por Maria Vitória Paiva
Tenho mania de prestar atenção nas palavras não ditas. Certa feita, contei a um colega sobre uma conquista recente minha. Ele, conhecido por um leve narcisismo, reagiu ensimesmado: "Nossa, você realizou meu sonho!" E depois os parabéns.
Desse dia em diante, passei a perceber as entrelinhas, o jeito de dizer, o sotaque. Sou velha amiga das palavras desde criança, e o que mais me fascina é que, independentemente da língua ou do meio, o que não é dito costuma ser mais importante do que a fala em si. Aliás, as palavras, explícitas ou não, são a forma mais rápida de nos apresentarmos. A pessoa, ao decidir o que dizer e como dizê-lo, denuncia sem querer seus pensamentos, sua visão de mundo, sua personalidade ou mesmo algo do seu caráter. As pessoas nos dizem quem são a todo momento, se pararmos para escutá-las, e eu paro. Se isso demonstra afinidade com a linguagem ou falta de fé na humanidade não cabe a mim julgar.
Junta-se a isso a identidade linguística de cada falante. O sotaque e a variação linguística também são parte disso e auxiliam na sensação de pertencimento a um grupo, ao mesmo tempo que individualizam — ou mesmo excluem — os membros do coletivo. Eu mesma sei que não pertenço a lugar algum, após passar a vida pulando de galho em galho. Ninguém entende alguém que fala "bah", mas diz "tangerina"; o "capaz" com o chiado no final. No Uber, sempre a mesma pergunta: "Mas tu não é daqui, né?" Ao mesmo tempo, não dá para voltar ao local de origem, porque lá também já não me reconhecem mais. Sou um mosaico.
Ao mesmo tempo, sou mais eu do que qualquer um no mundo. Aprendi, com o tempo, que cada um é sua própria língua. Eu, como todo mundo, sou formada de palavras como sou por células, e revelo mais do que gostaria em mais situações de que gostaria. Mesmo assim, essa transparência não é de todo ruim. As palavras também permitem que eu me entenda, eu, que analiso os meus próprios padrões de linguagem com uma minúcia quase lacaniana. Mas a autocrítica sem o conforto da distância e da alteridade distorce e amplifica, quando não anula, julgamentos que, se fossem direcionados aos outros, seriam certamente mais gentis. Pior, força o confronto de meus próprios defeitos. Essa, sim, a parte mais difícil.
Carioca de nascimento e gaúcha por amor, Maria Vitória Paiva é formada em Relações Internacionais e diplomata. É, também, musicista e escreve canções desde adolescente, como forma de exteriorizar pensamentos que não cabiam em outros lugares. Gosta de ler ficção que celebra a diversidade e escreve, principalmente, sobre pessoas, pertencimento e negritude. Atualmente cursa participa do Curso de Formação de Escritores na Metamorfose.