×

Cartas que o tempo não apagou

Cartas que o tempo não apagou

por Vilma Toloto

Cartas que o tempo não apagou

Anos depois de enviuvar, Raquel recebeu uma mensagem inesperada de uma colega dos tempos de escola, ainda moradora de Porto Feliz: "Querida Raquel, tudo por aqui continua igual. Ja? me aposentei e agora trabalho como cuidadora. Eu queria muito te convidar para um café neste fim de ano. Ficaria feliz se viesse." 

Era dezembro, perto do Natal, e Raquel pretendia visitar a fami?lia. Ainda que surpresa com o convite, aceitou. 

Na estrada de volta a? cidade natal, sentiu as lembranças se acumularem no peito: a escola, os amores, os sonhos. Porto Feliz parecia ter parado no tempo. 

Ao chegar na casa da colega, sentiu algo estranho, como se aquele lugar lhe fosse familiar, mesmo sem reconhecer. A campainha tocou. A amiga, agora com os cabelos grisalhos e rugas nos olhos, abriu a porta com um sorriso caloroso. Sentaram- se na sala e passaram muito tempo relembrando os tempos do cole?gio, os colegas e as traquinagens. 

— Lembra quando fomos suspensas por libertar um passarinho na sala de aula? — perguntou Raquel, com um sorriso travesso. 

— Claro! Era treze de maio. Queri?amos simbolizar a abolic?a?o da escravatura com aquele gesto. 

— E fomos ao cinema nos três dias seguintes ver o mesmo filme — riu Raquel. — "E? Difícil Ser Feliz", lembra? 

Riram juntas. Mas então o rosto da amiga se tornou sério e disse:

— Raquel, preciso te contar o verdadeiro motivo de eu ter te chamado aqui.

O coração de Raquel apertou. Silêncio.

— Eu cuido de uma pessoa que você conheceu muito bem.

— Quem?

— Edson.

Raquel levou a ma?o a? boca.

— Ele esta? doente?

— Sim. Alzheimer. Ainda no ini?cio, mas a progressa?o tem sido ra?pida. Esta casa 

e? dele. Ele fala de voce? o tempo todo. Guarda todas as cartas que voce? mandou. Disse que voce? foi o grande amor da vida dele. Pediu que eu a encontrasse. Quer muito te ver. Voce? quer ve?-lo? 

Raquel assentiu, sem pensar. 

No quarto, Edson folheava um livro. Quando a viu, seus olhos se iluminaram e um sorriso leve nasceu nos la?bios. Ela tomou suas ma?os e ficaram um bom tempo em sile?ncio, conectados por algo que nem o tempo nem o esquecimento puderam apagar. Pouco depois, o filho u?nico de Edson chegou. Ao ver Raquel, franziu a testa. 

— Quem e? essa mulher?

A cuidadora respondeu com cuidado:

— Uma antiga amiga do seu pai.

Raquel e Edson conversaram por mais de uma hora ate? o filho entrar 

novamente no quarto, de forma seca e fria. No dia seguinte, com a cuidadora de folga, foi ele quem atendeu a porta. Sem mesmo cumprimentar Raquel, disse: 

— Meu pai na?o dormiu depois que voce? veio. Por favor, va? embora. Na?o volte mais. Na?o sei que tipo de relac?a?o voce?s tiveram, mas isso so? o abalou. 

Raquel se foi. Mais tarde, ligou para a cuidadora e contou o ocorrido. A amiga passou a ajuda?-la a visitar Edson a?s escondidas nos peri?odos em que o filho se ausentava. 

Juntos reviveram pedac?os do passado: ouviam mu?sicas antigas, caminhavam pelo jardim, observavam os beija-flores e viam filmes. Entre beijos e abrac?os, o tempo parecia dobrar, trazendo de volta o que se julgava perdido. 

Numa dessas visitas, Raquel lhe disse que precisava partir. A despedida foi amarga. Edson, ja? mais fra?gil, sentiu como se a u?ltima chance de reviver aquele amor escapasse por entre os dedos. 

Mesmo distantes, continuaram trocando mensagens, ele com a ajuda da cuidadora. O filho no comec?o na?o admitiu, mas como o quadro do pai piorava e ele não poderia perder a cuidadora, aceitou. 

Raquel, quando soube da a piora do quadro de Edson, tomou uma decisa?o: se mudaria para perto dele. 

Dias depois, chegou a? casa. Entrou no quarto. Edson estava sentado, ouvindo mu?sica cla?ssica, com o olhar fixo em uma parede branca. Virou a cabec?a devagar, sem reconhece?-la. 

— Quem e? voce??

— Sou a Raquel. Vim ficar com voce?. 

Num fim de tarde, o filho cruzou com Raquel no corredor e disse, sem olhar nos olhos dela: 

— Na?o sei o que voce? quer do meu pai, pois a?s vezes ele nem se lembra que eu sou filho dele. Mas se ainda encontra alguma paz ao te ver, enta?o fique. So? na?o espere que eu compreenda. 

E ela ficou. 

Todos os dias, contava histo?rias, lia livros, descrevia o mundo visto atrave?s da janela como se imprimisse, com palavras, a memo?ria desfeita de Edson. Entendia seus gestos, seus sile?ncios. No cuidado, florescia um amor que na?o dependia da lucidez. Sabia que algo nele se perdia um pouco a cada dia. Mas, mesmo assim, havia amor verdadeiro e de entrega total. E todas as vezes que suas ma?os se encontravam, ele ainda sorria. 

Meses depois, sentados no banco de madeira do jardim, sob o ipe?-amarelo, o sol da tarde deixava o cha?o colorido e as flores cai?am suavemente ao redor deles. Raquel segurava as ma?os de Edson com carinho. Os dedos entrelac?ados como se quisessem impedir o tempo de leva?-lo. 

— Voce? se lembra? A gente se conheceu num jardim assim. As flores eram outras, o tempo tambe?m, mas voce? tinha o mesmo sorriso e o mesmo olhar. 

Ele na?o respondeu. Mas havia paz em seu rosto, como se sua voz ecoasse dentro dele. 

— Eu esperei por voce? — sussurrou ela, com um sorriso tímido e os olhos u?midos. - Agora que te encontrei, posso enfim dizer: eu te amo, Edson. Com tudo o que fui, com tudo o que ainda sou. Mesmo que voce? na?o se lembre, eu me lembro por no?s dois. 

Um vento leve soprou. Ele fechou os olhos devagar. Um sorriso sereno surgiu em seus la?bios. Ela se inclinou, encostou a testa na dele e murmurou: 

— Estou aqui.

Vilma Toloto

Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.

Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.

É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.