por Marina Mainardi

Conto finalista da Odisseia de Literatura Fantástica 2024 na categoria Conto Inédito
O riso e os gritinhos das outras crianças ainda ressoam lá em baixo, onde elas correm e brincam no campo. Continuam tratando Lina como se fosse pequena — e ela é, mas só em estatura. Suas vozes distantes já começam a ser carregadas pelo vento norte que sopra da montanha.
Ela olha para trás. Dá pra ver a vila inteira nesta altura da trilha; das plantações que riscam a terra como uma colcha, até o rio que cintila ao longe. Mas não se permite apreciar muito. Se voltar depois do anoitecer, não haverá explicação que evite uma semana de tarefas extras. Então, segue seu caminho até achar o ponto em que deve sair da trilha. De queixo erguido, bate com o cajado mágico no chão e vai em direção ao rochedo.
Na verdade, o "cajado" não passa de um galho seco particularmente reto, que encontrou depois que a última tempestade varreu as árvores para fora da terra. Mas virou também seu cajado, sua lança ou o que quer que precise ser. No momento, é o suporte necessário para escalar as rochas mais altas e alcançar o topo do morro (outro motivo de chacota para os outros, que sobem sem problema com suas pernas compridas).
Mas nem eles passam da borda do rochedo, pensa orgulhosa. É mau agouro pisar sobre o local de descanso de reis antigos. É por isso que a trilha faz uma volta tão grande em vez de cortar atalho pelo meio. Só Alec, um dos mais velhos do grupo, garante que já espiou lá dentro. Disse que está cheio de ouro, urnas e armas, guardados por armadilhas perigosas.
Se esse lugar um dia teve nome, não se sabe mais. Agora é só "a Caverna", murmurado com respeito supersticioso ou nem sequer mencionado. Mas impossível de ignorar; não se encaixa bem com o resto da paisagem. É feita de uma rocha dura que se ergue sozinha bem no topo do morro, de um tom amarelado que lembra a areia clara da praia. O mesmo tipo de rocha quebra a superfície do solo em vários pontos isolados entre aqui e a borda da vila, onde corre o rio. Em cima da Caverna, a vegetação cobre uma estrutura metálica forjada por alguém que a terra esqueceu.
Entre a grama alta que balança ao vento, roçando em suas canelas, uma pedra esbranquiçada brota entre o verde. Com um pé apoiado nela, Lina brande o galho como uma longa espada e murmura para si, com a convicção de um grito de guerra:
— À primeira aventura! — Após uma pausa, adiciona — E por humilhar aqueles idiotas.
Respira fundo, inalando o ar fresco da montanha (que agora tem um leve toque de umidade parada) e, com o coração batendo na garganta, atravessa a boca da Caverna.
Na parede sul, vários metros acima da entrada, três orifícios meio encobertos pela folhagem filtram a chegada da luz do sol. Não é muita, mas o bastante para se enxergar sem uma luminária (que Lina não se lembrou de trazer). E para perceber que o Alec é um grande mentiroso.
Pelas histórias, ela esperava algum tipo de cripta suntuosa. Em vez disso, o ambiente amplo se encontra vazio. Ou quase. No centro, a única estrutura: um altar rudimentar que suporta um escudo antigo.
Suporta como, Lina não sabe dizer. Parece estar em pé sozinho, mal tocando o altar. Sua superfície ainda é marcada por ecos de uma batalha perdida. Ao redor da beirada, é entalhado com algum tipo de língua falada por outra era. Lina corre o dedo de leve por cima, mal sentindo as letras apagadas.
— Vai ter que servir — resmunga dando de ombros.
Antes que sequer pegue o escudo e o leve consigo, ele cai no chão com um baque surdo abafado pela terra, e um leve clang metálico. A montanha inteira estremece, e por um segundo absurdo, Lina se pergunta se o escudo era tão pesado assim.
Então, uma voz retumbante faz sua cabeça vibrar.
— QUEM INVADE MEU DOMÍNIO E PERTURBA MEU SONO?
— Hum... Eu... Lina?
— Ousa roubar de um deus? — a voz pergunta em um volume mais aceitável, ainda ressoando por todos os lados.
— Bom, — responde, girando ao redor tentando encontrar o fantasma — eu só esperava pegar algo emprestado, me exibir e devolver. Mas parece que me superestimei um pouco.
— Não nega ser uma ladra, então?
— Não foi o que eu disse...
— O que tem em mãos foi uma relíquia inestimável, ofertada pelo guerreiro mais bravo de seu tempo em troca de prosperidade para sua terra.
— Eu posso colocar de volta!
