por Carina Mendes
Marcaram no café. Ela chegou primeiro, então ele. Seguiram o ritual de meses. Dois expressos, uma água com gás e uma torta de limão, dois copos e dois garfos. Olharam fundo um no outro, em silêncio.. Queriam se tocar, mas os espelhos podiam denunciá-los, rebatendo reflexos proibidos. Então as mãos se aproximavam até o quase, mantendo uma suposta margem de segurança.
— Marta, eu não consigo mais fazer isso — ele disse, recuando a mão.
Os rompimentos eram semanais. Toda segunda-feira era de decisão definitiva, era um basta, um grito de socorro ou de libertação, Marta não sabia identificar. Mas ela sofria como se fosse de fato a última vez. Havia transformado Heitor em sua alma exterior, seu duplo. Não é que ele fosse dela; ele era ela, ela era ele. Uma coisa só, amalgamada, não enxergava outro futuro.
— Você sempre diz isso, meu amor.
— Agora é de verdade, não posso mais fazer isso com minha família. Viver essa vida dupla, dividida.
O garçom se aproximou com o pedido e Marta segurou as lágrimas. Baixou a cabeça e quis encostá-la no ombro de Heitor. Sentiu seu cheiro amadeirado, fechou os olhos para guardar a lembrança do último momento, colocou as mãos na cadeira e afastou-se da mesa. Olhou ao redor. Os espelhos do salão passaram a confundi-la. Não se enxergava mais neles, era como se sua imagem tivesse se dissipado, perdido o contorno. Heitor aparecia inteiro, conduzia sua mão até a xícara de café. Mas ela? Onde estava?
— Preciso ir ao banheiro — disse de modo robótico.
No corredor, mais espelhos, um de frente para o outro, que deveriam refletir sua imagem ao infinito. Ao invés disso, um borrão, vários borrões, sua vida apartada de si mesma. Precisaria esquecer Heitor, desejos e vontades. Beijos, abraços. Deixá-lo partir, desapegar, esquecer. Mas isso significava perder uma parte de si mesma. Sentiu vertigem.
Aproximou-se da pia, jogou água no rosto. Uma, duas vezes. À sua frente, nenhum reflexo. Jogou água no espelho, pedaço de vidro inútil, nada. Pegou o papel e limpou o rosto com força incomum, rímel borrado, reforçou o batom excedendo o contorno e retornou para a mesa.
— Marta, o que é isso? Você está toda borrada.
— Eu sei. Você está fazendo isso comigo.
— Como assim? Já se olhou no espelho? Que culpa tenho pela sua maquiagem?
— Estou tentando me enxergar, mas só tem você lá.
— Lá onde?
— No espelho. — Marta indicou com o dedo.
— Você tá ficando maluca, vamos embora. — Tomou o último gole do café, se levantou e pagou a conta direto no caixa para acelerar o desfecho. Marta o seguiu.
Na saída se abraçaram, pela última vez. Quase se beijaram no desenlace. Cada um seguiu para um lado, cabeça baixa, passos lentos, como se quisessem retornar. Marta virou a esquina no momento em que Heitor olhou para trás por cima do ombro. Ele pensou em voltar, mas caminhou até o carro. Entrou e dirigiu para casa. Abriu a porta.
— Amor, cheguei — disse colocando as chaves sobre o aparador.
Levantou a cabeça e se deparou com o espelho. Não enxergou o próprio rosto, seus contornos, estava tudo embaçado, fragmentado. Sentiu vertigem. Ato reflexo, colocou as mãos no bolso, encontrou o celular, abriu o aplicativo de mensagens e digitou: Oi, Marta.
Publicado em: Revista Subtextos: Espelhos, vol. 5, nº 18, outubro/24.