por Lais Collares
Nada substitui os anos em que morei na Itália. Durante o meu período no país,
transitei por diferentes regiões, mas o sul foi onde residi por mais tempo e também onde o
meu coração foi fisgado.
Os italianos são muito ligados às suas tradições. Uma das maneiras de perceber
isso é através da culinária.
Como brasileira, sei que alho e cebola são fundamentais na nossa comida. Se
você for para a Itália esperando uma explosão de temperos, você se frustrará. Cada
alimento tem a sua particularidade e eles cozinham de modo que o sabor se mantenha
quase intocado. É uma questão de respeito para eles. Dá para entender o porquê de o
ketchup na pizza ser tão odiado, não? Algo que adorei lá foi a tal da pizza branca, que é
basicamente sem o molho de tomate e acaba tendo um sabor diferenciado.
Inclusive, um sabor que amo é "broccoli e salsiccia''. Eles são extremamente
preocupados com a combinação dos sabores, por isso, você não pode simplesmente
inventar demais. Descobri isso quando resolvi substituir a salsiccia pelo gorgonzola e
quase recebi o meu atestado de óbito.
Você aprende a ver a comida com outros olhos. Lá eles comem por etapas:
primeiro vem o carboidrato, depois a proteína acompanhada de salada ou legumes e, por
último, a fruta ou a sobremesa. Comer não é apenas para saciar a fome, é um ritual
social. Os italianos também têm o costume de transcorrer bastante tempo à mesa. Só
começam a comer depois que todos estão servidos e disseram bom apetite. Talvez você
não tenha tanto tempo e precise optar por um prato ou outro, mas via de regra é algo bem
ritualístico.
É um outro ritmo de viver e, para quem está acostumado a cidades mais
aceleradas, estranha que muitos locais fechem durante umas três horas para a pausa do
almoço. Fiquei muito feliz e representada quando descobri que massa com feijão é típica
lá. Quantas vezes ouvimos que misturar massa com feijão não combina ou é coisa de
pobre?
Onde eu morava, me chamou muita atenção que eles não faziam fila. Eles só
precisavam saber quem chegou antes e, sabendo disso, uma vez que a pessoa fosse
atendida, seria a sua vez. Achava interessante e até um pouco engraçado que às vezes
eles se telefonavam e perguntavam se tinham comido e o que tinham comido. Aí você vê
que a cultura é realmente voltada para a culinária.
Descobri até uma nova verdura chamada "agretti'' que num primeiro momento
jurei que fosse capim, mas, apesar da aparência, era deliciosa. Para não falar do "cime di
rapa". Doces lembranças, mas não tão doces quanto o café da manhã. Já imaginou
começar o dia com "cornetto" ou biscoito?
Ah, e não dá para esquecer do café, é claro. Estranhei quando o vi pela primeira
vez: era um shot. E eles repetiam aquele ato religiosamente várias vezes ao dia. Já vi até
gente voltando de uma festa a uma hora da manhã e tomando um cafezinho. Vendem até
na praia! Bom, eu que não tomava, passei a tomar. É um ato de socialização. Eu gostava
do sabor, pois se fosse só para fazer companhia, também teria começado a fumar.
Eles ficavam surpreendidos comigo, ou melhor, com o meu estômago. Como eu
conseguia misturar tantos sabores sem explodir. Ouvi muitos dizeres que não fazia ideia
da existência: "não se come pimentão à noite, faz mal para digestão", "não se mistura
leite com comidas ácidas, faz mal" e por aí vai.
E, apesar de todo esse tempo ter sido maravilhoso, nada substitui a primeira vez
que botei os meus pés em solo italiano. A minha primeira viagem foi a Roma para
comemorar meu aniversário, em julho, no verão europeu. Nesta ocasião, comi um dos
salgados mais gostosos, chamado supplì, que de alguma forma lembrou a minha terra.
Não posso deixar de fora o meu incidente com uma gaivota. Após ter andado ao
menos cinco horas num calor de quarenta graus, a minha barriga disse que não dava
mais. Foi então que vi uma padaria de longe e entrei para comprar uma fatia de pizza. Saí
de lá dando a primeira mordida e, enquanto eu mastigava, uma explosão de sensações foi
crescendo. Era a vitória, eu me deliciava e admirava aquele lugar. Um pensamento dura
segundos e foi o mesmo tempo que a pizza durou na minha mão. Eu só senti algo tocando
o meu ombro e depois vi de relance a minha pizza voando. É... precisei voltar e comprar
outra com os meus poucos trocados. A segunda foi escoltada por mim.