Lina se ajoelha ligeiro, juntando o escudo para devolvê-lo ao altar. Em vez de parar em pé como antes, ele insiste em rolar para o lado ou cair para trás. Suas mãos trêmulas sentem a diferença na própria textura do objeto, que parece mais frágil a cada segundo.
— É tarde demais. Foi maculado pelo toque de uma mortal.
— Eu posso consertar... — insiste, olhando para cima e para os lados. — Onde você está?
— Em toda parte, criança.
— Eu não sou criança! Sou só baixa pra minha idade.
— O mais velho de seus anciãos é uma criança aos meus olhos. É dentro de meu crânio que você pisa. Foi em meu dente que se apoiou. Pelas minhas costelas, escalou até o cume. É sobre a lâmina de minha espada que seu povo atravessa o gado dos vales até os campos altos na primavera.
— Pensei que fosse uma velha ponte — sussurra em choque.
— Agora é. Diga, o que me impede de erguer do solo, agora que o pacto foi quebrado?
— Minha vila iria sucumbir!
— Vilas surgem e desaparecem. Em um milênio, seu povo estará perdido nas areias do tempo, esquecido por todos, exceto por mim.
— Mil anos é bastante tempo!
— Para mim, não é mais do que um segundo.
— Então, o que custa esperar?
— Tanta ousadia para tão pouco tamanho. O que tem para me oferecer?
— O que você aceita? — pergunta a jovem, que vem de uma vila de simples agricultores e nunca viu um guerreiro fora dos desenhos nos livros. — Não temos escudos como esse, nem ouro.
— Ouro e prata não importam. Não aceito nada menos que um símbolo de bravura.
Estar preparada e saber como agir são habilidades que Lina julga muito importantes. São também habilidades que Lina não tem. O que ela desenvolveu para compensar essa falta foi a habilidade de improvisar no impulso e seguir com ele até o fim. (Há quem chame isso de defeito. Mas o que eles sabem?)
— Posso oferecer a minha arma. — Junta do chão o galho com a ponta polida de tanto arrastar e bater contra o solo.
— Isso não é nenhuma arma.
— É sim — garante, com confiança que não sente, pensando em todas as vezes em que o usou contra os garotos maiores quando se juntavam contra ela. — É uma espada, uma lança, ou um cajado. É o que precisar ser.
Uma brisa vem de lugar nenhum e cerca Lina, bagunçando seus cabelos. Então, diminui e parece focar em seu ombro, descer pelo braço e rodear sua mão. O galho vibra de leve, como se quisesse sair correndo sozinho ("eu também", Lina pensa de passagem).
Naquele segundo, que durou bem menos que um milênio, o simples galho mostrou ao deus seus feitos: os dragões, que na verdade eram pedras; os gigantes, que na verdade eram árvores; os trolls, que na verdade eram espantalhos velhos. E as batalhas contra os garotos maiores, inimigos bem menos imaginários do que os anteriores, que quase sempre terminavam em derrota.
— Entendo. — A brisa some como se nunca houvesse existido. — E o que é esta arma agora?
— É uma promessa.
— Vem do guerreiro mais bravo de seu tempo?
— Sim. — Responde com tanta certeza? — indaga a voz com certo interesse.
— Meu tempo sequer começou. Em vez de um símbolo de bravura passada, eu ofereço todos os meus atos de bravura futura.
— É uma promessa grande, vinda de uma jovem pequena com um galho. Aposta nisso a vida de todos que conhece?
Lina pensa um momento. Há mesmo uma escolha a ser feita aqui? Se não era verdade antes, agora vai ter que ser. Ergue o galho e o segura sobre o altar. Hesita em largá-lo.
— Coloco em pé ou deitado? — Não obtém resposta, mas a brisa soa muito como um suspiro. — Hm. Certo.
Da abertura da Caverna — ou da boca do antigo deus, adormecido uma vez mais, olha para trás. A claridade do dia afeta sua visão, e o interior parece mais escuro do que antes. Quase se vê um altar, onde um galho de ponta gasta quase toca a superfície. Lina vai voltar de mãos vazias e com uma história que não pode contar. Mas isso já não importa mais.
Completou a Formação de Escritores da Metamorfose, e está atualmente cursando a Formação de Revisores. Bacharela em Ciências Biológicas pela UFRGS, e decidiu transformar essa carreira em hobby e seu hobby em carreira. Participou de seis coletâneas de contos, a mais recente foi com o evento "Tu, Frankenstein - Nova Era" (2025).
Escreve nos gêneros de horror e fantasia, com um pouco de morte e um tanto de humor em tudo que escreve.
Seu livro de estreia, "A Única Certeza é a Morte", foi premiado pela Odisseia de Literatura Fantástica 2022 na categoria Narrativa Longa Fantástica.