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Blecaute

Blecaute

por Ana Cristina Sampaio Alves

Blecaute

Houve um tempo em que o Campo Belo, bairro na zona sul da capital paulista, ainda tinha ruas sem calçamento e luz elétrica. Foi quando nos mudamos para lá. A casa, de dois andares, era grande e confortável, mas nossas noites eram marcadas por blecautes. Podiam durar alguns minutos ou várias horas. Às vezes, não atrapalhavam a novela. Em outros dias, o apagão se estendia tanto que criamos uma brincadeira superdivertida: esconde-esconde no escuro.

Foi numa dessas noites de breu na nossa casa que vivenciei a história que vou narrar a vocês. Após uns quinze minutos da falta de luz, já antevendo que não voltaríamos ao capítulo da novela, corremos, minhas irmãs e eu, para iniciar a brincadeira. Minha irmã mais velha foi escolhida para contar até dez de olhos fechados, enquanto nos escondíamos pela casa. Nessa hora, mamãe e papai ficavam na cozinha com as velas acesas, pois queríamos a casa totalmente no escuro.

Assim que percebi minhas irmãs longe, subi as escadas sem fazer barulho e me escondi no armário do quarto dos meus pais. Só que, em vez de entrar no armário maior, já nosso velho conhecido, resolvi buscar o que ficava escondido atrás da porta. Naquele armário estreito e comprido até o teto ficavam guardadas as coisas de valor, como a máquina Rolleiflex do papai, as joias da mamãe e os álbuns de fotografia.

Abri com cuidado a portinha de baixo do armário e encontrei um espaço apertado, onde me sentei com os braços ao redor dos joelhos. Era desconfortável, mas ninguém pensaria naquele armário, tão escondido ele era.

Ouvi os passos da minha irmã no quarto abrindo o armário maior. Intuí que ela olhava embaixo da cama e prendi a respiração. Ela saiu sem mexer no meu esconderijo. Relaxei. Foi quando percebi um toque no meu ombro. Era como se alguém me cutucasse. Meu coração acelerou. Tive vontade de sair correndo do armário, mas minha irmã estava no corredor, tinha acabado de sair do quarto ao lado. A brincadeira não havia acabado.

Mais um cutucão, e quase gritei de medo. Meus olhos estavam arregalados na escuridão.  Já conseguia ver alguns pacotes de guardados ao meu redor. Foi quando, no escuro daquele cubículo, vi um buraco se abrir à minha frente. De dentro dele saiu uma mulher de joelhos, que olhava diretamente para mim. Tentei abrir a porta do armário e escapar, mas, por mais que eu a empurrasse, estava trancada.

Não gritei porque a mulher fez um sinal com a mão, pedindo silêncio. Ela balançou a cabeça num gesto que me convidava a acompanhá-la. Uma luz iluminava o buraco. Então pude ver suas feições que, de alguma forma, me pareceram familiares.

Não sei se foi essa sensação que me acalmou, mas me pus de joelhos e comecei a segui-la pelo túnel, que não era comprido. Logo me deparei com a sala iluminada de um apartamento. A cena me remeteu à história de Alice no País das Maravilhas, quando Alice atravessa uma porta após cair na toca do coelho.

Em menos de um minuto, eu estava sentada com a mulher num grande sofá, olhando os móveis ao redor, tudo muito diferente da minha casa. Ela foi me parecendo amistosa. Pegou na minha mão com delicadeza, afagou meus cabelos. Ficamos assim em silêncio por alguns instantes. Aos poucos, fui me familiarizando com a cena.

Olhei bem para o seu rosto e a achei parecida com mamãe, só que um pouco mais velha. Não saberia dizer sua idade.

— Que lugar é esse? Como eu saí daquele armário? E quem é você? — perguntei, já mais calma.

— Esta é minha casa. Trouxe você aqui para conhecer.

— Mas como eu saí do armário e vim parar aqui?

— São mágicas, iguais às dos livros que você lê. Existem passagens secretas que a gente pode atravessar.

