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As experiências que deixamos para trás

As experiências que deixamos para trás

por Elisa Lempek

As experiências que deixamos para trás

Quanto tempo precisamos para experimentar algo que desperta nossa curiosidade? Eu levei mais de dez anos para fazer uma aula de Spinning. Sempre tive vontade, mas nunca priorizei. Até que, numa manhã fria e chuvosa de sábado, enquanto fazia a faxina da casa, desliguei o aspirador de pó, peguei o celular e abri o Instagram. Pesquisei uma academia, enviei uma mensagem pelo WhatsApp e, em menos de dez minutos eu fiz a inscrição, baixei o aplicativo indicado e agendei minha primeira aula para o mesmo dia, à tarde. 

Cheguei à academia com alguns minutos de antecedência. A recepcionista me atendeu com um sorriso simpático e indicou o caminho. No andar de cima, outra funcionária, muito atenciosa, perguntou o número que eu calçava e me entregou uma sapatilha. Mostrou o armário onde eu poderia guardar meus pertences e o local onde deixaria meu tênis. Tudo muito prático e organizado.

Troquei os calçados, guardei o casaco e entrei na sala levando minha garrafa de água e a curiosidade que me acompanhava havia mais de dez anos.

A sala estava escura, mas tons de rosa neon criavam uma atmosfera acolhedora e intimista. Apesar da pouca luz, tudo estava bem sinalizado. As bicicletas, alinhadas e numeradas, correspondiam às reservas feitas pelo aplicativo. Encontrei a minha, ajustei a altura do banco, encaixei a sapatilha no pedal e esperei a aula começar, observando cada detalhe com o mesmo encantamento de uma criança diante de um brinquedo novo. Eu me deixava surpreender por cada descoberta.

Sobre a bicicleta havia uma toalha branca, macia e perfumada, com cheirinho de amaciante que despertou uma sensação de limpeza e conforto que me faz muito bem. Também havia um cartão de boas-vindas com a frase: "Você é o projeto mais importante da sua vida. Bem-vinda, Elisa". Li o cartão duas vezes. Valorizo muito gestos simples como esse que representam cuidado e reconhecimento.

Antes de começarmos, a professora se apresentou, chamou cada aluna nova pelo nome e nos passou as primeiras orientações. Ajustamos a carga e começamos a pedalar. Os quarenta e cinco minutos passaram sem que eu percebesse. Consegui acompanhar toda a aula e me diverti muito. Quando a música silenciou, passei a toalha no rosto, tomei um último gole de água e desci da bike com a respiração ofegante, o coração acelerado e as pernas bambas. A mente estava leve. Enquanto descia as escadas, voltei a me perguntar: "quantas curiosidades permanecem à nossa espera, precisando apenas de alguns minutos de decisão para se transformarem em experiências reais?".

Texto revisado por Giovanna Aquino

 

Elisa Lempek

Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983, mãe de dois, psicóloga e escritora. Na clínica, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória. Seu trabalho dedica atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para as sutilezas das relações familiares e as entrelinhas do cotidiano.