por Ana Cristina Sampaio Alves
Foi num dia de maio que recebi o convite inusitado do meu filho:
- Mãe, papai te convidou para o aniversário dele.
-- Teu pai me chamou!? -- Não pude conter a surpresa. Afinal, já eram vinte anos de separação e não havíamos trocado mais nenhuma palavra.
-- Sim, ele disse que eu podia te chamar. Vai ser na casa dele.
-- É verdade isso? É para eu ir ou foi só por educação?
Mas o garoto já tinha saído. Qual o motivo do convite? A resposta se impôs antes que eu pudesse contê-la. Uma sensação estranha me atravessou e a memória começou a fervilhar.
O primeiro namorado, um casamento que seria para a vida toda. O nosso fim não foi exceção. Fomos nos abandonando aos poucos. A maternidade acelerou tudo. Ele não suportava a bagunça da criança, queria dormir, sair com os amigos, ver TV e beber uísque depois do trabalho.
Aquele dia trouxe de volta lembranças difíceis. Muitos anos tinham passado, mas não o suficiente. A expectativa de um pedido de desculpas mudou tudo; passei a ansiar pelo evento.
Comprei um presente caro, uma roupa nova. Cheguei à festa de aniversário sozinha. Meu filho já estava lá.
-- Boa noite, tudo bem? – cumprimentei a dona da casa, que me convidou a entrar. Sem dar tempo à troca de gentilezas, perguntei -- Onde está o aniversariante?
Segui para o centro da sala onde ele estava cercado por amigos. Procurei, sem sucesso, um rosto conhecido, até que nossos olhares se cruzaram. Ele acenou com a cabeça, mas desviou o olhar em seguida.
-- Mãe, senta aqui – chamou meu filho, a me socorrer quando eu mais necessitava.
Alguns convidados juntaram-se a nós. Apresentei-me como a ex-mulher do dono da festa. O pacote de presente pesava no meu colo como se fosse feito de pedras. Entre salgadinhos e taças de espumante, esperei que ele viesse até nós. Não veio.
O sofá parecia cada vez mais desconfortável. Minhas pernas se moviam sem controle, eu me ajeitava, sentia o calor subir pelo pescoço. Meu filho me observava em silêncio, tentando acompanhar a conversa dos outros.
Mirei o outro lado da sala. Ele conversava, ria, levantava o copo. Não me olhava.
Foi então que perguntei, talvez alto demais:
— Filho, você tem certeza de que seu pai me convidou para esta festa?
Não esperei a resposta. Já estava de pé. Caminhei até o círculo de amigos sabendo que não sairia ilesa daquela travessia. Ele finalmente me olhou. Não sei se falei com raiva ou choro. Chamei-o de covarde, fraco, sem coração. E disse, como quem arranca algo da própria garganta: — Não te perdoo.
O silêncio caiu pesado. Ele segurava o copo de vinho como uma estátua mal acabada. Pousei o presente no móvel mais próximo e saí. Não me despedi do meu filho.
Nunca mais ouvira falar dele. Seu nome desapareceu depois daquele episódio. Soube apenas que fora enterrado há dois anos. Parece que a doença também o pegou desprevenido.
A história daquele convite de aniversário atravessou outro par de décadas e rompeu na minha memória justamente no dia da visita de meu filho ao hospital. Estava ligada a aparelhos. As máquinas marcavam um ritmo que já não me incomodava.
Meu filho estava triste, evitava os meus olhos. Notei o papel dobrado em sua mão. Entregou-me junto com os óculos, mas eu já não conseguia ler. Aproximou-se e começou a leitura em voz pausada. "Eu sei que errei. Fui fraco, egoísta e injusto com você. O que fiz não tem justificativa, apenas a minha falta de coragem. Sinto culpa e vergonha por ter ferido alguém que me ajudou a construir uma família. Sei que nada do que eu disser vai apagar a dor que causei. Ainda assim, devo te pedir desculpas. Você não merecia.
Mas só percebi isso ontem, quando você saiu da festa. Não esperava a sua presença, porém foi bom ter acontecido. Assim posso fechar as contas com a minha consciência".
O bilhete foi encontrado na casa do pai após o enterro. Nunca me chegou às mãos. Meu filho o guardou por dois anos. Diante dos meus dias contados, o papel já não podia ficar escondido.
Limitei-me a dizer:
— Afinal, filho, foi bom eu ter ido àquela festa, mesmo sem ter sido convidada.
— Mas você foi convidada, mãe. Por educação, mas foi.
— Os atos falhos são assim. Revelam o que se tenta esconder até de si mesmo.
Uma semana depois deixei o hospital. Recupero-me em casa. Na mesa de cabeceira, o bilhete. Leio-o todos os dias.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.