grande, as cinzas cabiam muito bem em uma urna pequena. O senhor Arlindo, ao seu lado, mantinha os olhos baixos.
Bento morava nos fundos da casa, num espaço que dividia com a Filó. O relacionamento deles nem sempre era fácil. Todos já estavam acostumados com a natureza difícil dos dois. A família, porém, tinha muito apreço por eles.
— Bento foi mais do que um amigo — disse Dona Mirtes, com a voz embargada. — Todos amávamos ele.
O menino mais novo, de calças curtas e suspensórios, encarava a cova com olhos arregalados, sem piscar. Um ônibus freou bruscamente atrapalhando a cerimônia.
O cheiro de terra tomava conta do ar. A ameixeira deixava cair folhas secas e frutos maduros, como se também lamentasse a perda. Uma ameixa bateu no ombro do irmão mais velho, que nem se moveu, apenas limpou as lágrimas com a manga da camisa.
Com os dedos trêmulos, Dona Mirtes retirou a tampa da urna e verteu lentamente as cinzas de Bento. Uma brisa leve dispersou parte delas, as partículas flutuaram antes de repousar entre as raízes da árvore. O menino mais novo cruzou os braços sobre o peito, num gesto de auto conforto.
Quando o senhor Arlindo se ausentava, era Bento quem cuidava da casa, atento a cada ruído. Houve uma madrugada em que impediu um roubo, acordando a todos com alvoroço e estardalhaço. Evitou que o pior acontecesse.
Depois houve a última provocação da Filó. Foi numa das brigas enquanto os meninos brincavam no quintal com bolinhas de gude que viram Bento avançar sobre ela com os olhos turvos e os músculos tensos.
Foi tudo muito rápido. Um baque seco. Um silêncio denso. Depois, a cabeça para um lado, o corpo para o outro. O sangue no chão. O pescoço torto. Os olhos vidrados da pobre criatura.
Aquela trágica imagem marcou os meninos mais do que os adultos imaginavam.
Depois disso, deixaram de brincar sozinhos no quintal. Ninguém falava muito do assunto. Filó era querida. Estava com a família há anos. Alguns diziam que era atrevida, imprevisível e que, um dia, acabaria se dando mal.
Desde então, Bento ficou estranho. Passava longas horas deitado, em silêncio, sem quase olhar para ninguém.
— Apesar de tudo, ele era bom — murmurou Dona Mirtes, enquanto empurrava a terra de volta para a cova.
Todos concordaram em silêncio. Os meninos se afastaram devagar. A ameixeira parecia suspensa no tempo. Nenhum pássaro cantava. O vento balançava os galhos com um ar respeitoso. Um silêncio espesso cobria tudo.
Se Dona Mirtes não tivesse visto as penas da Filó na boca de Bento, talvez jamais acreditasse que ele fosse capaz de cometer tamanha violência.
Meses depois, os meninos ainda evitavam brincar embaixo da ameixeira. Diziam, que às vezes, ouviam algo vindo da terra já dura e lustrosa.
Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.
Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.
É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.