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AUSÊNCIA

AUSÊNCIA

por Antonio Pedro da Costa

Hoje faz um ano que ela me deixou. Um ano. Parece tempo suficiente, se não para esquecer um grande amor, pelo menos para se acostumar com a nova situação. Mas não foi o que aconteceu comigo. Mesmo depois desse tempo, hoje, enquanto criava coragem para me levantar, me lembrava de quando nos conhecemos.

Eu a vi caminhando pela praia, acho que estava junto ao namorado. Ela era quase uma menina — sou alguns anos mais velho do que ela. Era linda. Bem morena, cabelos longos ao vento, tinha um corpo bem bonito e uma graça especial ao caminhar. Fiquei muito impressionado. Dei um jeito de me aproximar enquanto esperávamos sermos atendidos no bar da praia. Mara era o seu nome. Não, não estava namorando. Ah! Aquele rapaz? Só um amigo, tinham decidido virem juntos para a Bahia. Fiquei louco de vontade de convidá-la para jantar, mas não queria criar uma situação embaraçosa para ela ou para o amigo. De vez em quando nos encontrávamos na praia, e a convidava para dar uma volta pela areia na beira do mar. Algumas vezes [BT1] ela aceitava. Fiquei surpreso com a facilidade com que nos comunicávamos,  enquanto andávamos, olhando o azul do mar, os reflexos prateados do Sol, a espuma que as ondas levantavam ao bater nos recifes. Conversávamos e eu olhava para ela, de perfil, cada vez mais encantado.

Um dia, o amigo decidiu fazer uma aula de windsurf na hora do almoço e foi a minha oportunidade de chamá-la para almoçar comigo, ali mesmo no bar da praia, aproveitando a brisa do mar. Conversamos sobre tudo, o que fizemos de nossa vida, os planos para o futuro, nossas ambições. Ficou nítida a afinidade que tínhamos e a naturalidade com que abordávamos qualquer assunto. A beleza de Mara me atraía, seu olhar, seu jeito de inclinar um pouco o rosto para a direita quando queria discordar de uma opinião, sua risada aberta, longa, que deixava a piada ou a história ainda mais engraçada. Não consegui mais deixar de pensar nela.

Voltei para São Paulo. Ela não saía mais da minha cabeça. Hesitei um pouco, não sabia se seria bem recebido, mas decidi telefonar. Combinamos de sair no domingo e almoçarmos juntos. Passei pelo prédio em que Mara morava com os pais para apanhá-la e fomos passear na Paulista. A avenida estava fechada para carros e ficava sempre cheia de gente, pessoas de todas as formas e cores, numa diversidade que só uma cidade grande pode mostrar. Passeamos por toda a avenida, paramos para ouvir uma banda de rock que tocava bem, embora o som se misturasse um pouquinho com o de outras bandas e conjuntos que tocavam mal. Também ficamos um tempo na feirinha de antiguidades do MASP. Ela gostou de uma bonequinha de porcelana muito loira, de olhos azuis, que nós compramos. Depois almoçamos por ali mesmo, num pequeno restaurante metido a francês em uma das transversais. Conversávamos, ríamos de tudo, trocávamos olhares. E nos beijamos.

Finalmente, consegui sair da cama. Não é bom me deixar levar pelas lembranças. Agora já são só fantasias. Ela me deixou de repente, sem que eu percebesse o perigo de perdê-la, sem um aviso. Entrei no banheiro, fiz a barba e tomei um banho longo, para acordar de vez. Fui me vestir. No armário, ficou um casaco que era da Mara, que ela usava quase sempre, desde que começava a esfriar, lá pelo final de abril, até o final do inverno. Quando abro a porta, eu ainda sinto o cheiro dela, cada vez mais fraco, sutil, mas ainda ali. Comecei a me vestir e de novo as lembranças tomaram conta de mim.

