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As férias com papai

As férias com papai

por Ana Cristina Sampaio Alves

As férias com papai

Sair de férias lá em casa exigia logística. Éramos seis crianças, papai e mamãe. Houve tempos em que viajávamos para o interior em dois fuscas. Num deles mamãe era a motorista. Tinha a fama de pé pesado, chegava a dar 140 km/h no fuscão. No outro ia papai, que adorava um atalho pelo caminho. Era só ter uma placa de desvio que ele não se continha: pegava a estrada de chão, muito certo de que chegaria antes da mamãe. Acontece que em 100% das vezes era uma grande furada, e quem estava com papai acabava se perdendo, enfrentando atoleiro, e de tantas paradas chegava muitas horas depois do grupo da mamãe, que já estava descabelada de tanta preocupação com os filhos que tinham ficado com papai.

É claro que viajar em dois carros separados foi se tornando uma grande confusão, então papai e mamãe compraram uma Variant. Era cor vinho, ano 72, e tinha a grande vantagem de acomodar quatro crianças no banco de trás e duas no porta-malas. Estava resolvido o problema e a família podia finalmente viajar junta. Mamãe costurou um colchãozinho perfeito para irmos no porta-malas. Tinha até briga, pois todos queríamos ir deitados. Mas, em geral, a preferência era dos mais velhos, eu incluída.

Agora, a questão girava em torno de quem seria o motorista. Como papai adorava um desvio de rota, mamãe não abria mão de ir ao volante. Ela dizia que enjoava no banco do carona, mas a verdade é que não queria correr o risco de papai decidir o caminho. Ele pedia para dirigir, afinal, era maçante ser copiloto. Mas quando ela aceitava, era sempre uma roubada. Certo dia ele pegou um desvio de terra para chegar em Maringá. Uma chuvarada na região e acabamos atolados no meio das fazendas. Saímos todos para empurrar. Um monte de crianças tentando desatolar a Variant. Anoitecia. A sorte é que apareceram uns peões montados a cavalo que nos puxaram do atoleiro. Enlameados, mortos de fome, mamãe enfurecida. Em geral, eram nossas chegadas aos destinos das férias no interior. 

Já mais velha viajei com papai no carro de um amigo dele. Estrada longa, após muito insistir papai acabou na direção. Só que ele resolveu mostrar como era bom trocar os pés nos pedais de vez em quando: acelerar com o esquerdo e frear com o direito. É, papai deixou mais uma pessoa de cabelo em pé. Eu apenas torci para chegarmos todos vivos. 

Muitos anos depois, papai, viúvo, pegou carona comigo para um hotel fazenda. Claro que ele pediu para assumir a direção do meu carro. Também não deixou de sugerir desvios à direita para conhecer melhor a região. As férias com papai não haviam mudado em nada. A única diferença era que, agora, eu era a motorista. E com um sorriso vitorioso, disse não a todos os pedidos dele.

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.