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Aventuras e desventuras da escrita

Aventuras e desventuras da escrita

por Marina Macambyra

Escrever é bom, é divertido e me deixa feliz. A escrita recreativa e sem compromisso, para redes sociais e blogs cujo público é formado, basicamente, pelos amigos e colegas de trabalho pode ser até relaxante.

Escrever tendo em vista a publicação em revistas ou livros, passando pelo crivo de avaliadores, é bem diferente. Também é bom, mas vem com angústias.

No momento, estou às voltas com um livro de contos que será publicado pela Metamorfose. É a hora de rever o texto depois da leitura crítica feita por uma das professoras do curso Formação de Escritores. O processo lembra um pouco o que fazemos quando um artigo acadêmico retorna dos pareceristas para correções. A primeira reação pode ser de orgulho ferido: "como assim, meu trabalho não é genial e perfeito?". Ou de preguiça: "droga, isso vai me dar um trabalhão". A segunda é o arrependimento: "por que DIABOS eu fui me meter nessa?". A terceira reação é entender que é preciso ler novamente, trabalhar, retrabalhar, entender a crítica e aceitá-la (ou não) e que isso também pode ser bom.

A vantagem da leitura crítica literária em relação aos pareceres acadêmicos é que a gente tem a certeza de que os comentários vêm de alguém que realmente entende de escrita e sabe o que está fazendo.

Fácil, não é. Passei a maior parte de um domingo chuvoso corrigindo bobagens menores do texto, como repetições de palavras e construções, trechos sem sentido e excesso de adjetivos. Esse é um dos meus pontos mais fracos: adoro enfiar a mão no pote de adjetivos, pegar um montão e jogar todos no texto, só para depois ter o trabalho de apagar quase todos. Excesso de adjetivos é um problema que professores de escrita não perdoam. Eles passam até mal, coitados. Aceitei quase todas as sugestões, porque eram boas ou, pelo menos, melhores do que eu havia feito.

Agora vem a parte mais difícil. Por exemplo, melhorar os finais de alguns contos que, segundo a leitora, eu não soube terminar. Acho até que sabia, mas não consegui botar no papel. Ou, talvez, não soubesse mesmo. De qualquer forma, ficou ruim.

Um dos contos que vou precisar reescrever todinho. Ficou tão grande que daria para fazer uns três com o mesmo material, todos ruins. Agora não sei se faço os três ou se jogo fora o dito cujo. Foi um dos primeiros que escrevi, antes de começar a fazer cursos de escrita. Eu não sabia o que sei agora é minha desculpa predileta para minhas falhas de escrita. O conto é uma história de fantasmas, sobre um rapaz que está sendo atormentado por uma alma vingativa. Sua irmã mandona descobre um jeito de livrá-lo do encosto e convoca um grupo de amigos para acompanhá-lo até o local assombrado. O ponto de partida é um parágrafo que me veio à cabeça:

Como a previsão era de chuva, todos iam para a casa na praia com a intenção de ler, dormir e, principalmente, beber muito. Todos menos Cláudio, que ia encontrar um fantasma.

Na época, achei tão linda a ideia que fui inventando uma história só para começar com ela. Que tonta. Agora vou mudar o narrador, cortar 80 por cento do texto e talvez nem use o tal começo. E não sei o que vou fazer com Cláudio, nem com o fantasma.

Outro conto ficou tão fraco que até tive dó da leitora. Cheguei a sentir o desespero dela, imaginando a coitadinha desistindo da leitura umas três vezes e se perguntando por que DIABOS foi se meter nessa. No mínimo devo a ela, em honra a esse esforço, tentar fazer o que ela sugeriu. Curiosamente, o conto que ela mais gostou foi um que não achei grande coisa, o que me leva a pensar que não sou muito boa para julgar meu próprio trabalho.

Enfim, ainda não sei como melhorar finais preguiçosos, desenvolver passagens que ficaram com cara de resumo, refazer o que está confuso ou inverossímil. É preciso paciência, aquela qualidade que não tenho sobrando, mas vamos lá. Afinal, era isso que eu desejava, ter a experiência de fazer um livro com uma editora de verdade e passar por todos esses processos.

É provável que eu venda alguns livros, mas não o suficiente para cobrir os custos. Vou escrever outro? Isso vai depender do meu grau de decepção com meu talento literário. Por enquanto, é hora de reler e reescrever.

Marina Macambyra

Marina Macambyra, escritora iniciante, nasceu em 1961. Mora em São Paulo (SP), desde 1979. É bibliotecária formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1981. Teve um conto publicado na revista Originais Reprovados, laboratório dos alunos de Editoração da ECA/USP,  e dois em coletâneas da Metamorfose, A vida aqui não é facil (2021) e Navalha, veneno, mistério: contos policiais, de suspense e investigação (2023).

Publica, ocasionalmente, na plataforma Medium e também escreve textos acadêmicos e técnicos ligados à sua área de trabalho na Biblioteconomia. Suas histórias têm sempre elementos dos gêneros fantástico e horror, em perspectiva feminista. Aluna do curso Formação de Escritores, iniciado em 2025.

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