Depois daquela primeira vez, não demorou muito para começarmos a namorar. E logo não conseguíamos mais desgrudar um do outro. Acho que foram os anos mais felizes da minha vida. Até agora, certamente. Passeávamos, viajávamos juntos, frequentávamos teatro, cinema, todo espetáculo que a cidade oferecia. Nós dois trabalhávamos bastante, ela como fisioterapeuta, eu no mercado financeiro. Ganhávamos relativamente bem e aproveitávamos juntos todos os momentos livres. Tínhamos um enorme tesão e o sexo parecia sempre insuficiente, sempre precisávamos de mais. E era muito bom, e divertido também. Talvez por isso logo decidimos morar juntos no meu apartamento. Era um quarto e sala, mas bem localizado e equipado. A vida nesse início de namoro parecia saída de um conto de fadas.

Vivíamos bem juntos, mesmo com o desgaste natural que o tempo causa em qualquer relação. Sempre tivemos cuidado mútuo e a atração física perdurou, não com a mesma intensidade, mas ainda forte. A paixão tinha se transformado em amor.

Decidi vestir terno e gravata. Não uso terno frequentemente. Atualmente, sou advogado independente — deixei o mercado financeiro há anos — e só me visto formalmente para comparecer a audiências. Mas hoje decidi me vestir assim, mesmo sabendo que não encontraria quase ninguém de gravata. Tomei café da manhã e peguei o celular para dar uma olhada nos jornais digitais. As crises de sempre, as guerras promovidas em nome da paz, a violência urbana. Enfim, nada de novo. Fiz um pouco de hora. Aproveitei para fumar um cigarro. Tinha parado de fumar há 35 anos, tinha sido dificílimo no começo, mas consegui. Voltei ao vício depois que ela foi embora. Agora não consigo parar de novo. Paciência.

Sentado na poltrona enquanto fumava, pensei no quanto Mara teria ficado desapontada me vendo fumar. Ela detestava o cheiro da fumaça do cigarro. Mas ela compreenderia e certamente me apoiaria, como sempre nos apoiamos nos momentos mais difíceis. Quando eu perdi o emprego depois de anos trabalhando no mercado financeiro. Durante a crise financeira que passamos em decorrência disso. Quando tivemos que abrir mão de muitas coisas a que estávamos habituados e pareciam ser essenciais, parte mesmo da nossa personalidade. Quando tentamos engravidar e não conseguimos. Durante os infindáveis e dolorosos tratamentos de fertilidade. Quando nossos pais morreram. Nessas ocasiões, eu costumava ficar nervoso, agitado, e as brigas eram inevitáveis. Mas nunca nos ofendemos, nunca levantamos a voz para o outro. Assim ficava mais fácil voltarmos às boas.

Resolvi ir de carro. Eu tinha parado de dirigir. Logo ao sair da garagem do prédio já fiquei em dúvida se tinha sido uma boa decisão. Mas não estava com ânimo de subir até a estação do Metrô. Fiquei preocupado com o horário, de chegar atrasado. Depois me lembrei que essa minha quase obsessão de pontualidade deixava Mara irritada. Cheguei à igreja do Colégio São Luís às 10:05. Cinco minutos de atraso. Mas a missa ainda não tinha começado. Acho que o padre, meu velho conhecido, tinha esperado a minha chegada.

Há um ano, naquele dia, Mara saiu sozinha para visitar a tia em São José dos Campos. Por alguma razão perdeu o controle do carro e bateu numa carreta. Ainda a levaram para o hospital, mas não era possível fazer mais nada. Não me lembro de como eu recebi a notícia. Só sei que o irmão da Mara tomou conta de tudo. Não me deixaram vê-la. Ironia do destino, esse filho mimado de Deus. Eu brincava com ela que, por ser mais velho, teria o privilégio de morrer nos seus braços, que ela me fecharia os olhos e que o rosto dela seria a última imagem que eu levaria da vida. Mas não foi assim.

A igreja estava bem cheia para uma missa de um ano. Praticamente todos os parentes. Muitos amigos e colegas do trabalho dela. Alguns clientes e amigos meus. Na saída da igreja, alguém me disse que eu precisava voltar a viver como antes, sair, ver pessoas. Talvez precise mesmo, mas ainda não consigo.


 [BT1]repetição

Antonio Pedro da Costa

Antonio Pedro da Costa nasceu em São Paulo, em 1949, mas agora vive em São José dos Campos. É advogado e trabalhou no mercado financeiro muitos anos. Gosta de ler e escrever desde a infância, mas só agora tem a oportunidade de se dedicar à escrita, principalmente de contos. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.