— Então tem uma passagem da minha casa para a sua? — minha curiosidade aumentava junto com a sensação de familiaridade com a mulher.

— Sim, tem várias. De vez em quando eu atravesso uma e te vejo dormindo.

— É você, então, que me cutuca? — eu já havia sentido cutucões que me acordavam no meio da noite, mas nunca tinha ninguém. Achava que estava sonhando.

— Sim, eu gosto de visitar você.

— Por quê? Você se parece com a mamãe.

— Nós somos parentes.

— Você é uma tia que eu não conheço?

Mas ela não respondeu. Como se estivesse lá havia alguns minutos, pareceu adivinhar meus pensamentos.

— Espera, já vamos voltar para sua casa. Eu te trouxe aqui só para te ver mais de perto.

Ela deu um sorriso e me abraçou, afagando meus cabelos. Meu rosto ficou colado ao seu peito. Nunca ninguém havia me abraçado assim antes. Não sabia se devia retribuir ou me soltar, só sei que enlacei meus braços na sua cintura. Ficamos ali um bom tempo em silêncio. Meu coração disparado, ao mesmo tempo em que meu corpo se entregava àquele carinho. Comecei a chorar. Lágrimas se transformaram em soluços. Relaxei naquela emoção, enquanto os dedos dela alisavam meu rosto.

— Eu te trouxe aqui para te dizer que você é muito especial. Você é uma menina linda.

— Não sou, não — respondi automaticamente, enquanto enxugava as lágrimas na ponta da blusa.

— Por que você acha que não é linda?

— Porque sou feia.

— Quem te disse isso? Olha para você — afastou-se um pouco de mim, sem tirar os olhos —, você é a menina mais bonita que eu já conheci. Vai crescer, se tornar uma mulher inteligente, terá uma família, uma profissão. Você vai ser muito bem-sucedida.

Abri um sorriso ao ouvir aquelas palavras, apesar de me soarem estranhas. Nunca alguém havia me dito que eu era bonita, muito menos inteligente. Mas eu só tinha nove anos, e mamãe era muito ocupada. A mulher me abraçou mais uma vez. Eu não resisti e me entreguei àquele afago de olhos fechados. Nessa hora, minha irmã abriu a porta do armário e gritou:

— Achei!

Embalada que estava pela cena de segundos antes, levei um susto. Custei a me acostumar com a luz do quarto. A energia havia voltado. Saí do cubículo com as pernas doloridas. Minha mãe apareceu com cara de brava e nos mandou dormir, pois já era tarde. Naquela noite, fiquei um bom tempo acordada, lembrando do que entendi ter sido um sonho no armário.

No dia seguinte, quis contar a história para minha mãe. Ela costurava na poltrona da sala, e me sentei no chão ao seu lado. Por alguns minutos, juro que tentei falar, mas tive medo da sua reação. Como acreditaria em mim? Mamãe mal me olhou, pois minhas irmãs estavam ali perto brigando por alguma coisa, e ela tinha que resolver a confusão.

Resolvi guardar aquele sonho só para mim. As palavras e o sorriso daquela moça, no entanto, pareceram tão reais que comecei a me olhar no espelho, procurando a beleza a que ela se referira. Quando me sentia sozinha, fechava os olhos e imaginava aquele abraço, o afago nos meus cabelos, o toque suave no meu rosto. A certeza de que seria feliz começou a povoar meu imaginário infantil.

Não me lembrava daquele episódio secreto havia anos. Até ontem, quando, sentada no sofá, olhei em volta e imediatamente reconheci a sala do túnel no armário. A recordação daquela noite de apagão me invadiu como um tsunami. Uma intensa sensação de déjà-vu se instalou.

O coração acelerado, a sensação gostosa do abraço e do cafuné, o rosto da mulher — tudo veio de uma vez à minha mente. A epifania tomou conta de mim. Então, olhei para o espelho da sala e reconheci a mesma mulher. Cinquenta anos haviam se passado, e eu soluçava como uma criança.

 

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.