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Carta a um Escritor

Carta a um Escritor

por Ana Souza de Magalhães

CARTA A UM JOVEM ESCRITOR

 

 

 

Meu caro escritor,

 

hoje recebi seu livro. Quero agradecer pelo imenso carinho a mim dedicado. Fiquei muito feliz com esse gesto.

Ao foleá-lo, me encantei com as ilustrações. Elas me remeteram ao Pequeno Príncipe: quanta candura nos traços! O ilustrador soube interpretar muito bem as palavras. A capa, então! Fiquei encantada com a leveza e a perfeição da fênix. O último capítulo levou-me às lágrimas. Li também a correspondência que estava anexada na primeira página.

Ao lê-la, percebi sua frustração, o desapontamento com a escrita e, principalmente, a dúvida quanto a continuar nessa jornada de escritor.

Sim, meu caro, compreendo perfeitamente sua angústia. Dói — e é totalmente aceitável sentir essa dor. Este é um momento confuso, cheio de sentimentos contraditórios. Enquanto alguns parecem seguir adiante sem tropeços, para outros o caminho exige mais tempo, mais esforço.

Para mim, foi assim. E talvez para você não seja muito diferente. Depois que terminamos de escrever, começa um trabalho diferente — e, muitas vezes, mais difícil.

Quando comecei, pensei em desistir. Lembro-me do lançamento de meu primeiro livro, uma obra infantil. Acreditei, ingenuamente, que conseguiria vender o bastante para cobrir as despesas da publicação.

Ledo engano. As vendas foram um desastre.

O que mais me feriu foi ver a editora dedicar toda a publicidade a outro título infantil, de uma autora já reconhecida. Não preciso dizer o quanto aquilo foi frustrante e doloroso.

No auge da revolta, perguntei a mim mesma:

— O que ela tem que eu não tenho?

Tudo, respondi.

Ela tinha nome, experiência e leitores. Eu sabia disso, mas algo dentro de mim insistia em dizer que eu não era escritora. Pensei em queimar o livro, mas não o fiz.

Recolhi-me em silêncio e permaneci assim por dias, meses e anos. Só muito tempo depois compreendi o que estava acontecendo. Este afastamento, após lançar o livro, foi para mim uma espécie de resguardo.

O resguardo é aprender a confiar no instinto materno. É um processo confuso: noites mal dormidas, choros incessantes, peito dolorido, leite que teima em não sair. Queremos mostrar ao mundo a beleza do filho, mas estamos cansadas, desarrumadas, escondidas atrás de olheiras. Ao mesmo tempo que ansiamos por reconhecimento, tudo o que desejamos é desaparecer.

Com o tempo, tudo se acalma. As noites deixam de ser um tormento, os choros passam a ter hora marcada, as cólicas já são compreendidas e — pasme — aprendemos até a reconhecer o significado de cada choro. Assim se constrói a relação entre mãe e filho: ele nasce de nós, mas não para nós.

O mesmo acontece com os livros. Eles também nascem de nós, mas não para nós. Esse período eu o chamo de resguardo literário.

Você está, justamente, nessa fase: a do resguardo literário. Um período para aprender a conviver com sua criação. Ela é sua obra. Queira ou não, nasceu de você. E, a partir daí, ganha o mundo. Não é mais possível controlá-la.

Certa vez, após ler um de meus poemas, um senhor disse:

— Não entendo muito o que você escreve, mas há algo filosófico nas letras. Por isso, você deve continuar.

Para encerrar, cuide de sua obra e de si mesmo. Ambos ainda estão aprendendo a caminhar juntos.

Um grande abraço — e já ansiosa para ler o próximo livro. Sei que virá.

 

Ana Souza de Magalhães

 

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Texto produzido como exercício do curso de escrita criativa da Escola Metamorfose

Ana Souza de Magalhães

Ana Souza de Magalhães nasceu no interior de Minas Gerais. É formada em Pedagogia pela UEMG, com pós-graduação em Pedagogia Empresarial pela PUC Minas. Vive há alguns anos na Alemanha, onde se especializou em cuidados geriátricos pela escola Johanniter, em Wertheim. Participa das coletâneas Casos de Família, com o conto Idaí, e Mundo Fantástico, com o conto Urá, organizadas pelo curso de escrita criativa da Metamorfose, do qual faz parte. É autora do livro infantil Céu de Brincar e do romance Entre Flores e Algodão, em edição pela Metamorfose.