por Letícia Almeida
Asa rasgada
Abro meus olhos. Uma luz forte logo adentra minhas pupilas. "Glasgow 5", ouvi. Não compreendo o significado, mas também não me esforço para entender. Minha cabeça balança, ouço um zumbido estranho dentro dos ouvidos como se uma abelha tivesse ficado presa dentro deles. Apagam a luz, fecho novamente meus olhos. Talvez quando eu abrir tudo aquilo terá passado, será apenas um pesadelo.
Não é. Quero falar, mas não consigo. Tem algo penetrado em minha garganta. Tusso, mas o som permanece abafado em meus pulmões. Está difícil respirar, parece que estou me afogando. Alguém se aproxima: "Vou te aspirar, aguente firme". Sinto um vácuo me sugando, tusso uma vez, mais uma, no terceiro esforço o ar novamente me preenche. "Estou salva". Me lembro de quando quase me afoguei no mar. Tinha dezoito anos, meu namorado e eu costumávamos fazer um bate e volta para o litoral aos finais de semana. Ele não gostava muito de entrar no mar, então fui sozinha cada vez mais para dentro daquela imensidão azul. Amava aquela sensação de liberdade olhando para aquele horizonte sem fim. Sem perceber a maré foi me puxando, já estava bem longe da margem. De repente meus pés não sentiam mais a areia. Tentei saltar, mas a cada tentativa uma onda violenta me empurrava de volta para baixo. Levantei as mãos, pedindo ajuda. Na margem meu namorado ria. Depois disse que pensou que eu estivesse brincando. Idiota, eu poderia ter morrido, mas parece que aquele ainda não era o meu dia derradeiro. A maré baixou, percebi a areia voltando por baixo dos meus pés até conseguir caminhar em direção à praia. A garganta queimava de tanto sal. No trajeto um socorrista se aproximou e me deu uma bronca. Não me importei, estava salva, assim como naquele momento.
Muitos fios estão conectados ao meu peito. Do meu pescoço saem outros tubos mais finos. Sinto um líquido gelado entrar em minhas veias. Ora estou acordada, ora sinto um impulso irresistível de dormir. Mesmo de olhos fechados, ouço vozes ao meu redor e sinto o toque de mãos de látex sob o meu corpo. Me viram para um lado, depois para outro. Acomodam minhas pernas, puxam meus ombros. Quando penso que toda aquela movimentação enfim acabou, me puxam para cima e um cobertor quentinho cai sobre mim. "Espero que agora me esqueçam um pouco, só quero ficar aqui quieta." Eles se foram, mas o ruído continua. O zumbido passou, agora são esses apitos repetidos e irritantes. Pessoas com um uniforme verde e máscaras circulam pelo local. Ouço risos, conversas aleatórias, piadas, reclamações. Por um momento penso que sou invisível, já que parecem não notar minha presença. Quero falar, perguntar o que aconteceu e como vim parar ali, porém sinto que sou apenas objeto de trabalho daquelas pessoas. Ninguém pergunta como estou, o que sinto, se preciso de algo. Quando se aproximam não me olham. Mexem nos fios e equipamentos ao meu redor, falam com o colega ao lado, queixam-se de cansaço. Tento movimentar minha mão, fazer algum sinal, mas meu corpo não responde. Parece que estou pregada nessa cama.
Agora ficou tudo quieto. Me sinto leve, flutuando. Olho para baixo e vejo meu corpo desnudo com quatro pessoas de verde ao redor se revezando nos movimentos de socorro. Não quero ficar aqui olhando essa cena, a sensação de flutuar é muito boa e preciso aproveitar. Sigo sobrevoando, vejo outras pessoas em camas ligadas em máquinas como eu há pouco também estava. Sem perceber consigo atravessar a parede e agora sobrevoo a cidade. Reconheço esse lugar, já vim várias vezes nesse parque com meu cachorro, meu apartamento fica naquele prédio logo atrás.
Não preciso entrar no elevador, já estou na altura do oitavo andar. O adesivo descascado de borboleta na janela é familiar para mim. Manuela, minha pequena, tinha cinco aninhos quando tentou tirar aquele adesivo sozinha. Não conseguiu tirar por completo, então chorou por ter rasgado a asa vermelha da borboleta. Foi seu último dia comigo. Em um breve momento de distração ela caiu da janela tentando buscar a asa rasgada. Atravesso novamente a parede, reconheço minha cama, travesseiros, a caminha do Bob perto da minha. Agora somos só nós dois. De repente sinto meu corpo sendo puxado, tento resistir, mas agora estou no parque, Bob corre atrás de outro cachorro. Não estou mais flutuando, meus pés tocam o chão. Corro o mais rápido que posso para tentar pegá-lo, mas ele é rápido e logo chega à avenida. Meu coração quase sai pela boca. Avenida lotada, carros por todos os lados. Um estrondo, um apagão. Estou caída no chão, vejo uma poça de sangue se formar atrás de mim. Enfim Bob parece bem. Novamente sobrevoo meu corpo naquele leito de hospital. As pessoas de verde ainda estão tentando me trazer de volta. Na mesa de emergência, entre seringas, agulhas e ampolas, um papel chama minha atenção. Meu nome está escrito nele, logo acima da minha data de nascimento. Resultado: POSITIVO. Minha borboletinha voltou. Dessa vez com a asa inteira. Também voltarei. Por ti, Manuela.
Letícia Almeida é brasileira, paulista de nascimento e brasiliense de coração.
Vive em Brasília desde 2012 onde atua como enfermeira.
Também formada em psicanálise, encontrou na escrita um meio de expressar sua criatividade aliada a uma forma peculiar de vivenciar os mistérios da vida.
Autora dos contos MATCH DE AREIA, publicado na coletânea Toda forma de amor, ASA RASGADA, publicado na antologia Enquanto houver sol e MALA VAZIA, publicado na antologia TRAVESSIA, Letícia Almeida estreia com seu primeiro romance.
"Mulheres de água doce" é um romance com raízes indígenas ambientado em Alter do Chão, no Pará, que conta a história de cinco mulheres unidas pelo fio invisível da existência e conectadas pelo rio Tapajós. Uma história de força, superação, preconceito e cura através das gerações.