×

Caí do cavalo em uma agência bancária

Caí do cavalo em uma agência bancária

por Idarci Esteves Lasmar

Caí do cavalo em uma agência bancária

Entro em uma agência bancária. Costumava frequentá-la com mais assiduidade antes das instituições financeiras colocarem a tecnologia à disposição dos clientes. Dirijo-me à fila da prioridade. É o bastante para lembrar-me de um fato inusitado acontecido ali mesmo.

Mas antes de relatar o fato ocorrido, quero esclarecer algo para quem nunca frequentou (ainda) a fila da prioridade. Representa um experimento diferente, pois, ela não evolui, a pressa é proibitiva pelo próprio funcionamento dos clientes. O relógio do banco não funciona para essa clientela. É cheia de contrastes - silêncio nas cadeiras e burburinho na fila - provocando a paciência de quem ainda se sente "novo" para tanta demora.

Voltando ao fato inusitado de minha lembrança de anos antes. Fui ao Banco do Brasil e dirigi-me para a fila da prioridade que ia para o caixa.

Somente uma senhora estava sentada em uma das cadeiras oferecidas para esse tipo de público. Outras dez pessoas estavam em pé na fila, uma delas já se preparando para o atendimento a seguir.

Olhando para mim, a que estava sentada disse:

— Senta para esperar. A nossa fila flui devagar. Tem gente que esquece senha, tem dificuldade para assinar o nome e outras coisas, não podemos ter pressa, só paciência. Concordei com ela e sentei-me.

Nisto, entrou na agência um homem alto, coluna ereta, boina ajustada à cabeça, coturno perfeitamente amarrado, farda camuflada própria de militares. Chegou com passos firmes e entrou na fila prioritária onde eu deveria estar. Temendo confusão e perder o meu lugar, levantei-me e, educadamente, comuniquei-lhe que eu ocupava um lugar na sua frente, mas estava sentada para esperar a fila andar.

Ele olhou-me firme e direto, com as pálpebras superiores levantadas e piscando em excesso. Quase adivinhando que eu havia mexido com quem não devia e já me arrependendo, senti um frio úmido descendo pelas minhas costas. Então, ele me perguntou:

— A senhora algum dia, já caiu de um cavalo? Com a voz sumindo eu respondi:

— Nunca.

Apontando o dedo indicador bem na frente de meu rosto, ele falou:

— Pois, se cair não volte a montar depois. A senhora não está na fila, então caiu do cavalo. Mas, vou permitir que a senhora volte a montar. Então, OCUPE O SEU LUGAR NA FILA... AGORA!

Um silêncio pesou sobre o ambiente. Até a respiração dos presentes ficou suspensa, cheguei a ouvir o tique-taque do relógio do banco. Os olhares cravaram-se em mim, esperando a minha reação.

Medo, estresse, raiva, tudo passou por mim, mas tentei racionalizar a situação. Rompera-se a realidade tranquila que eu estava vivenciando na fila com outras companheiras de prioridade.

Respirei fundo, ergui os ombros, olhei-o com firmeza e respondi com voz calma:

— Eu não caí do cavalo, não voltei a montar, nem preciso de sua permissão para ocupar o meu lugar que o senhor já sabe qual é. Vou continuar sentada.

E assim fiz.

Idarci Esteves Lasmar

www.idarcielasmar.com.br

Mineira de Alfenas nasceu em ambiente rural, aprendendo a escutar os sons de um mundo especial a sua volta eguardar na memória tudo o que via com olhar atento _terra emuito céu.

Apaixonada por ensinar e escrever, a sala de aula foi sua casa por muitos anos, mas a escrita sempre esteve presente desde a infância.

Formou-se em Direito, fez mestrado em educação e várias especializações na área ambiental. Dedicou-se a escrever livros que ajudaram professores e escolas a pensar de forma mais integrada e cidadã, como Transversalidade e Integração – educação turística-ambiental;Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental de Minas Gerais: uma proposta de participação cidadã.

Na literatura, fez sua estreia comprosa poética no livro Das Palavras (Editora Guemanisse). Depois vieram contos em coletâneas como Palavras que mudaram o mundo, Contos de Viagem (ambos pela Editora Metamorfose) e Anima (Toca Editora). Também participou de um e-book em homenagem aos professores.

Em 2025, publicou o livro solo Vaga Lume – Prosa Poética (Toca Editora) e em 2026, participou das Antologias: Estação: Poesia. Poetizar a vida (Publicada – Vamos Cultural) e Cartas – as juras que prometi (Travassos Editora, em fase de edição).